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Howard Marks: o que separa o ‘value investing’ do ‘growth investing’

Na última década, as ações de ‘growth’ superaram os retornos das ações ‘value’, o que levou a muitos a acreditar que este fosse algo do passado.

Publicado

em

Tiago Reis

Nesta coluna, veremos algumas reflexões de Howard Marks, o lendário investidor vice-presidente e um dos sócios-fundadores gestora americana Oaktree, trazidas em sua última carta, intitulada “Something of Value”. Ele aborda uma oposição, a seu ver, equivocada, entre duas estratégias de investimento: value investing e growth investing.

De início, Marks traz uma definição precisa sobre o que é o value investing. De acordo com ele, essa filosofia de investimento se resume em quantificar o que algo vale intrinsicamente. Isso baseando-se, primordialmente, em sua capacidade de gerar fluxo de caixa futuro. E comprando este ativo se seu preço estiver consideravelmente menor do que seu valor intrínseco.

Um dos fundadores dessa filosofia foi Benjamin Graham, professor de Warren Buffett. Graham seguiu uma estratégia de investimento em que buscava comprar empresas que negociavam a preços inferiores ao valor de liquidação. Isto é, caso a empresa vendesse seus ativos e pagasse suas dívidas, ela ainda teria um valor superior ao precificado pelo mercado.

Inspirados pelas estratégias de Graham, muitos “value investors” passaram a comprar empresas que negociavam a múltiplos descontados, como por exemplo um preço/lucro baixo, buscando por barganhas na bolsa de valores.

Esta abordagem trouxe uma grande rivalidade no mundo dos investimentos, em que duas estratégias passaram a competir, a estratégia do value investing e a do growth investing.

Enquanto alguns “value investors” compram empresas a múltiplos baixos, buscando por descontos na bolsa de valores, os “growth investors” compram ações que negociam a múltiplos altos, normalmente de empresas de tecnologia ou start-ups. Elas atualmente não possuem necessariamente bons resultados, mas têm grandes perspectivas de crescimento futuro.

Na última década, e principalmente no ano de 2020, as ações de “growth” superaram os retornos das ações “value”, o que levou a muitas pessoas a acreditar que o value investing fosse algo do passado e que o futuro pertencesse ao “growth”.

Para Howard Marks, esta divisão não faz sentido desde o início e não há o porquê acreditar que o value investing e o growth investing são coisas excludentes.

Para ilustrar, Marks nos traz um exemplo de duas empresas. A empresa A é uma companhia antiga e respeitada e vende um produto amplamente consumido pela população. Durante décadas, apresentou um crescimento estável nas vendas e manteve margens de lucro saudáveis. Ela fabrica seu produto usando maquinário de suas fabricas e suas ações negociam a múltiplos modestos de preço/lucro.

Já a companhia B foi criada há poucos anos e tem como objetivo a disrupção de um setor centenário. Possui um breve, mas impressionante, histórico de crescimento de vendas, embora possua modesta rentabilidade. Ela planeja acelerar seu crescimento e crescer seu market share nos próximos anos e superar as empresas mais tradicionais do setor.

Seus produtos estão em constante evolução e cada vez mais inovadores, sendo criados não por fábricas, mas sim pelos engenheiros que trabalham na empresa programando. Ela atualmente não tem lucro, mas pelo seu potencial, negocia a múltiplos elevados.

Howard Marks acredita que os “value investors” seriam mais propensos a investir na empresa A, pelo seu menor risco e maior previsibilidade. Isso porque quantificar o valor da primeira empresa é extremamente mais fácil, basta prever que seu histórico de décadas de crescimento estável deva continuar para os próximos anos.

Por outro lado, a empresa B está em fase inicial de desenvolvimento, suas margens de lucro estão longe do máximo e seus principais ativos são as pessoas que trabalham nela.

Assim, estimar o valor dela é muito mais difícil e depende de conseguir prever o sucesso de suas inovações, como será a dinâmica da competição no futuro e como ela conseguirá aumentar sua rentabilidade com os novos produtos. Dessa maneira, muitos “value investors” podem considerar esta empresa difícil de avaliar e achá-la um investimento muito especulativo.

Howard Marks, então, traz a reflexão sobre se a facilidade de prever o futuro de uma companhia realmente significa que o investimento será mais seguro ou mais rentável.

  • Primeiramente, a aparente facilidade de prever o futuro da companhia A pode trazer engano. Esperar que a companhia mantenha seu histórico no futuro pode levar o investidor a não contabilizar possíveis disrupções no setor que podem deixar a empresa obsoleta;
  • Também, a facilidade de prever a companhia A diz que provavelmente seu preço está muito mais próximo do valor intrínseco, já que avaliá-la é simples e pode ser feito por qualquer um, o oposto da empresa B;

Com estas críticas, Howard Marks indica o que o value investing deve realmente ser. Para ele, a estratégia investing deve focar em encontrar as ações que apresentam uma melhor proposta de valor, levando-se todos os fatores em consideração.

Dessa maneira, uma empresa de tecnologia com múltiplos altos não deve ser limitada a investidores “growth”. Os “value investors” também devem estudar esta companhia e entender a sua perspectiva de valor, de modo que devemos esquecer do conceito de que “value investors” apenas compram empresas com múltiplos descontados.

No atual contexto de tecnologia, devemos buscar valor em qualquer forma que ele se encontra. Isso tanto por sólidos resultados passados ou por uma expectativa alta de crescimento futuro.

*A Suno Research é uma casa de análise especializada em conteúdo sobre investimentos e educação financeira para o pequeno investidor pessoa física.

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