Estados Unidos e Irã encerraram negociações diretas no Paquistão sem chegar a um acordo, o que coloca em risco um cessar-fogo frágil e aumenta as dúvidas sobre os esforços para encerrar uma guerra de seis semanas que matou milhares de pessoas e desorganizou o abastecimento global de energia.

O vice-presidente JD Vance, que liderou a delegação americana, disse que está voltando para casa sem um acordo depois que o Irã se recusou a se comprometer a não buscar uma arma nuclear.

“Deixamos muito claro quais são nossas linhas vermelhas, em que pontos estamos dispostos a acomodá-los e em que pontos não estamos”, disse Vance a jornalistas na madrugada de domingo, em Islamabad. “Fomos o mais claros possível, e eles decidiram não aceitar nossos termos.”

A mídia semioficial iraniana citou exigências “excessivas” dos EUA, enquanto o Ministério das Relações Exteriores afirmou que era natural que as divergências não fossem resolvidas em apenas uma rodada de conversas, deixando aberta a possibilidade de novas negociações.

Estreito de Ormuz

O fim abrupto das conversas, após 21 horas de negociação, deixa em suspenso o cessar-fogo de duas semanas acertado na semana passada. O presidente dos EUA, Donald Trump publicou nas redes sociais uma reportagem sobre um bloqueio naval que poderia impedir as exportações de petróleo do Irã pelo estratégico Estreito de Ormuz.

A hidrovia continua sendo um ponto central do impasse. Teerã insiste em manter seu controle depois de ter paralisado o tráfego de embarcações — responsável por um quinto da oferta global de petróleo e gás natural liquefeito — após a guerra entre EUA, Israel e Irã, iniciada no fim de fevereiro.

“Diante das exigências maximalistas dos dois lados, as negociações estavam fadadas ao fracasso”, disse Jean-Loup Samaan, pesquisador sênior do Middle East Institute da National University of Singapore, citando as divergências sobre Ormuz e o programa nuclear iraniano. “Até agora, não há nenhum sinal de que o Irã esteja disposto a rever sua posição nesses temas. Mas, no geral, isso pode levar de forma rápida e certa à retomada da guerra.”

A falta de acordo é “uma má notícia muito mais para o Irã do que para os EUA”, disse Vance no domingo, antes de deixar Islamabad, onde ocorreram as negociações.

“Estamos saindo daqui com uma proposta muito simples, um entendimento que representa nossa oferta final e melhor”, afirmou. “Vamos ver se os iranianos a aceitam.”

Os dois lados chegaram a um entendimento sobre vários temas, mas continuaram divergindo em “dois ou três pontos-chave”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei.

“Era natural não esperar, desde o início, que um acordo fosse alcançado em uma única sessão”, disse ele à televisão estatal após as negociações. “A diplomacia nunca termina”, afirmou, acrescentando que o Irã vai “continuar defendendo os interesses nacionais em qualquer circunstância”.

Segundo a agência semioficial iraniana Tasnim, os EUA tentaram obter nas negociações concessões que não conseguiram arrancar na guerra, inclusive em relação ao Estreito de Ormuz e à retirada de materiais nucleares.

O fracasso em fechar um acordo após essa maratona de conversas deve mexer com os mercados de petróleo e gás na segunda-feira (13). Dois superpetroleiros vazios tentaram atravessar Ormuz rumo ao Golfo Pérsico no domingo, mas deram meia-volta na última hora, justamente quando as negociações de paz entre EUA e Irã chegaram ao fim.

“As esperanças tinham subido com cautela na semana passada, mas isso pode nos levar de volta aos níveis em que o mercado operava antes do anúncio do cessar-fogo”, disse Nick Twidale, analista-chefe de mercado da AT Global Markets, em Sydney. “Imagino que veremos o petróleo abrir em alta, junto com o dólar.”

O Paquistão afirmou que as negociações foram “construtivas” e pediu que os dois lados mantenham o cessar-fogo, dizendo que continuará facilitando as conversas entre EUA e Irã nos próximos dias.

Na primeira reação de uma autoridade israelense, o ministro do gabinete de segurança de Israel, Zeev Elkin, disse à Army Radio que o período de cessar-fogo de duas semanas ainda não terminou e que “é possível que haja tentativas de gerar mais conversas”.

Ao longo do fim de semana, as Forças de Defesa de Israel continuaram atacando o Hezbollah no Líbano, onde travam uma guerra paralela contra o grupo militante aliado ao Irã. Mais de 200 ataques foram realizados para atingir a infraestrutura do Hezbollah e dar apoio aéreo às tropas israelenses no sul do Líbano, informou o Exército israelense no sábado.

Vance chegou a Islamabad no sábado e foi acompanhado por Jared Kushner e Steve Witkoff para negociar com uma delegação iraniana de 71 integrantes, liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad-Bagher Ghalibaf.

“Precisamos ver um compromisso afirmativo de que eles não buscarão uma arma nuclear e não buscarão os meios que lhes permitiriam obtê-la rapidamente”, disse Vance. “Esse é o objetivo central do presidente dos Estados Unidos, e foi isso que tentamos alcançar nessas negociações.”

Michael Kugelman, pesquisador sênior do Atlantic Council para o Sul da Ásia, disse que o alto nível dos participantes mostra o compromisso dos EUA em buscar um acordo de paz e que provavelmente ainda haverá movimentos em direção a uma solução.

“Os EUA, por razões de política doméstica, querem um acordo que lhes permita sair da guerra”, escreveu ele no X. “Apesar dos comentários de Vance, isso provavelmente não acabou. Novas conversas podem acontecer”, embora ainda não esteja claro se isso ocorreria no Paquistão ou em outro lugar, afirmou.

As negociações diretas entre os dois lados começaram às 17h30 de sábado, na capital paquistanesa. Equipes técnicas passaram a participar das reuniões depois da primeira hora, e as discussões se concentraram no Estreito de Ormuz, em uma possível extensão do cessar-fogo e em um alívio gradual das sanções, segundo uma autoridade americana e uma autoridade paquistanesa familiarizadas com o assunto.

EUA vitoriosos, segundo Trump

Trump, que disse que conter as ambições nucleares do Irã era uma das razões para a guerra, minimizou a importância das negociações na noite de sábado. Ao deixar a Casa Branca para assistir a uma luta do UFC em Miami, declarou: “Se fecharmos um acordo ou não, isso não faz diferença para mim. E o motivo é que nós vencemos.”

Ghalibaf vinha demonstrando cautela antes mesmo do início das conversas. Ao chegar a Islamabad no sábado, disse que “temos boa vontade, mas não temos confiança”.

“A grande perda de nossas principais lideranças, de nossos entes queridos e de nossos concidadãos apenas reforçou nossa determinação de defender os direitos e interesses do povo iraniano com ainda mais firmeza”, disse Baghaei, porta-voz da chancelaria iraniana.

O Irã também tem insistido que um cessar-fogo no Líbano deve ser uma pré-condição para as negociações.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que não participou das negociações em Islamabad, afirmou que o material nuclear enriquecido deve ser retirado do Irã com ou sem acordo.

Israel acusa o Irã de buscar armas nucleares, acusação que Teerã nega.

A guerra no Oriente Médio já deixou mais de 5.600 mortos, segundo governos e organizações não governamentais. Mais de 3.600 pessoas morreram no Irã, segundo estimativa da Human Rights Activists News Agency, sediada nos EUA, enquanto mais de 2.000 morreram no Líbano, de acordo com o governo do país.

Israel afirmou ter matado mais de 1.400 militantes do Hezbollah, incluindo 200 apenas na última quarta-feira.

Israel registrou cerca de três dezenas de mortes, e número semelhante foi contabilizado nos países árabes do Golfo, segundo relatórios oficiais. Também houve várias dezenas de vítimas no Iraque. Treze militares americanos morreram, segundo o Comando Central dos EUA.