“Os Estados Unidos da América realizaram com sucesso um ataque de grande escala contra a Venezuela e seu líder, o presidente Nicolás Maduro, que foi, junto com sua esposa, capturado e levado para fora do país“, escreveu Trump nas redes sociais.
Trump disse que haverá uma coletiva de imprensa às 13h de Brasília em Mar-a-Lago, sua propriedade em Palm Beach, Flórida.
Mais tarde, a procuradora-geral dos EUA, Pam Bondi, disse que o ditador e sua esposa, Cilia Flores, serão julgados em Nova York. “Eles logo sentirão a fúria da Justiça americana, em solo americano, nos tribunais americanos”, ela postou no X neste sábado.
A captura de Maduro marca uma intervenção sem precedentes e uma queda impressionante para o líder venezuelano que se tornou presidente em 2013.
Os ataques provocaram condenações de apoiadores de Maduro, incluindo o Ministério das Relações Exteriores da Rússia e o presidente colombiano Gustavo Petro, que convocou uma reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, enquanto aliados de Trump, incluindo o presidente da Argentina, Javier Milei, celebraram a notícia.
Maduro já era alvo de uma campanha de pressão dos EUA que remonta ao primeiro mandato de Trump. O governo Trump o acusou de liderar uma organização de tráfico de drogas que representava uma ameaça à segurança nacional, enquanto o presidente dos EUA também fez referência às vastas reservas de petróleo do país.
Embora poucas empresas internacionais operem na Venezuela devido às sanções dos EUA, a Chevron, sediada em Houston, é uma importante parceira da produtora de petróleo estatal do país, sob uma licença especial do Departamento do Tesouro. A empresa não respondeu imediatamente aos pedidos de comentário enviados fora do horário comercial.
Trump vinha reunindo forças militares americanas na região há meses, autorizando ataques a supostos barcos de tráfico de drogas e orquestrando um bloqueio de navios petroleiros sancionados que entravam e saíam da Venezuela.
Alguns parlamentares democratas foram às redes sociais para criticar a operação militar antes que a captura de Maduro fosse anunciada.
“Esta guerra é ilegal. É vergonhoso que tenhamos passado de polícia do mundo para perpetrador de bullying do mundo em menos de um ano”, disse o senador Ruben Gallego, do Arizona. “Não há razão para estarmos em guerra com a Venezuela.”
No mês passado, Trump alertou que sua campanha “apenas aumentaria, e o choque para eles será como nada que já viram antes”. O secretário de Estado, Marco Rubio, chamou a cooperação da Venezuela com narcotraficantes e terroristas de uma ameaça direta à segurança nacional dos EUA.
O senador americano Mike Lee, republicano de Utah, postou no X neste sábado que Rubio já lhe havia adiantado sobre o julgamento. Citando uma conversa telefônica com o Secretário de Estado, Lee acrescentou que Rubio não antecipa novas ações na Venezuela.
A chefe de política externa da União Europeia, Kaja Kallas, também disse que conversou com Rubio sobre a Venezuela e pediu moderação, ao mesmo tempo em que reiterou a visão do bloco de que Maduro carece de legitimidade.
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia condenou o “ato de agressão armada contra a Venezuela” dos EUA, dizendo que é importante evitar uma nova escalada. Em uma postagem nas redes sociais, Petro, da Colômbia, rejeitou “a agressão contra a soberania da Venezuela e da América Latina”.
“Conflitos internos entre povos são resolvidos por esses mesmos povos em paz”, escreveu ele. “Esse é o princípio da autodeterminação dos povos, que constitui a base do sistema das Nações Unidas.”
O ataque aéreo
As primeiras explosões na capital foram ouvidas por volta das 2h da manhã, horário local, e aeronaves puderam ser vistas e ouvidas sobrevoando por horas, de acordo com moradores. Múltiplas explosões se concentraram em torno da base militar Fuerte Tiuna, em Caracas.
O governo venezuelano afirmou que alvos militares e civis foram atingidos em três estados, acrescentando que isso marcou uma tentativa dos EUA de confiscar os recursos petrolíferos do país. Imagens de vídeo não confirmadas mostraram aeronaves voando sobre Caracas e o que parecia ser uma salva de ataques de mísseis em alvos em áreas urbanas.
“Conclamamos os povos e governos da América Latina, do Caribe e do mundo a se mobilizarem em solidariedade ativa diante desta agressão imperial”, disse o governo em um comunicado.
Contexto histórico e próximos passos
Maduro recebeu uma delegação chinesa de alto nível em Caracas na sexta-feira, incluindo o Representante Especial do Governo Chinês para Assuntos Latino-Americanos, Qiu Xiaoqi. Não está claro se os diplomatas permaneciam no país no momento do ataque.
A operação americana ocorreu no aniversário do dia em que, em 1990, o líder panamenho Manuel Noriega se rendeu às tropas dos EUA após buscar asilo na embaixada do Vaticano na Cidade do Panamá. Ele foi levado para Miami, onde foi julgado e condenado à prisão.
A saída de Maduro pode se tornar um divisor de águas para a Venezuela e seu povo, que passou anos tentando destituí-lo por meio de eleições amplamente contestadas e marcadas por alegações de fraude e repressão.
As atenções agora se voltam para a líder da oposição, María Corina Machado, que está em local desconhecido, e para seu candidato substituto nas eleições presidenciais de 2024, Edmundo González, amplamente visto como o vencedor com base em uma contagem paralela de votos e atualmente exilado na Espanha.
Após sua aparição atrasada em Oslo para receber o Prêmio Nobel da Paz em meados de dezembro, Machado disse que voltaria a se esconder na Venezuela.
A presidência de Maduro foi marcada por uma prolongada crise política, social e econômica. Seu governo enfrentou acusações generalizadas de autoritarismo, abusos de direitos humanos e repressão à dissidência. Durante seu mandato, a Venezuela sofreu hiperinflação, grave escassez de alimentos e remédios, e o êxodo de mais de 8 milhões de venezuelanos, uma das maiores ondas migratórias do mundo.
A captura de Maduro após uma série de ataques aéreos também contrasta com a promessa repetida de Trump de acabar com guerras e não iniciar novas. Os primeiros 11 meses de seu mandato viram os EUA realizarem ataques contra o Irã, os Houthis no Iêmen e supostos alvos do Estado Islâmico na Nigéria e na Síria.
Anteriormente, Trump havia alertado contra tais ataques, dizendo a uma plateia na Arábia Saudita que “intervencionistas estavam intervindo em sociedades complexas que eles mesmos nem entendiam”.
“Nos últimos anos, muitos presidentes americanos foram afligidos pela noção de que é nosso trabalho olhar para as almas de líderes estrangeiros e usar a política dos EUA para aplicar justiça por seus pecados”, disse ele na época.
Por Derek Wallbank e Redação Investnews