No seu auge na bolsa em meados de 2021, a Cosan despontou como um dos maiores e mais bem-sucedidos grupos empresariais do país, com valor de mercado superior a R$ 50 bilhões. Naquele momento, que antecedeu o maior IPO do mesmo ano, o da Raízen, que movimentou R$ 6,9 bilhões, a holding do empresário Rubens Ometto, capitalizada, enxergava um futuro promissor.

Menos de cinco anos depois, os planos fazem parte de um passado cada vez mais distante, a tal ponto que a própria existência da Cosan como holding está em xeque e, possivelmente, com os dias contados, segundo afirmou o CEO, Marcelo Martins, nesta sexta-feira (15) em teleconferência com analistas referente aos resultados do primeiro trimestre.

As ações (CSAN3) recuam cerca de 5% nesta sexta, o que coloca o market cap da holding em R$ 17,5 bilhões, ou seja, equivalente a um terço do que alcançou no seu auge.

“No horizonte de três a cinco anos, é bastante razoável dizer que a Cosan deixará de existir”, disse o executivo.

“À medida em que temos a conclusão do processo de desinvestimento e de redução da alavancagem, subsequentemente, vamos entender efetivamente o que teremos de ativos e passivos dentro da companhia e, ato contínuo, provavelmente faremos a distribuição direta das participações [nas empresas do grupo] para os acionistas”, disse Martins sobre o tema.

Hoje as empresas que compõem o portfólio de forma relevante, com consolidação dos resultados em seu balanço financeiro, são a Rumo, a Compass, a Moove e a Radar.

Segundo o executivo, essa informação havia sido sinalizada por ocasião da capitalização de R$ 10 bilhões em setembro de 2025, em uma oferta subsequente de ações – um follow-on – liderada pelo BTG Pactual e pela gestora Perfin, com participação do family office de Ometto.

A Cosan prossegue em situação delicada, ainda que tenha havido melhora gradual, segundo os números recém-divulgados. A dívida bruta estava em R$ 19,2 bilhões ao fim do período, com redução de R$ 2,5 bilhões na comparação anual e de R$ 6,5 bilhões versus os três meses finais de 2025. A queda aconteceu em razão da antecipação de pagamentos de senior notes e de debêntures.

A dívida líquida, por outro lado, aumentou 18% na base trimestral, de R$ 9,76 bilhões para R$ 11,47 bilhões, embora tenha caído 34% na comparação com o mesmo período de 2025.

O Índice de cobertura do serviço da dívida líquida dos últimos doze meses caiu para 0,5x, versus 1,2x um ano antes e 0,9x no quarto trimestre de 2025: isso significa que a geração de caixa operacional consegue pagar apenas metade dos juros da dívida.

Cosan: sem capitalizar a Raízen

Martins comentou ainda sobre os prováveis próximos passos da holding e da Raízen, que está em recuperação extrajudicial há dois meses com dívidas da ordem de R$ 65 bilhões.

O executivo disse que a Cosan não trabalha com a perspectiva de acompanhar a esperada injeção de capital na gigante de açúcar e etanol e de distribuição de combustíveis, o que, na prática, representará deixar o acordo de acionistas com a Shell que existe desde a sua formação.

“Significa, basicamente, que, considerando o tamanho da conversão e a contribuição de capital pelo nosso sócio, a Shell, isso vai resultar em uma diminuição substancial da participação da Cosan”, disse Martins, sinalizando que a holding continuaria apenas como acionista minoritária.

Segundo o executivo, a prioridade segue sendo a redução da alavancagem da Cosan, que se dará por meio da venda de participações de empresas, a exemplo do que aconteceu com o IPO da Compass na semana passada, e não por meio de distribuição de dividendos das controladas.

A Cosan nasceu há 90 anos como uma usina de cana-de-açúcar e deu um salto a partir dos anos 2000, com a criação de uma nova marca, a abertura de capital na B3 em 2005, a listagem na Bolsa de Nova York em 2007 e aquisição de novos negócios para a formação de uma holding nos anos seguintes.