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Cafeína

Inflação inercial: o efeito ‘bola de neve’ que afeta o bolso e os investimentos

O Cafeína mostra como os reajustes acabam retroalimentando o índice que mede a inflação no país.

A alta dos preços ainda não ficou no passado. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) entre fevereiro de 2021 a janeiro de 2022, a inflação acumulada no período foi de 10,38%.

A população de baixa renda acaba por ser a mais afetada por essa alta uma vez que alimentos, combustível e energia elétrica puxam os preços. Porém, uma vez que o percentual da inflação acumulada for repassado para a renda das pessoas, a tendência é que no ano seguinte haja uma outra correção nos preços dos mais variados itens.  Só que esse efeito gera uma inflação futura. O que significa que esses reajustes acabam retroalimentando o índice que mede a inflação no país. Porém, este efeito tem um nome: inflação inercial.

E a explicação dada por economistas sobre como surge a inércia inflacionária é a seguinte: como a inflação está se mantendo alta por muito tempo, as pessoas começam a tentar se adaptar a esse ambiente. O empresário tenta recompor sua margem aumentando os preços. Os funcionários barganham salários maiores. E muitos começam a projetar que o futuro vai ser parecido com o momento atual, de inflação alta. E por conta de enxergar no horizonte uma inflação em ascendência, os reajustes feitos no presente começam a refletir um aumento dos preços. Esse aumento acaba diminuindo a demanda pois afeta diretamente o consumidor. As famílias vêem que sua renda não é suficiente para comprar os mesmos bens que no passado, o que acaba afetando o consumo da população, já que os salários não acompanham o aumento dos preços na mesma velocidade.

Entre os impactos, seja na economia como nos nos investimentos, lidera a incerteza econômica no país. Empresários e investidores acabam vendo mais riscos em investir, produzir e comprar, já que o cenário não se mostra tão positivo para quem quer empreender. Porém, esse efeito também gera uma queda nos investimentos internacionais. Os investidores estrangeiros ficam receosos em aportar dinheiro nestes países já que um aumento elevado da inflação pode significar uma fragilidade econômica.

Com a falta de investimento internacional, há também uma desvalorização da moeda, como aponta o professor de Economia na USP, Paulo Feldmann. “Um ponto crucial para conter o avanço da inflação é a entrada da moeda americana no país. O real fica fortalecido e quando isso acontece, a inflação fica controlada”, disse.

Entre outros impactos está também o aumento da taxa de desemprego, pois as empresas se veem obrigadas a cortar custos, dado a alta geral dos preços e também a diminuição do consumo das famílias. Para o economista Andre Perfeito, como o desemprego continua alto no país, é pouco provável que a inflação inercial atinja salários. “O mercado de trabalho já teve um ajuste micro, mas como o regime de carteira assinada (CLT) está sumindo, isso impede os repasses da inflação acumulada”, disse em entrevista ao Cafeína.

Para o economista, preocupa muito mais a parte de contratação de serviços que utilizam como índice os chamados IGP-DIs (Índice Geral de Preços- Disponibilidade Interna) que acabam tendo uma interferência direta da variação cambial. Ou seja: a alta acaba sendo ainda maior. Um exemplo é o setor da construção civil, onde os preços são afetados pela alta do dólar, e isso é repassado nos custos além da própria inflação. E o mesmo efeito pode ser visto em outros bens e serviços. Como uma bola de neve. 

Samy Dana e Dony De Nuccio explicam os efeitos da inércia inflacionária e o que pode ser feito para controlá-la.

Este conteúdo é de cunho jornalístico e informativo e não deve ser considerado como oferta, recomendação ou orientação de compra ou venda de ativos.