A mídia iraniana confirmou a morte na madrugada de domingo (1) no horário local, dizendo que Khamenei foi morto em seu escritório e que haverá 40 dias de luto nacional.
“Isso não é apenas justiça para o povo do Irã mas para todos os grandes americanos e para aqueles de muitos países ao redor do mundo que foram mortos ou mutilados por Khamenei e sua gangue de bandidos sedentos de sangue”, escreveu o presidente dos EUA, Donald Trump, nas redes sociais.
A morte do líder do Irã cria novos riscos para uma fatia relevante do suprimento mundial de petróleo – e dos mercados globais.
O Irã bombeia cerca de 3,3 milhões de barris por dia, o equivalente a 3% da produção global, o que faz do país o quarto maior produtor da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Mas a nação exerce uma influência bem maior sobre o abastecimento de energia do mundo por causa de sua localização estratégica.
O Irã fica de um lado do Estreito de Ormuz, a rota marítima por onde passa cerca de um quinto do petróleo bruto do mundo, vindo de fornecedores-chave como Arábia Saudita e Iraque.
Com a morte de Khamenei, um capítulo extremamente significativo na história moderna do Irã se fecha, com pouca certeza sobre o que vem a seguir ou quem está na fila para sucedê-lo.
Um membro sênior do clero, Khamenei emergiu do movimento religioso e anti-imperialista que tomou o controle da revolução de 1979 do país. Com sua barba branca, roupas clericais e turbante preto, ele projetou a imagem de um patriarca austero.
Figura sisuda, Khamenei nunca saiu do Irã após assumir o cargo. Ele usou sua autoridade para suprimir protestos contra sua liderança e o sistema islâmico que ajudou a construir. Sua resposta inabalável ao retrocesso do regime e suas opiniões sobre os direitos das mulheres e liberdades civis reforçou sua reputação como um líder disposto a matar centenas de civis para permanecer no poder.
Khamenei definiu a posição do Irã no Oriente Médio como um inimigo ferrenho de Israel e um obstáculo intransigente às tentativas dos EUA de influenciar e moldar a região.
Ele garantiu que sua desconfiança e desprezo profundos pelos EUA — que se originaram da história de interferência de Washington na política iraniana e do apoio a uma monarquia que o havia aprisionado — estivessem sempre em evidência na vida política iraniana. Ele repetidamente clamou pela destruição de Israel, caracterizando-o como um tumor cancerígeno na região.
Khamenei “buscou incessantemente transformar o conceito islâmico tradicional de jihad” — uma luta baseada na fé contra o mal, representado pelo Ocidente e especialmente pelos EUA — “e estabelecer isso como a questão central na ideologia do regime islâmico”, escreveu Mehdi Khalaji, um pesquisador sênior do Washington Institute for Near East Policy.
Embora Khamenei não estivesse sozinho em sua ênfase na jihad, sua “contribuição nova” foi torná-la “a base de todo o sistema ideológico da República Islâmica e a única base da diplomacia do regime iraniano”, escreveu Khalaji.
A partir de 1989, quando sucedeu o Aiatolá Ruhollah Khomeini como líder supremo, Khamenei protegeu os interesses das instituições religiosas de linha dura e do exército — muitas vezes contra a opinião popular, que na maior parte favorecia reformas e laços mais estreitos com o Ocidente.
Quando um levante eclodiu em 2022 após a morte de uma jovem sob custódia da chamada polícia da moralidade, que impunha rígidos códigos de vestimenta religiosa, Khamenei respondeu com uma repressão mortal envolvendo tanto as forças de segurança quanto o uso de execuções judiciais.
A resposta aos recentes protestos em todo o país que eclodiram em 28 de dezembro de 2025 foi ainda mais esmagadora e brutal.
Grupos de direitos humanos ainda checando o total de mortos — até agora contabilizados em mais de 7.000 — após as autoridades imporem um bloqueio total à internet no país, restringindo o acesso das pessoas ao mundo exterior durante o fim de semana mais sangrento do levante.
Influência no Oriente Médio
O impacto de Khamenei foi além das fronteiras do Irã.
Ele permitiu que a guarda — que possui suas próprias divisões terrestre, aérea e naval e milícias à paisana — construísse um império empresarial que abrange até 40% da economia. Em troca, seus comandantes lhe deram lealdade inabalável.
Como um líder global autoproclamado dos muçulmanos xiitas, a facção do islã dominante no Irã, ele supervisionou a expansão do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, a principal força militar do Irã e um agente de sua projeção de poder no exterior.
O Irã construiu uma poderosa rede de aliados estatais e não estatais em todo o Oriente Médio que lutariam em nome do Irã e agiriam como um anel de dissuasão contra Israel e outros aliados dos EUA. À medida que esse uso indireto de poder se expandiu, o Irã atraiu críticas severas de vizinhos árabes, muitos dos quais condenaram isso como uma interferência perigosa.
Khamenei ganhou influência significativa para o Irã em vizinhos como o Iraque, a Síria, o Líbano, o Iêmen e o território palestino da Faixa de Gaza. Ele fez isso em parte apoiando milícias e lutando em batalhas por procuração contra os EUA e seus aliados, incluindo as monarquias árabes sunitas no Golfo Pérsico, que ajudaram a financiar a guerra do Iraque contra o Irã na década de 1980 e mais tarde apoiaram as sanções dos EUA contra a economia iraniana.