A cada poucos meses, algum executivo da construção civil reclama em entrevista que sofre com a falta de pedreiro, de mestre de obra, e que cada vez menos pessoas querem trabalhar no canteiro. Os “culpados” habituais são o Bolsa Família, o Uber e até uma suposta indolência geracional.
David Fratel, diretor do Sinduscon-SP — o sindicato que representa as construtoras paulistas —, diz que o problema é que falta atratividade para a profissão. “A construção civil está se modificando para acolher o jovem, e não ao contrário. Pelo menos deveria estar.”
O tom de irritação do dirigente vem de dentro da própria trincheira patronal. E esconde uma história bem mais complexa do que aquela que cabe em uma manchete de fácil apelo nas redes sociais.
Esta reportagem do InvestNews mostra que as causas profundas não serão resolvidas com soluções simples na base da “canetada”. Na segunda parte, nesta semana, vamos contar as iniciativas de empresas do setor para remediar a questão, como novos métodos construtivos.
O que os dados dizem
Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), investigou os “suspeitos” mais citados: Bolsa Família, aplicativos, rotatividade e demografia. Sua conclusão: a escassez não tem só uma causa só – mas tem uma razão principal. E ela é estrutural.
Para entender melhor as causas, é necessário voltar mais de três décadas no tempo.
A partir dos anos 1990, duas transformações ganharam força ao mesmo tempo no Brasil: a taxa de fecundidade despencou (de quase filhos por mulher nessa década para menos de 1,6 hoje) e a escolaridade média subiu.
Nos países ricos, mudanças dessa natureza levaram décadas e foram acompanhadas de investimento pesado em automação da atividade produtiva e de políticas de incentivo à imigração. No Brasil, por outro lado, se deram em meio a um mix de estagnação econômica e baixo acúmulo tecnológico.
A demografia do país já se assemelha à de uma nação desenvolvida — o contingente absoluto de jovens em idade ativa está encolhendo, especialmente no Sudeste e no Sul, onde a construção mais emprega. Mas a estrutura produtiva continua operando como se mão de obra barata fosse infinita.
Duque usa uma comparação doméstica: enquanto máquinas lava-louça são comuns no exterior há décadas, o Brasil se apoiou no serviço de empregadas domésticas. A tecnologia existe, mas o custo do trabalho humano por aqui era inferior ao preço de uma máquina.
O mesmo vale para o canteiro de obras: nos EUA, em geral, há um número menor de trabalhadores e muitos equipamentos por projeto; no Brasil, há mais gente e pouca automação.
E importar tecnologia continua caro. A estrutura tributária brasileira tem pesada incidência sobre bens de capital – e, recentemente, o governo criou impostos adicionais sobre certos equipamentos.
Os dados do economista da FGV mostram que o Bolsa Família teve efeito, sim, sobre a disponibilidade de trabalhadores — mas concentrado em alguns grupos (homens jovens e nas regiões Norte e Nordeste) e em um período específico, entre 2020 e 2023, quando o programa triplicou de tamanho, no contexto da pandemia.
O efeito do Bolsa Família aparece nos dados sobre o mercado da construção, mas não é o motor principal das mudanças. O programa encolheu de 21 milhões para cerca de 18 milhões de famílias nos últimos anos — e a escassez de mão de obra na construção civil só piorou, segundo os empresários do setor.
O próprio Fratel, diretor do Sinduscon-SP, descarta que o benefício social do governo federal seja o culpado: “Ninguém vive bem com Bolsa Família. Hoje, um aluguel na periferia de São Paulo custa R$ 2 mil. Esse negócio de que o Bolsa Família está roubando o trabalhador é ‘balela’.”
Sobre o impacto de aplicativos como o Uber e o iFood, a pesquisa de Duque aponta um resultado contraintuitivo: a economia de plataformas – a chamada gig economy, em inglês – gera um impacto líquido positivo sobre emprego e renda.
São 1,7 milhão de trabalhadores em aplicativos no Brasil, com forte concentração entre homens jovens em capitais — o mesmo perfil da construção civil. Mas os apps funcionam como amortecedor de transições profissionais, não como aspirador de trabalhadores de outros setores.
Para Antonio Ramalho, presidente do Sintracon-SP – o sindicato dos trabalhadores da construção civil –, o raciocínio do trabalhador que troca a obra pelo aplicativo é o seguinte: na construção, é possível ganhar em média R$ 3 mil para trabalhar na chuva, no sol, em área insalubre.
No aplicativo, esse mesmo trabalhador chega a ver, por exemplo, R$ 8 mil entrando na conta — embora esse montante não considere os gastos com combustível e manutenção do carro, sem contar, por outro lado, a ausência do recolhimento de FGTS e de Previdência.
“Não ganha coisa nenhuma de verdade”, diz Ramalho. “Mas ele se sente no direito de fazer o horário dele. Não tem ninguém enchendo o saco.”
Há ainda o fator da rotatividade, um “suspeito” que raramente aparece no debate público.
Duque documenta que a taxa de troca de ocupação subiu com força no pós-pandemia. Para o empregador, cada pedido de demissão representa mais custos com processos seletivos, treinamento e adaptação.
Parte do que aparece como “falta de trabalhador” é, na prática, excesso de gente trocando de posto — o que fica ainda mais visível quando o desemprego cai.
O estigma que não prescreve
Mas há também um outro fator determinante para a escassez de mão de obra nos canteiros: o peculiar estigma sobre o trabalho braçal no Brasil. Em 1824, a viajante inglesa Maria Graham publicou seu livro “Journal of a Voyage to Brazil“, um diário dos três anos anteriores nos quais viajou pelo país, que se tornava independente de Portugal.
“No Brasil, todo tipo de trabalho é realizado por escravos; e é considerado vergonhoso que um homem livre trabalhe”, escreveu. Em outro trecho, diz que “todo o sistema da sociedade parece ser sustentado pelo trabalho dos escravos.”
Vale o destaque: a Lei Áurea só seria assinada pela Princesa Isabel 64 anos depois da publicação do livro de Graham.
As implicações alcançam o presente, segundo o pesquisador da FGV. “O racismo estrutural reduz o quanto se valoriza o trabalho do pedreiro porque é um ofício que era exercido por pessoas que não eram nem consideradas seres humanos. E, ao mesmo tempo, porque esse trabalho é muito mal pago, ele perpetua esse baixo prestígio”, sustenta Daniel Duque.
Modernizar é preciso
A agenda de modernização que Fratel coordena junto com o sindicato dos trabalhadores e o Senai ataca vários flancos, como novas nomenclaturas (por exemplo, montador de drywall, não pedreiro), trilhas profissionais com certificação e industrialização dos métodos construtivos.
Um exemplo são painéis pré-moldados que permitem montar dez metros quadrados de parede em dez minutos, contra um dia inteiro no método convencional.
A tecnologia existe, mas 70% das obras ainda usam métodos tradicionais, que geram 30% de desperdício de material.
O dado mais estarrecedor, porém, é de gestão: a construção civil brasileira não mede a própria produtividade. “Se você me perguntar quantos homens eu preciso por hora para fazer uma obra de tantos metros quadrados em 20 meses, eu não sei te dizer”, admite Fratel. “A gente perdeu essa medida.”

A maioria das construtoras terceiriza serviço para empreiteiros e não pergunta como o trabalho é feito — só cobra prazo e orçamento.
A indústria automotiva sabe quantos homens-hora precisa por veículo produzido. A construção civil, que emprega 8 milhões de pessoas (das quais apenas 3 milhões com carteira assinada), não faz ideia.
A escassez de dados evidencia que o setor não tem um caminho rápido para recuperar a sua atratividade.
Na visão patronal, só depois de resolver os desafios de qualificação, industrialização e produtividade faria sentido discutir aumento de salário e eventual redução de jornada.
Ramalho, do sindicato dos trabalhores, discorda da sequência: sem pagar melhor agora, nada mais vai funcionar para atrair mão de obra.
Fratel diz que o setor já entendeu que a transformação da profissão e a modernização deverão acontecer ao mesmo tempo, em um processo em que uma coisa puxa a outra. “Não é questão de não querer ser pedreiro, é questão de não querer fazer como era feito no passado.”
O Brasil tem o desafio de conseguir transformar a construção civil em uma nova indústria rápido o suficiente para que alguém — filho de pedreiro ou não — queira estar nela.