Curtis, que vive perto de Tacoma, Washington, teme que a inteligência artificial esteja ameaçando seu trabalho de escritório, que envolve principalmente entrada de dados. E acredita que, mesmo subindo na carreira, continuaria vulnerável.
“Mesmo que encontrem uma forma de usar IA para combater incêndios, as pessoas sempre vão querer a empatia de um ser humano de verdade em momentos de crise”, disse.
O impacto da IA no trabalho — incluindo seu potencial para ajudar carreiras — ainda é mais tema de estudos acadêmicos do que de evidências concretas. Mas os jovens, especialmente aqueles no início da vida profissional, já começam a tomar decisões de carreira levando a IA em consideração.
Alguns estão migrando para trabalhos manuais ou abrindo seus próprios negócios, que podem ser mais protegidos dos efeitos da IA. Outros estão abraçando a tecnologia para tentar aproveitar o boom e se manter à frente.
“Os estudantes sabem que isso terá impacto, mas não está claro quanto nem como”, disse Stacie Gleason, orientadora escolar em Hoboken, Nova Jersey. Segundo ela, conversa diariamente com alunos do último ano preocupados com o tema.
Uma pesquisa recente da Harvard University com americanos de 18 a 29 anos mostrou que 59% veem a IA como uma ameaça às perspectivas de emprego — especialmente entre graduados. Outros 41% acreditam que a tecnologia tornará o trabalho menos significativo.
Já um estudo da Stanford University indicou que, entre o fim de 2022 e setembro de 2025, o emprego entre trabalhadores de 22 a 25 anos mais expostos à IA — como desenvolvedores de software e atendentes — caiu 16% em relação a ocupações menos expostas.
Quando Ryder Paredes, de 22 anos, começou a estudar ciência da computação há três anos, “a IA ainda estava no começo, não era muito inteligente”, disse o morador de Montclair, Nova Jersey. Mas no ano passado, com o avanço da tecnologia, ele passou a temer não conseguir emprego.
Ele abandonou a faculdade e hoje estuda para ser eletricista em uma escola técnica. Não está sozinho: matrículas em cursos profissionalizantes cresceram quase 20% desde 2020, segundo dados do National Student Clearinghouse.
“No começo eu estava em negação”, disse. “Mas depois tive que encarar a realidade.”
Os pais também estão preocupados com o impacto da IA nas carreiras dos filhos.
“Tem sido uma fonte constante de ansiedade à mesa do jantar”, disse Babith Bhoopalan, que trabalhou na Microsoft antes de fundar sua própria consultoria. Para ajudar a filha de 17 anos, ele criou um guia de carreiras destacando profissões menos suscetíveis à IA — como médicos e diplomatas. O material já foi visto por mais de 5.500 pessoas online.
Outras análises também mostram que trabalhos presenciais tendem a ser mais protegidos. Um estudo da Anthropic apontou que empregos na agricultura e construção são menos suscetíveis à IA, enquanto programadores e atendentes são mais vulneráveis. Uma análise da Microsoft chegou a conclusões semelhantes.
A filha de Bhoopalan, Thea Babith, pretende cursar relações internacionais, em parte por considerar a área mais resistente à IA do que sua opção anterior: finanças. “Uma parte essencial da diplomacia é a interação humana genuína”, disse. “Não acho que a IA vá dominar esse setor.”
Uma pesquisa da organização Jobs for the Future com mais de 3 mil americanos mostrou preocupação generalizada com a substituição de empregos pela IA. Entre pessoas de 16 a 34 anos, 44% consideraram mudar de carreira por causa da tecnologia; entre maiores de 55 anos, o índice foi de apenas 4%.
Alguns jovens estão indo na direção oposta, buscando carreiras diretamente ligadas à IA. Para Vedant Vyas, de 21 anos, isso significou trancar a faculdade na University of Guelph, no Canadá, para trabalhar em tempo integral em sua startup de IA, a Opennote. Ele afirmou que os cursos estavam desconectados da realidade do mercado.
A aposta deu certo: Vyas e seus cofundadores levantaram mais de US$ 4 milhões para desenvolver a empresa, que ele descreve como um tutor movido por IA. Em vez de esperar a tecnologia transformar sua carreira, ele diz: “Posso ajudar a decidir o que será construído, quem será beneficiado e que novos tipos de trabalho serão criados.”
Abraçar a IA pode soar contraditório para uma geração que foi orientada a evitá-la em trabalhos escolares. Uma pesquisa eleitoral da NBC publicada neste mês mostrou que 61% dos entrevistados de 18 a 34 anos têm visão negativa da tecnologia — 15 pontos percentuais acima da média geral.
“Se continuarmos treinando, ela vai melhorar e vamos perder mais empregos”, disse Ollie Carson, de 19 anos, estudante da University of Texas at Dallas, que também afirmou ser “veementemente contra” a tecnologia. Ainda assim, ela planeja adicionar um curso secundário em marketing ao seu curso de animação e jogos, caso a IA dificulte encontrar trabalho na área.
Na região de Tacoma, Curtis já foi aprovado na prova inicial para bombeiro e está em processo de entrevistas com departamentos locais. Ele acredita que ganhará mais do que no emprego em seguros, mas também vê a nova profissão como mais significativa.
“Quero trabalhar em uma carreira em que não esteja apenas trabalhando por um salário”, disse.
Sua namorada, Jewel Rudolph, de 25 anos, sente-se validada por ter iniciado um negócio em 2019 vendendo tigelas de açaí em feiras, em vez de ir para a faculdade como sua mãe queria. “Há uma segurança nisso, sabendo que a IA não vai conseguir substituir o que eu faço”, afirmou.
Do outro lado do país, em New York City, Luke St. Amand, de 25 anos, disse que deixou um emprego de seis dígitos trabalhando com IA na Amazon há dois anos e meio para cofundar uma startup de educação — em parte porque temia estar treinando seu próprio substituto não humano. Agora, afirma usar IA para expandir seu negócio, incluindo em pedidos de financiamento, produção de vídeos e desenvolvimento de software.
“Sei que escolhi o caminho certo”, disse.
Traduzido do inglês por InvestNews