O Brasil está no no pico das exportações de soja, seu principal produto agrícola de exportação. O incremento nos preços do diesel está elevando o custo de transporte da soja até os terminais de exportação, além de aumentar as pressões inflacionárias de forma mais ampla.
Diversas empresas de comércio de commodities agrícolas paralisaram ofertas de compra de soja no mercado local na última semana em meio a medo de uma alta acentuada nos custos de frete, segundo analistas e corretores. O diesel representa uma parcela importante do custo de comercialização de soja, e a ausência de instrumentos de hedge que protejam contra elevações bruscas pode expor os traders a prejuízos.
Algumas das maiores companhias de comercialização de soja estiveram menos ativas no mercado brasileiro recentemente, uma vez que os riscos de frete se somaram a preocupações sanitárias que atingiram exportações para a China, disse João Henrique Teodoro, consultor de mercado na Patria Agronegócios.
Os problemas ocorrem em um período particularmente sensível para a agricultura brasileira, uma vez que o país é o principal fornecedor de soja para a China nessa época do ano. Uma guerra prolongada, e contínua volatilidade nos fretes, poderia criar gargalos logísticos, eventualmente levando importadores a buscar outros fornecedores como os Estados Unidos ou a Argentina.
“As companhias precisam de uma forma de planejamento, e dependendo de quanto tempo isso levar, podemos ver complicações na logística,” disse Adriano Gomes, analista de mercado da AgRural.
Agora, empresas de transporte podem começar a cobrar taxas de emergência por conta da guerra, disse Silvio Kasnodzei, presidente de um sindicato que representa transportadoras no estado do Paraná. O governo brasileiro anunciou uma redução em impostos federais pra proteger consumidores da alta do petróleo, mas as transportadoras acreditam que o movimento foi insuficiente pra aliviar a incerteza, disse Kasnodzei.
Enquanto nos Estados Unidos as barcaças tem um papel significativo no transporte de longa distância da soja para exportação, no Brasil um estudo da Universidade de São Paulo apontou que 55% da soja depende de caminhões para chegar aos portos. Volumes movimentados por estrada tiveram um crescimento em anos recentes, uma vez que investimentos em ferrovias ou hidrovias não acompanharam o ritmo de crescimento da produção agrícola.
Ao firmarem negócios de compra pra soja no Brasil, traders que compram cargas para serem entregues nos próximos meses ficam expostos à flutuações no custo de frete, disse Rodrigo Gonçalves, diretor-executivo da empresa de soluções logísticas goFlux. Se uma empresa negociando soja para maio for confrontada com aumentos no custo de frete, aquilo que antes seria uma transação lucrativa termina se transformando em prejuízo, disse ele.

Isso ocorre num momento de custos já elevados para o frete de commodities agrícolas, devido a alta demanda nessa época do ano. Os custos de transporte por caminhão chegaram a um pico por conta de chuvas que forçaram os produtores rurais a acelerarem a colheita, fazendo o setor movimentar volumes grandes em um curto período de tempo. Más condições nas estradas também levaram a prazos mais longos do que o usual em algumas rotas durante o mês de fevereiro.
Embora os preços de combustível no Brasil sejam influenciados pela política da Petrobras, os caminhoneiros viram preços se elevarem no interior do país antes mesmo de a empresa implementar um aumento oficialmente.
Nos primeiros oito dias de março, o preço do diesel vendido pelas distribuidoras a postos de combustivel subiu cerca de 8%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). O preço da Petrobras não havia sido alterado no período, mas a companhia anunciou na última sexta-feira que iria elevar o custo aos distribuidores.