Cada novo desdobramento dos eventos na Venezuela deixa mais evidente qual é a moeda de troca no impasse geopolítico que se instaurou: o petróleo. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que o país aplicará uma “quarentena” da commodity para obter concessões da nova liderança venezuelana após a derrubada do presidente Nicolás Maduro.

Em meio a questionamentos sobre como Washington lidará com integrantes do círculo de Maduro que ainda permanecem no poder, Rubio disse que a Venezuela precisará romper laços com o Irã, o Hezbollah, do Líbano, e Cuba, além de interromper o tráfico de drogas e garantir que sua indústria petrolífera não beneficie adversários dos EUA.

“Existe agora uma quarentena em vigor: carregamentos de petróleo sob sanções – há um navio, e esse navio está sob sanções dos EUA; nós obtemos uma ordem judicial e o apreendemos”, disse Rubio ao programa Face the Nation, da rede CBS. Segundo ele, o bloqueio se tornou um poderoso instrumento de pressão para forçar mudanças na Venezuela.

Em coletiva ontem, o presidente americano Donald Trump sugeriu que empresas petrolíferas americanas gastarão bilhões de dólares para reconstruir a indústria de petróleo da Venezuela. Rubio afirmou que a escassez global de petróleo pesado – tipo produzido pela Venezuela e essencial para refinarias americanas – pode criar incentivos econômicos para a retomada da produção sob um novo arranjo político.

“Não falei com empresas petrolíferas americanas nos últimos dias, mas temos bastante certeza de que haverá um interesse significativo por parte de companhias ocidentais”, disse Rubio ao programa This Week, da ABC. “Empresas não russas e não chinesas estarão muito interessadas. Nossas refinarias na Costa do Golfo dos Estados Unidos são as melhores para refinar esse petróleo pesado.”

“Haverá enorme interesse, se isso puder ser feito da maneira correta”, acrescentou.

Rubio deu poucos sinais sobre o caminho imediato que será tomado na condução política da Venezuela após a retirada de Maduro. Ainda não está claro como isso vai acontecer depois que Trump disse que os EUA trabalharão com a presidente interina Delcy Rodríguez para realizar uma transição para um governo democraticamente eleito. Até agora, ela e outros líderes venezuelanos têm demonstrado falta de cooperação.

Rubio evitou responder, em entrevista à CBS, quando a Venezuela poderia realizar eleições como parte da transição para a democracia. “Essas coisas levam tempo, há um processo”, afirmou. “Vamos avaliar o que eles fazem, não o que dizem publicamente nesse meio tempo.”

O secretário também apontou a indústria petrolífera venezuelana como chave para uma economia forte. “No momento, trata-se de uma indústria petrolífera atrasada”, disse ao Face the Nation. “Nenhum dinheiro do petróleo chega às pessoas. Tudo é roubado por quem está no topo, e é por isso que temos essa quarentena.”

Ainda de acordo com Rubio, o bloqueio permanecerá em vigor até que ocorram mudanças “que não apenas promovam o interesse nacional dos Estados Unidos, que é o número um, mas que também levem a um futuro melhor para o povo venezuelano”.

Ele concluiu dizendo também que as forças americanas posicionadas na região são capazes de impedir “não apenas barcos de drogas, mas também qualquer um desses navios sob sanções que entram e saem, paralisando de fato essa parte de como o regime gera receita”.

A China no jogo

Mais cedo, o governo da China reagiu oficialmente à captura do presidente venezuelano, condenando a ação dos Estados Unidos e exigindo sua libertação imediata.

Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores chinês afirmou que a operação “viola o direito internacional”, a soberania da Venezuela e os princípios da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU), defendendo que a crise seja resolvida por meio de diálogo e negociação, e não pelo uso da força.

A nota também pediu que os EUA “garantam a segurança de Maduro e de sua esposa” e interrompam tentativas de mudança de regime, em uma crítica direta à atuação americana no país sul-americano.

A manifestação do governo chinês ocorre em um momento de tensão elevada nas relações entre Washington e Pequim, já marcadas por disputas tarifárias, além de sanções e conflitos em áreas estratégicas como tecnologia, comércio e segurança.

No campo energético, a Venezuela ocupa posição central nesse atrito geopolítico. A China é hoje o principal destino do petróleo venezuelano, absorvendo a maior parte das exportações do país, mesmo sob sanções americanas. O fornecimento de petróleo é um pilar da relação entre Pequim e Caracas, construída ao longo de anos por meio de acordos de financiamento, comércio e cooperação energética.

A reação chinesa reflete o receio de que uma reconfiguração política da Venezuela sob influência direta dos EUA afete esse fluxo de energia e amplie a pressão sobre os interesses estratégicos de Pequim, acentuando a crescente rivalidade global entre as duas potências.