O tratamento de câncer ganha cada vez mais espaço na estratégia de grandes grupos de saúde do país, em linha com uma tendência global de aumento da incidência da doença por causa de fatores demográficos, ligados a hábitos de vida e alimentares e falta de prevenção, entre outros.

O Brasil deve registrar 781 mil novos casos da doença por ano até 2028, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA).

De redes hospitalares a operadoras de saúde, o setor se movimenta para atender um número crescente de pacientes – em um momento em que a maior rede privada de oncologia do país, a Oncoclínicas, enfrenta uma grave crise financeira e de governança que abre espaço para o avanço de concorrentes.

Estima-se que o mercado privado de oncologia no país tenha crescido 10% ao ano entre 2021 e 2024. E a expectativa é que esse ritmo se mantenha até pelo menos 2027, segundo projeções do time de analistas do BTG Pactual. 

Atualmente, o segmento já representa 15% de todos os valores que os planos de saúde pagam por atendimentos, exames, internações e tratamentos médicos.

A lógica da integração

A leitura de muitos analistas que cobrem o setor é que a Rede D’Or, maior empresa privada de hospitais do país, está melhor posicionada para absorver esse crescimento de demanda. 

“A Rede D’Or se estruturou como uma rede integrada, o que permite acompanhar o paciente ao longo de todas as etapas do tratamento oncológico”, diz Gustavo Harada, head de alocação da Blackbird Investimentos. Isso inclui consultas, exames, infusões, quimioterapia, radioterapia e cirurgias. 

“Essa integração eleva o ticket médio”, completa Harada. Ou seja, a receita por atendimento aumenta, dado que um número maior de etapas do tratamento fica dentro da rede.

Em 2025, a Rede D’Or, sob a liderança de Paulo Moll, faturou R$ 3,9 bilhões na área de oncologia, o que representou um avanço de 22,4% em relação ao ano anterior. A área passou a responder por 11% da receita dos hospitais, acima dos 10,2% de 2024.

A companhia tem uma vertical específica para o segmento: a Oncologia D’Or, com 67 unidades espalhadas pelo país. A presença é maior em São Paulo, com 25 unidades, seguido pelo Rio de Janeiro, com 19.

Segundo os analistas do BTG, a empresa é hoje a que mais pode ganhar espaço com a crise da Oncoclínicas – principalmente nessas localidades em que as duas estão mais presentes. 

“Vemos oportunidades relevantes para a Rede D’Or nessas regiões, onde a sobreposição é maior e a dificuldade de retenção de médicos pela Oncoclínicas tende a ser mais acentuada”, dizem os analistas Samuel Alves, Maria Resende e Marcel Zambello no relatório. 

A Oncoclínicas acumula cerca de R$ 4 bilhões em dívida líquida e sofre a desconfiança do mercado devido a uma relação ainda não esclarecida com o Banco Master, de Daniel Vorcaro.

Antes de ser liquidado, o banco chegou a deter 15% da companhia. Enquanto isso, a Oncoclínicas mantinha cerca de R$ 480 milhões aplicados em CDBs do banco.

O tamanho da empresa dá a dimensão do que está em jogo.

Sob a liderança do médico Bruno Ferrari, que deixou o cargo de CEO recentemente, a Oncoclínicas tem cerca de 150 clínicas espalhadas por 35 cidades – e responde por algo perto de 20% dos atendimentos de câncer feitos fora de hospitais no país.

Em 2024, a rede realizou 692 mil infusões, mais de três vezes o volume da Rede D’Or no mesmo período (214 mil). Os números da Oncoclínicas relativos a 2025 ainda não foram divulgados.

Mas, diante das incertezas e do alto endividamento, a empresa tem perdido médicos, enquanto fornecedores e potenciais parceiros adotam mais cautela por causa do risco de crédito.

O movimento de grandes empresas 

Em meio às tentativas de salvar o negócio, a Oncoclínicas começou a negociar um arranjo empresarial com a Porto Seguro, que tem uma vertical relevante na área, a Porto Saúde.

As duas companhias assinaram um acordo preliminar para criar uma nova empresa, que concentraria as 150 clínicas da rede. A Porto colocaria até R$ 1 bilhão no negócio e passaria a ter voz ativa na operação. 

A leitura do mercado é que, com o negócio, a Porto busca manter sob controle a conta de tratamentos de oncologia e evitar depender de outras redes a custos maiores. Hoje, a seguradora paga cerca de R$ 500 milhões por ano à Oncoclínicas para atender seus clientes.

No negócio desenhado, a Porto conseguiria levar parte desse atendimento para dentro de casa. Com isso, evitaria ficar mais exposta, em especial, à Rede D’Or – que tem preços mais altos e é sua concorrente direta no mercado de planos de saúde, por meio da SulAmérica, que adquiriu em 2022.

A Porto não é a única empresa de saúde que passou a olhar mais de perto para a oncologia.

A Rede Américas, formada a partir da união de hospitais da Dasa e da Amil em negócio concluído há pouco menos de um ano, acaba de contratar um dos oncologistas mais respeitados do país, o doutor Antonio Buzaid, junto com sua equipe, para liderar a área no grupo.

Buzaid, que estava havia 14 anos na Beneficência Portuguesa, assume como Diretor Médico Geral do Centro de Oncologia dos Hospitais Nove de Julho e Samaritano Higienópolis, em São Paulo.

A ambição da Rede Américas – liderada pelo CEO Lício Cintra – em oncologia prevê uma nova unidade dedicada à área, atualmente em construção na alameda Jaú, no bairro do Jardim Paulista, com previsão de inauguração em 2027.

Em fevereiro, o Bradesco anunciou que vai reorganizar seus ativos de saúde sob uma nova marca, a BradSaúde. O grupo reúne operações como o Bradesco Saúde, a Odontoprev e a Atlântica Hospitais. E nasce com receita estimada em R$ 52 bilhões, considerando os resultados de 2025.

Dentro dessa estrutura, a oncologia aparece como uma das frentes prioritárias.

A entrada mais direta vem pela Croma Oncologia, uma rede criada em parceria com a Beneficência Portuguesa, a Atlântica e o Fleury, com a proposta de acompanhar o paciente em todas as etapas do tratamento. Hoje, são 14 clínicas em operação. E a ideia é expandir essa presença pelo país.

Evolução do tratamento

Mas o avanço da oncologia não vem só da expansão das redes. Ele também passa por uma mudança na forma como o câncer é diagnosticado e tratado.

A imunoterapia é levada para fases mais precoces do tratamento, ao mesmo tempo em que terapias-alvo ampliam a precisão ao atuar diretamente no crescimento do tumor.

Um dos principais vetores dessa transformação é a genômica – área da medicina que estuda o DNA e como suas variações influenciam o desenvolvimento de doenças. 

No caso do câncer, isso significa, por exemplo, olhar para as alterações genéticas do tumor para entender como ele se comporta. E, a partir daí, definir o tratamento mais adequado. 

Essa lógica também muda o acompanhamento da doença. Inovações como a biópsia líquida permitem detectar fragmentos do tumor no sangue, sem a necessidade de procedimentos invasivos. Isso ajuda a monitorar a reação ao tratamento e até identificar precocemente o retorno do câncer.

“A genômica é um componente indissociável da atenção na oncologia. Tanto na prevenção, com a identificação de indivíduos com maior risco de desenvolver câncer, até a definição de tratamentos mais direcionados”, diz Henrique Galvão, gerente médico da Dasa Genômica, braço de testes genéticos da Dasa.

Hoje, essa abordagem ainda está em expansão no Brasil. Mas é vista como um dos caminhos para reduzir a diferença nos resultados do país em relação a mercados mais desenvolvidos.

A taxa de mortalidade no país em relação à incidência de câncer é de cerca de 44%. Significa que, a cada 100 pessoas diagnosticadas, 44 falecem da doença.

Está bem acima de países desenvolvidos como Estados Unidos e Austrália, onde essa relação fica em torno de 25 mortes a cada 100 diagnósticos.

“Por que os desfechos no Brasil são piores do que em países desenvolvidos? Talvez porque ainda exista uma lacuna de investimento em tecnologias que trazem melhores resultados, tanto para o paciente quanto para quem financia”, completa Galvão.