Esse é o cenário dos condomínios de luxo localizados em cidades como Porto Feliz e Bragança Paulista. Eles ganharam força com a pandemia e seguem em alta com novos projetos como a Fazenda Vista Verde, do Grupo Luan, em Araçoiaba da Serra; a Fazenda Santa Helena, da JHSF, em Bragança Paulista, e o Quinta da Primavera, do grupo Oscar Americano, também em Bragança Paulista.
Mais do que a segurança dos condomínios fechados, os empreendimentos mais disputados do país hoje funcionam como cidades privadas para milionários, oferecendo desde academias e spas até hospital, escola e até praia artificial.
Esse é o tema do primeiro episódio da nova série especial do InvestNews, “Por Dentro do Luxo“, produzido e apresentado pela jornalista Letícia Toledo, com dez programas.
O Complexo Boa Vista
O principal símbolo desses condomínios hoje é o Complexo Boa Vista, empreendimento da JHSF localizado na cidade de Porto Feliz, a 100 km da capital do estado. Atrás de muros discretos e estradas sem sinalização evidente, o Boa Vista reúne restaurantes, haras, campos de polo e golfe, academia, circuito de triatlo e uma piscina de ondas artificiais.
O complexo ocupa uma área de 30 milhões de metros quadrados. Ali, os vizinhos incluem nomes como o casal Angélica e Luciano Huck, o publicitário Nizan Guanaes e o fundador da XP Investimentos Guilherme Benchimol.
O projeto, que teve início em 2007, está dividido em quatro grandes empreendimentos. A Fazenda Boa Vista foi a primeira área desenvolvida e continua sendo a mais consolidada. Foi ela que capturou boa parte da explosão desse mercado durante a pandemia.
Com o isolamento social, famílias de alta renda passaram a buscar imóveis maiores, mais contato com a natureza e estruturas que permitissem escapar da densidade urbana de São Paulo.
Na Fazenda Boa Vista, o preço do metro quadrado de terrenos chegou a saltar de cerca de R$ 700 no início de 2020 para mais de R$ 2.200 em 2021.
A segunda parte desse complexo, o Boa Vista Village, foi lançada em 2019. É nessa área que se encontra a piscina com ondas artificiais do complexo. Por lá, a JHSF prepara ainda a inauguração de uma unidade do Colégio Visconde de Porto Seguro, um centro médico operado pelo hospital israelita Albert Einstein e um shopping a céu aberto com restaurantes, lojas de grifes de luxo globais e espaço cultural.
Em março de 2026, a JHSF lançou o terceiro empreendimento do complexo, o Boa Vista Estates, em uma área de 7 milhões de metros quadrados com uma proposta mais exclusiva. O projeto foi planejado para abrigar apenas 250 famílias com lotes a partir de 5 mil metros quadrados.
Nos planos da JHSF, tem ainda um quarto empreendimento previsto nesse complexo. É o Boa Vista Lakes, que ainda não tem data de lançamento definida.
Mais do que se limitar aos condomínios, a JHSF construiu um ecossistema inteiro voltado a esse consumidor. Além dos condomínios, controla ativos como o Shopping Cidade Jardim, a rede Fasano e o São Paulo Catarina Aeroporto Executivo Internacional, primeiro aeroporto executivo privado do país, em São Roque.
Hoje, moradores do Boa Vista conseguem pousar seus aviões no Catarina e chegar de helicóptero ao condomínio em poucos minutos.
“Muitos proprietários do Boa Vista estão fora de São Paulo. Tem famílias que compraram terrenos conosco e são de Belo Horizonte ou do Mato Grosso. Aí você vai entender o porquê. Porque o dono pega o avião com a família, com o neto, com o filho, pousa no Catarina e em 15 minutos ele está na casa de Boa Vista”, diz Lucas Melo, diretor executivo da corretora de luxo MBRAS.
A concorrência para atrair super-ricos
Para não ficar para trás, a Fazenda da Grama, do empresário Oscar Segall, em Itupeva, construiu uma praia artificial com ondas de até dois metros e areia que não esquenta.
Já a Fazenda Vista Verde, do Grupo Luan, que tem inauguração prevista ainda neste ano, promete hotel boutique, haras e museu a céu aberto. Já a Fazenda Santapazienza, da família Malzoni, aposta em ultraexclusividade e vende lotes apenas para convidados da família proprietária.
Até os pioneiros precisaram reagir. O Quinta da Baroneza, um dos condomínios mais tradicionais do país, prepara a inauguração do Quinta da Primavera em um terreno ao lado.
Toda essa expansão do setor também levanta dúvidas sobre os limites desse mercado.
Com dezenas de projetos sendo lançados simultaneamente, incorporadoras já enfrentam uma disputa crescente por terrenos e compradores.
O grande desafio dos próximos anos será manter a sensação de exclusividade em um segmento que cresce justamente porque cada vez mais empresas querem replicar o mesmo modelo.
O Boa Vista ainda é tratado como referência entre os super-ricos brasileiros. Mas, em um mercado onde exclusividade é o principal ativo, o risco é que o luxo comece a ficar populoso demais.
O InvestNews procurou a JHSF, mas a empresa não concedeu entrevista.