Em entrevista à Bloomberg durante as reuniões de primavera do FMI e do Banco Mundial, em Washington, Dario Durigan disse que, diante da incerteza sobre o conflito no Oriente Médio, os investidores estão cada vez menos convencidos de que se trata de uma guerra curta. Por enquanto, afirmou, as autoridades monetárias agem com cautela para não aumentar ainda mais a volatilidade dos mercados.
“Se essa guerra se mostrar prolongada, os bancos centrais vão precisar reagir”, disse. Segundo ele, os riscos vão muito além do Brasil.
No Brasil, o Banco Central iniciou em março um ciclo de corte de juros que já era esperado havia meses, com uma redução modesta de 0,25 ponto percentual na taxa básica. Ao mesmo tempo, avisou que novos cortes vão depender dos efeitos da guerra sobre a inflação. A decisão deixou a Selic em 14,75% ao ano e provocou críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de aliados, preocupados com os efeitos dos juros altos sobre as chances de reeleição do petista neste ano.
Aos 41 anos, Durigan assumiu no mês passado o comando da política econômica do governo após a saída de Fernando Haddad, que deixou o cargo para disputar o governo de São Paulo. Sua nomeação foi interpretada como um sinal de continuidade na condução da política fiscal e econômica.
Agora, ele enfrenta o desafio de preservar a credibilidade fiscal do país em meio ao aumento da pressão eleitoral. Durigan coordenou medidas para amenizar o impacto do conflito sobre os preços dos combustíveis, incluindo cortes de tributos e subsídios que somam mais de R$ 30 bilhões — parte deles fora das regras fiscais em vigor no país.
Ele também supervisiona um novo programa de renegociação de dívidas para famílias e empresas, num momento em que Lula tenta responder ao aumento do endividamento — que chegou a 49,7% da renda das famílias em janeiro — e, ao mesmo tempo, reforçar seu apoio popular.
Empresas sob pressão
O governo acompanha de perto o estresse financeiro de empresas maiores, embora Durigan diga que sua intenção é evitar apoio direto de bancos públicos, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Na visão dele, companhias muito endividadas devem negociar com seus credores.
“Vejo essas negociações com bons olhos”, afirmou, citando reestruturações de dívida, conversão de dívida em participação acionária e acordos entre sócios como alternativas mais sustentáveis.
Segundo Durigan, o custo elevado do crédito tem pressionado empresas alavancadas, enquanto entraves regulatórios agravaram o problema. Ele mencionou a demora no avanço de um marco para resolução bancária e falhas nas regras de falência e recuperação judicial como obstáculos importantes, afirmando que essa falta de progresso deixou as autoridades com menos instrumentos para reagir rapidamente a casos de dificuldade financeira nas empresas.

O ministro também apontou preocupações específicas em alguns setores, incluindo o que descreveu como uma crescente “indústria” das recuperações judiciais no agronegócio. Segundo ele, isso elevou os spreads cobrados nos empréstimos, já que os bancos passaram a temer mais dificuldade para recuperar o dinheiro emprestado. Para esse setor, o governo federal abriu uma linha de crédito de R$ 12 bilhões para apoiar a renegociação de dívidas de produtores rurais.
De forma mais ampla, Durigan espera que bancos públicos e privados participem de negociações coordenadas para reestruturar passivos. “Não há orientação para apoio direcionado via bancos públicos”, disse.
Incerteza eleitoral
Durigan afirmou que a incerteza em torno da eleição presidencial de outubro pode estar ajudando a piorar as expectativas de inflação no Brasil, mas argumentou que o histórico de Lula — inclusive na área fiscal — já é conhecido. Em contraste, disse ele, a oposição ainda não apresentou um plano econômico consistente.
“Eu acho que ainda existe alguma incerteza em relação ao cenário eleitoral, o que pode estar gerando volatilidade, mas, fora isso, também não consigo identificar outras razões” para a alta das expectativas de inflação no longo prazo, afirmou.
Durigan atribuiu o aumento recente da dívida pública principalmente à política monetária, ao mesmo tempo em que sustentou que o governo entregou o que prometeu na área fiscal.
Ele também disse que o dólar dificilmente perderá seu papel central nas finanças globais. Ainda assim, afirmou que os esforços do Brasil para acessar mercados alternativos — incluindo uma planejada emissão de títulos em euros — têm como objetivo criar referências para futuras captações e avançar na internacionalização da dívida pública.