Pelos números atuais, seria um ganho de US$ 9,3 bilhões anuais para o PIB.
O agro foi o ponto mais sensível em quase todo o percurso, com protestos recorrentes de produtores europeus preocupados com competição e padrões ambientais. De acordo com Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, o acordo é “benéfico” para cidadãos e empresas e só está avançando após a Comissão ouvir as preocupações dos agricultores, com salvaguardas e reforço de controles para importação.
Por “controles”, entenda cotas de importação. Por “salvaguardas”, a possibilidade de aumentos de impostos caso a abertura prejudique claramente algum setor.

Mercosul e União Europeia reúnem cerca de 720 milhões de pessoas e Produto Interno Bruto (PIB) de mais de US$ 22 trilhões de dólares. A União Europeia é o 2º maior parceiro comercial do Mercosul em bens.
O bloco do Velho Continente manteve-se como o segundo principal destino das exportações brasileiras (14% do total), atrás apenas da China. Diferentemente do superávit recorde que o Brasil teve no total global (US$ 68,3 bilhões), com o bloco europeu houve um pequeno saldo negativo, impulsionado pelo aumento nas importações de bens industriais e tecnologia.
O Brasil exportou US$ 49,8 bilhões à União Europeia em 2025, uma alta de 3,2% em relação a 2024, mas importou US$ 50,290 bilhões, 6,4% a mais do que um ano antes.
Entre os itens mais vendidos pelo Brasil aos países do bloco europeu estão ração/insumos agropecuários, minérios e café. Nas importações, pesam produtos farmacêuticos, máquinas e equipamentos e veículos.
Pelo acordo, deixarão de existir tarifas de importação sobre 91% do que vem da Uniãio Europeia, incluindo automóveis. Não significa exatamente um programa Minha Porsche Minha Vida. A redução do imposto atual, de 35%, será lenta. Virá em etapas ao longo de 15 anos – quase uma geração inteira, justamente para não cair como um raio sobre a indústria brasileira de automóveis.
Do outro lado, o bloco europeu eliminará progressivamente as tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul ao longo de um período de até dez anos.
Para produtos agrícolas mais sensíveis, a UE vai impor cotas de isenção. No caso da carne bovina, abundante no Brasil, na Argentina e no Uruguai – e relativamente rara na Europa – a ausência de tarifa ficará limitada a 99 mil toneladas, para preservar os frigoríficos locais. Haverá também cotas restritas para aves, carne de porco, açúcar, etanol, arroz, mel, milho e milho doce.
Quando o jogo inverte, cotas também, claro. Os europeus produzem mais queijos. O Mercosul, então, impõe no acordo uma cota de até 30 mil toneladas para os camemberts e gruyères sem imposto.
E como fica o Brasil?
Maior economia do bloco latino-americano, o Brasil tende a se beneficiar mais, de acordo com o especialista. O estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada projeta ainda que o país conseguiria atrair mais investimento (um avanço de 1,49%) do que o restante do Mercosul e a própria União Europeia, com o volume tanto das exportações e importações passando por um aumento de 3% até 2040.
Esse é um ganho construído em camadas, porque o cronograma de redução tarifária é longo, fora as cotas. No desenho do estudo do IPEA, as importações crescem mais rápido no início, e o pico ocorre em 2034, quando terminam a maior parte das taxas para os produtos europeus no Brasil; as exportações sobem mais devagar no começo e seguem crescendo até 2040.
O impacto mais relevante passa por máquinas, equipamentos industriais, químicos e farmacêuticos — justamente áreas em que hoje há tarifas e custos de importação mais elevados. A Comissão Europeia estima economia de mais de 4 bilhões de euros por ano em tarifas para exportadores europeus ao Mercosul, o que ajuda a entender a pressão de setores industriais pela aprovação.
O economista Carlos Honorato, professor da FIA Business School, ressalta os ganhos de longo prazo. Preços mais baixos de equipamentos e máquinas, ele aponta, podem a aprimorar nossa produção e, embora signifique mais concorrência para fabricantes nacionais, “pressionam empresas locais a buscar produtividade e padrão técnico”.
A forte presença de empresas europeias no Brasil também deve ser uma alavanca para mais ganhos brasileiros, segundo Honorato. O país tem filiais de empresas alemãs como Volkswagen, Siemens e Basf, espanholas, como Telefónica e Iberdrola, além das italianas Enel e TIM e das francesas Carrefour, L’Oréal e Engie, para ficar em alguns exemplos.
Na avaliação do economista, isso tende a destravar oportunidades práticas, como mais espaço para comércio intra-empresa, novos fornecedores e investimentos associados à redução de barreiras. Se há algo que a história ensina, afinal, é: não há ferramenta mais eficiente para a geração de riqueza do que o livre comércio.