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Economia

Guedes quer dólar a R$ 5? Entenda como funciona o swap cambial

Mesmo após o BC intervir com US$ 3 bilhões para conter a alta, moeda continuou em disparada e alcançou R$ 4,66. Por que, afinal, as intervenções não estão surtindo efeito?

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por

Katherine Rivas

O dólar quebrou novos recordes frente ao real nesta quinta-feira (5), apesar de o Banco Central ter atuado três vezes com contratos de swap cambial de US$ 3 bilhões para controlar a cotação.  A moeda americana fechou na marca histórica de R$ 4,65 na véspera, maior valor nominal desde a implantação do Plano Real.

Enquanto o dólar alcança novos patamares, o mercado cobra do Banco Central um posicionamento mais forte. Contudo, a pergunta que o mercado não engole é: Até que ponto o Banco Central vai permitir a alta do dólar? E por que as intervenções de swap não estão impedindo a alta da moeda?

Para entender mais sobre o swap cambial (oferta de dólar com compromisso de recompra), o InvestNews conversou com Cristiano Correa, professor de finanças do Ibmec, que explica: “O swap é um contrato de troca de indexadores, trocando a variação de dólar pela variação do real. É uma importante ferramenta utilizada pelo Banco Central para intervir nos efeitos da desvalorização do câmbio”.

Em outras palavras, o swap cambial é um mecanismo que tenta conter a volatilidade do dólar em cenários de risco, como o vivido atualmente. É uma operação que não tem transferência de capital e sim uma troca de rentabilidade no final do contrato.

Como funciona? No swap, a venda do dólar é sempre negociada no mercado futuro, por meio de duas operações: swap tradicional e swap reverso.

Swap tradicional: É a operação que o Banco Central realizou esta semana. Quando há muita saída de dólares, o valor da moeda americana sobe, então o BC vende contratos de swap (troca) para datas futuras.

Com isso, os investidores que comprariam dólar à vista (no mercado tradicional) por medo da alta optam por fazer um swap (contrato), no qual o BC garante uma taxa que paga a possível variação do dólar no futuro, mais juros. Com esta “garantia” para o comprador, a pressão contra o dólar diminui, ajudando as cotações a caírem.

O swap tradicional opera com a taxa DI, que é ligeiramente menor que a Selic e com mais risco. 

Swap reverso:  É o oposto do swap tradicional. Quando o dólar começa a cair, por causa da alta procura pelo swap tradicional, é a hora do BC comprar dólares em uma data futura.

O swap reverso é utilizado, por exemplo, para evitar as quedas bruscas do dólar que podem prejudicar as exportações. Neste caso, o Banco Central oferece aos compradores os juros do período.

O que o governo quer?

Enquanto o mercado cobra respostas rápidas do governo para conter a alta da moeda americana, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirma que o câmbio é flutuante e que não há “nada de errado” com a cotação do dólar, que encerrou nesta quinta (5) a R$ 4,65. “A flutuação do câmbio está em um nível mais alto”, defendeu Guedes, e garantiu que o dólar só vai chegar a R$ 5 reais se “ele fizer besteira”.

Até o momento, o dólar já teve 12 altas consecutivas e bateu 11 recordes nominais.

Para Sidnei Nehme, economista e diretor-executivo da NGO Corretora de Câmbio, o governo de Jair Bolsonaro não está preocupado em impedir a alta do dólar porque esta seria uma estratégia que beneficia as exportações e atrai investimentos. “Se o dólar está perto dos R$ 5, não é culpa só do coronavírus. O governo acha que essa política é correta, mas nossa economia tem muitas deficiências”, explica.

Nehme justifica sua crença nos números e defende que as exportações não cresceram porque o setor produtivo está fraco, assim como não houve investimento estrangeiro porque o Brasil não passa confiança com as reformas em atraso. “É só olhar o PIB de 1,1% e encontraremos respostas”.

Já Michael Viriato, professor de finanças do Insper, defende que ninguém conhece de fato a estratégia do Banco Central em relação ao dólar. “Não dá para ficar especulando. O BC não vai abrir o jogo do que quer, porque isso impactaria o mercado e os investidores”, explica.

O objetivo dos swaps, segundo Viriato, não seria evitar a alta do dólar e sim conter a volatilidade da moeda. Por este motivo, não haveria como afirmar se a estratégia está dando certo ou errado. “Nós não sabemos se o objetivo deles é conter a alta do dólar ou não”, aponta.

Segundo Cristiano Correa, professor de Finanças do Ibmec, os leilões de swap cambial que o BC realizou tiveram o objetivo de estabilizar o dólar e, apesar de existir um limite para esta operação, ainda estamos longe desse momento. 

Correa não descarta que o governo esteja utilizando a alta do dólar para beneficiar empresas exportadoras, mas ele enxerga a possível estratégia como ‘cara’. “É difícil avaliar a política cambial em tempos de crise e grandes oscilações, mas um dólar muito alto deve impactar na inflação”, defende, e acrescenta que o uso de swaps neste momento sinaliza que o BC não quer se desfazer das reservas internacionais, porque pode estar guardando para um momento mais crítico.

Dólar a R$ 5?

Assim como Paulo Guedes acredita que não há nada de errado com o dólar a R$ 4,65, Viriato não vê na alta do dólar motivo suficiente para preocupação e recomenda comparar a situação do real com as moedas de outros países que têm forte influência na nossa pauta exportadora.

“É importante comparar a situação do real com o euro, o yuan antes de afirmar que estamos desvalorizando”, explica e aponta que o real não é a única moeda impactada pela instabilidade mundial. “É só olhar para o México, que também teve sua moeda desvalorizada. Estamos acostumados a olhar apenas para o próprio umbigo”.

Para Correa, é inegável que no curto prazo a alta do dólar afetaria a inflação, pelo fato de que boa parte dos produtos consumidos no Brasil é atrelada à moeda estrangeira. “Um dólar a R$ 5 vai encarecer os preços e consequentemente gerar inflação”.

Na visão de Nehem, o dólar chegará em breve a R$ 5, aumentando a inflação e complicando o panorama da economia brasileira. Segundo o economista, o governo deve continuar apostando no dólar alto como estratégia para a economia crescer, não porque seja o correto e sim porque, provavelmente, percebeu que não tem saída.

“Eles [Guedes e o BC] já perceberam que não há mais condições de mudar agora e vão levar o Brasil para um quadro muito complexo”, defende. Ele compara a situação atual do Brasil com a de um cego que caminha para o abismo.

Nehem conclui que nem tudo é culpa do coronavírus e sim dos problemas internos do Brasil que deixaram os mercados sem alternativas a curto prazo.  “Hoje a pressão está no mercado futuro, em breve o governo vai vender dólar no mercado à vista”, conclui.

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