Em uma publicação nas redes sociais, Trump afirmou que pretende aplicar a tarifa a partir de 1º de fevereiro e elevá-la para 25% em junho, a menos que — e até que — “um acordo seja alcançado para a compra completa e total da Groenlândia”.
Segundo o presidente americano, as tarifas atingirão Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia.
A medida tem como alvo diversos membros da OTAN, incluindo a própria Dinamarca. Esses países passam agora a enfrentar tarifas punitivas impostas por um aliado que busca pressioná-los a ceder território dentro da própria aliança.
“A caixa de Pandora das tarifas foi reaberta — e os riscos são mais altos, com um nível de brutalidade sem precedentes”, disse Simone Tagliapietra, pesquisador sênior do think tank Bruegel, em Bruxelas. “A Europa agora não tem outra escolha a não ser enfrentar esse ato hostil com firmeza e sem hesitação, inclusive recorrendo a seus instrumentos contra coerção.”
Ainda não está claro qual base legal Trump usaria para aplicar as tarifas — nem se elas de fato entrarão em vigor. A Casa Branca não respondeu de imediato a pedidos de esclarecimento.
Trump já recorreu anteriormente à Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional para ameaças semelhantes. O uso dessa autoridade é hoje objeto de um julgamento histórico na Suprema Corte dos EUA, cuja decisão pode inviabilizar juridicamente a aplicação das tarifas. Uma alternativa considerada pela Casa Branca, conhecida como “Seção 122”, limita tarifas a 15% por até 150 dias.
Tudo isso levanta dúvidas sobre se Trump conseguirá impor as tarifas — e por quanto tempo. A UE é a maior fonte de importações dos EUA.
Em julho, Washington e Bruxelas chegaram a um acordo comercial que impôs uma tarifa de 15% sobre a maioria dos produtos exportados pela União Europeia para os EUA e de 50% sobre aço e alumínio, além de produtos derivados. O Parlamento Europeu, porém, ainda não ratificou o acordo — o que irritou o governo Trump.
A nova ameaça ocorre após uma semana de reuniões em Washington envolvendo o chanceler dinamarquês, Lars Lokke Rasmussen, autoridades do governo americano e parlamentares do Congresso. A ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, Vivian Motzfeldt, também participou dos encontros.
Dinamarca e Groenlândia seguem em impasse com os EUA sobre o futuro da maior ilha do mundo, embora autoridades tenham concordado recentemente em criar um grupo de trabalho para administrar o conflito diplomático.

A decisão de Trump também contraria acordos comerciais já firmados, como o firmado com o Reino Unido, e reforça sua reputação de romper ou ignorar compromissos anteriores — algo que pesa sobre negociações em andamento com países como México e Canadá.
Nos últimos dias, a Dinamarca convidou aliados da OTAN para participarem de atividades militares na Groenlândia. Vários países europeus já enviaram tropas ou oficiais como forma de demonstrar apoio à defesa do território.
A Alemanha enviou 15 soldados para uma missão exploratória. A França também enviou 15 militares. A Suécia enviou oficiais. Noruega, Finlândia, Reino Unido e Holanda enviaram representantes. A presença europeia na ilha evidencia a preocupação crescente do continente com a pressão americana.
“Esses países, que estão jogando esse jogo extremamente perigoso, colocaram em risco um nível que não é sustentável”, escreveu Trump em sua publicação.
Apesar disso, o presidente afirmou que os EUA continuam abertos a negociações com Dinamarca e os demais países envolvidos.
“A gente está falando em adquirir — não em alugar, não em ter temporariamente. Estamos falando em adquirir. E se nós não fizermos isso, a Rússia ou a China vão fazer. E isso não vai acontecer enquanto eu for presidente”, disse Trump a repórteres a bordo do Air Force One.
Trump reconheceu que os EUA já mantêm uma grande base militar na Groenlândia, mas afirmou que isso não é suficiente. “Você precisa de propriedade. Precisa do título, como se diz no mercado imobiliário.”
Segundo ele, a Groenlândia é essencial para viabilizar o projeto do sistema de defesa Golden Dome, ainda em estágio inicial. “Esse sistema extremamente complexo só funciona em seu potencial máximo, por questões de ângulo e posicionamento, se esse território estiver incluído”, afirmou.