Há um entusiasmo crescente entre investidores em torno da tokenização, o processo de transformar ativos do mercado tradicional, como debêntures e CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), em tokens na blockchain.

Mas, na prática, a tecnologia ainda está longe de entregar todas as promessas no mercado de capitais. É o que avalia Gabriel Braga, diretor de ativos digitais da VERT Capital, uma das maiores empresas de securitização de ativos e de crédito estruturado do país.

Segundo Braga, a tecnologia ainda não substitui a infraestrutura atual – apenas se soma a ela: os ativos continuam a existir fora da blockchain, o que limita seu potencial de transformação.

“O token não é o ativo em si” e, por isso, “não existe uma programabilidade de ativos hoje se você não tem a blockchain como infraestrutura de mercado”, disse ao InvestNews.

Segundo ele, o principal limite hoje é regulatório.

As operações com ativos “tokenizados” ainda precisam se encaixar em normas já existentes da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), principalmente a CVM 160 – de ofertas públicas tradicionais – e a CVM 88 (crowdfunding), mais usada por plataformas de tokenização e pequenas empresas.

Na prática, isso significa que o token não executa automaticamente operações financeiras – ele apenas reflete o que acontece em sistemas tradicionais. Em vez de eliminar etapas, a blockchain ainda funciona como uma camada adicional, o que pode até gerar perda de eficiência em alguns casos, disse Braga.

Para ele, os ganhos mais concretos hoje estão menos no produto final, e mais nos bastidores. “Nós conseguimos ter ganhos de fato de eficiência operacional dentro das nossas operações”, afirma, citando o uso da blockchain para fluxos de autorização e assinaturas digitais.

No fim do ano passado, a autarquia que regula o mercado de capitais colocou a tokenização como uma de suas prioridades da agenda regulatória de 2026, em resposta ao crescimento do setor no Brasil.

Dados da plataforma RWA Monitor mostram que cerca de R$ 6 bilhões já foram captados via tokenização no país, em projetos que vão do setor financeiro à agricultura e à saúde.

Ainda é pouco diante do mercado tradicional – só as emissões de dívida captaram R$ 544,8 bilhões em 2025, segundo a Anbima (associação que reúne entidades do mercado de capitais), mas o avanço já indica uma tendência em formação.

A VERT concentra boa parte desse volume: já tokenizou R$ 3,7 bilhões em ativos, o equivalente a quase 60% do total no país.

Vale uma explicação: todas as operações foram feitas via CVM 160 – ou seja, são emissões grandes dentro do modelo tradicional, ainda que com uso de blockchain. A empresa tem entre R$ 70 bilhões e R$ 80 bilhões sob administração e gestão, e cerca de 5% do negócio envolve tokenização.

Tokenização de pequenas empresas

Apesar das limitações regulatórias, algumas pequenas empresas já exploram a tokenização como alternativa de captação – especialmente para acessar novos públicos e ganhar agilidade. É o caso da plataforma brasileira de crédito e tecnologia financeira Open Co, que optou por emitir debêntures tokenizadas.

Segundo o CEO da Open Co, Sandro Reiss, a estrutura trouxe vantagens práticas em relação ao modelo tradicional. Entre elas, redução de custos e maior rapidez na execução.

“Fora as discussões comerciais e de estruturação, a debênture tokenizada foi emitida em um terço do prazo que levaria uma debênture tradicional – 20 dias vs 60 dias”, contou.

Foram duas emissões que somaram R$ 20 milhões, destinadas ao financiamento da carteira de crédito da companhia e de um programa em parceria com a Amazon.

Aqui vale uma explicação extra: a empresa se valeu da CVM 88, que permite captações de valores mais baixos com um processo simplificado, com burocracia, prazos e custos menores.

“Os custos da oferta utilizada na emissão e a estrutura tokenizada chegam a ser 50% menores do que uma oferta e uma estrutura tradicionais”, explicou.

Esse enquadramento regulatório ajuda a explicar parte das diferenças no debate sobre ganhos de eficiência com a tokenização.

Enquanto a CVM 160 segue o modelo tradicional, com mais exigências operacionais e regulatórias, a CVM 88 flexibiliza essas etapas – o que, na prática, pode tornar as operações mais rápidas e baratas, independentemente do uso de blockchain.

Retorno para o investidor

Na ponta do investidor, os ganhos ainda não são tão claros nas operações maiores.

Segundo Gabriel Braga, nas emissões estruturadas dentro do modelo tradicional, o uso de blockchain não se traduz, por enquanto, em retorno adicional. “O retorno é basicamente o mesmo do que ele teria fora da blockchain” e “você não passa um retorno adicional para ele”, afirma.

Isso acontece porque, como os ativos continuam fora da blockchain, a estrutura de custos e riscos permanece essencialmente a mesma – o que limita o impacto da tecnologia no rendimento final.

Já em ofertas menores, especialmente aquelas enquadradas na CVM 88, os retornos podem parecer mais atrativos. No caso da Open Co, por exemplo, as debêntures tokenizadas ofereceram rentabilidades de CDI + 4,5% ao ano e até 17% ao ano.

Ponto importante: apesar do apelo de inovação e da rentabilidade elevada em alguns casos, esse tipo de investimento também traz riscos relevantes. Um dos principais é a ausência de um mercado secundário estruturado – ou seja, se o investidor comprou um token, precisa segurá-lo até a data de vencimento.