Nos últimos quatro meses, novos contratos fechados pela dinamarquesa Vestas, maior fabricante de turbinas eólicas do mundo, totalizaram 1,1 GW em capacidade instalada. O mais recente envolveu a venda do parque eólico Esquina do Vento, no Rio Grande do Norte, para a norueguesa Equinor, por meio de sua subsdiária Rio Energy, por valor não divulgado. A capacidade é de 230 MW.
O parque pertencia à própria Vestas por meio de sua vertical de negócios Vestas Development, em que a companhia – como o próprio nome sugere – desenvolve projetos de parques eólicos.
No fim de 2025, a Vestas já havia acertado uma parceria com a Casa dos Ventos para desenvolver o complexo de Dom Inocêncio, no centro-sul do Piauí, no maior projeto do setor desde 2023, com investimento estimado de R$ 5 bilhões. A energia será destinada para data centers no Nordeste e no Sudeste, além de programas que envolvem hidrogênio verde.
“Vemos uma certa retomada da indústria de energia eólica depois de um longo período em que houve um crescimento muito forte em GD [Geração Distribuída]. E isso é muito importante para reestabelecer a previsibilidade para uma cadeia de suprimentos que levou 20 anos para ser formada”, disse Eduardo Ricotta, CEO da Vestas para a América Latina, em entrevista ao InvestNews.
Segundo o executivo, a indústria de fornecedores, o que inclui a própria Vestas, conseguiu se manter em atividade nesse período citado atendendo um volume encomendas feitas até 2023, dado que o ciclo de produção é longo e leva até 24 meses. Mas isso estava para acabar.
Há outros fatores que sustentam o otimismo cauteloso da Vestas para o Brasil, segundo o executivo. Ele apontou o custo elevado e crescente de energia, o que amplia a competitividade da eólica, uma fonte limpa em comparação ao uso ainda disseminado de combustíveis fósseis – que, por sua vez, ficaram mais caros com os impactos já de médio prazo causados pela Guerra do Irã.
“Outro fator é uma demanda em alta da indústria e também da eletrificação da economia e da expansão de data centers no Brasil, que consomem muita energia”, disse o CEO da Vestas para LatAm.
Apesar da perspectiva positiva, há obstáculos que impedem uma retomada com mais vigor. O executivo da Vestas apontou a forma como o próprio governo brasileiro desenha o modelo do setor elétrico.
Ao citar a expansão do país em GD, Ricotta fez referência ao fenômeno que está na raiz do curtailment: a expansão da geração de energia distribuída, essencialmente de fonte solar por meio de painéis instalados nos telhados de residência e instalações comerciais, aconteceu com incentivo de subsídios bilionários do governo brasileiro e gerou um quadro de excesso que afetou a matriz eólica.
Para evitar a sobrecarga no sistema de transmissão, o ONS (Operador Nacional do Sistema) decide desplugar geradores como parques eólicos, o que afeta a previsibilidade dos negócios e gera perda de receitas – diante de compensações que ficam aquém do que é considerado necessário.
“O curtailment só acontece porque há um desequilíbrio das fontes no país. É uma questão que preocupa o setor [de energia eólica] e que esperamos que o governo corrija”, disse o executivo.
Energia eólica fora do leilão de reserva
Outro exemplo de risco ao setor foi o recente leilão de reserva de capacidade, realizado pelo governo federal em março e que terminou com a contratação de 19 GW em potência e R$ 516 bilhões em receitas.
A disputa promovida pelo governo – que teve a Eneva como principal vencedora – privilegiou a energia gerada por usinas termelétricas movidas a gás natural e carvão, consideradas de caráter intermitente – ou seja, que conseguem gerar de forma ininterrupta. Mas isso tem um preço.
“A decisão do governo significa poluir o grid [a rede] a um custo mais caro, sendo que hoje existe tecnologia para armazenar energia em bateria. É possível combinar fontes eólica e solar com bateria de forma competitiva”, disse o CEO da Vestas para a América Latina.
Segundo cálculos da Abrace (Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres), a conta de luz dos brasileiros pode ficar até 10% mais cara com a contratação de energia gerada por usinas termelétricas.