O secretário de Estado Marco Rubio teve uma longa conversa com Rodríguez e ela concordou em ajudar, disse Trump em uma coletiva de imprensa em Palm Beach, na Flórida. Ele alegou que ela já teria sido empossada como presidente para suceder Maduro. “Ela está, essencialmente, disposta a fazer o que achamos necessário para tornar a Venezuela grande de novo, bem simples”, afirmou.
Minutos depois, em uma aparição na televisão estatal cercada por oficiais militares de alta patente, Rodríguez pediu o retorno de Maduro da custódia dos EUA, descrevendo a captura como “bárbara” e um “sequestro”, e dizendo que Maduro é o único presidente do país.
Se Rodríguez for de fato uma parceira disposta, ela poderia ajudar os EUA a facilitar a transição mantendo a estabilidade por meio das instituições atuais na Venezuela. Mas sua longa lealdade a Maduro — amplamente visto como alguém que teria “roubado” a eleição do ano passado — deve levantar dúvidas sobre se ela estaria disposta a abrir mão do poder e sobre se os EUA estão realmente comprometidos com uma mudança de regime no país sul-americano.
Rodríguez não respondeu a pedidos de comentário. Na TV, ela disse que uma câmara do Congresso estava preparando um decreto de emergência, o que pode dar pistas de como o governo pretende operar sem Maduro. Ela também afirmou que a Venezuela ainda pode ter “relações respeitosas”, talvez sugerindo um caminho para uma distensão com os EUA.
Rodríguez é considerada por muitos como a pessoa mais poderosa do país depois de Maduro. Ela é uma de suas aliadas mais próximas, tendo subido na hierarquia em cargos como ministra da Informação e ministra das Relações Exteriores, e foi nomeada ministra do Petróleo em 2024 após a votação presidencial contestada.
Trump não se comprometeu a enviar tropas americanas para ajudar na transição, dizendo apenas que seu governo ajudaria a garantir que a infraestrutura de petróleo fosse protegida e melhorada. Ele descartou a ideia de instalar a líder da oposição María Corina Machado, chamando-a de uma “boa mulher” que não tem o apoio do povo venezuelano.
As declarações de Trump contrastaram com o tom desafiador de autoridades do governo na Venezuela na manhã de sábado. A televisão estatal alternou imagens de arquivo de Maduro pedindo paz “com dignidade” com manifestações de apoio de aliados internacionais e falas de líderes militares e civis regionais rejeitando o que descreveram como um ataque ao país. Autoridades insistiram repetidamente que a Venezuela permanecia calma, prometeram lealdade a Maduro e à sua agenda socialista e exigiram prova de que Maduro estava vivo.
“Juramos lealdade há muitos anos, e hoje mais do que nunca a defenderemos de forma firme e completa”, disse uma pessoa identificada na TV estatal como uma autoridade do estado de Yaracuy. Falando a uma multidão de soldados e civis, a autoridade perguntou: “Como está o moral?” A multidão respondeu em uníssono: “Alto. Viva Nicolás Maduro.”
Trump, por sua vez, disse que os militares precisariam se alinhar.
“Todas as figuras políticas e militares na Venezuela devem entender que o que aconteceu com Maduro pode acontecer com elas, e acontecerá com elas” se não forem “justas” com o povo venezuelano, disse.
Rodríguez conversou no sábado com o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, cujo país estava entre os aliados da Venezuela que condenaram a captura de Maduro por forças americanas.
Rodríguez, de 56 anos, teve papel central no planejamento orçamentário do país e liderou ações diplomáticas para consolidar alianças com alguns dos principais parceiros da Venezuela, incluindo China e Rússia. Recentemente, ela pressionou a China a aumentar as compras de petróleo venezuelano e a fornecer diluentes necessários para manter os embarques, em meio às sanções dos EUA.
Ela iniciou a carreira política no governo do ex-presidente Hugo Chávez depois de se formar em Direito na Universidade Central da Venezuela. Seu pai, Jorge Antonio Rodríguez, foi uma figura importante da esquerda radical venezuelana nas décadas de 1960 e 1970 e fundador de um partido marxista. Ele morreu em 1976 durante interrogatório na prisão após ter sido torturado por forças de segurança do Estado — um episódio que se tornou parte marcante da narrativa política de Delcy.
Pessoas que trabalharam com Rodríguez frequentemente comentam sobre suas longas jornadas; Maduro disse recentemente que ela respondia a mensagens até tarde da noite e no começo da manhã.
Aliada leal
Ao lado de Rodríguez no sábado estavam os chefes do Poder Legislativo, seu irmão Jorge Rodríguez; do Judiciário, Caryslia Rodríguez; e o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López.
Jorge Rodríguez é outra figura-chave do regime como presidente da Assembleia Nacional e um dos conselheiros mais próximos de Maduro. O psiquiatra de 60 anos se envolveu com política na universidade, onde foi líder estudantil, e após se formar passou a ocupar cargos no governo.
Aliado leal de Chávez e, depois, de Maduro, ele ocupou vários postos de destaque, atuando como vice-presidente, ministro da Comunicação e chefe da autoridade eleitoral. Também foi negociador do governo Maduro em várias rodadas de conversas com os EUA e com a oposição do país.
Apesar do papel de mediador, Rodríguez também é conhecido por seu temperamento explosivo, com ataques na Assembleia e ameaças e insultos públicos a integrantes da oposição.
Jorge Rodríguez seria um personagem importante para garantir continuidade e unidade política dentro do partido governista. Ele foi reeleito legislador em maio de 2025 e era esperado que assumisse o cargo em 5 de janeiro.
O homem das Forças Armadas
Em meio a rumores de que sua casa teria sido atacada e de que ele teria sido morto, o ministro da Defesa Vladimir Padrino López, de 62 anos, foi a primeira autoridade sênior do governo a aparecer em um vídeo nas redes sociais, mais de três horas após o início da instabilidade. Na mensagem, ele pediu que os venezuelanos mantivessem a calma, apoiou a declaração de estado de emergência de Maduro e disse que medidas de defesa nacional seriam ativadas para restaurar ordem e estabilidade.
Padrino é ministro da Defesa desde outubro de 2014, o que o torna um dos integrantes do governo há mais tempo no cargo. Ele foi nomeado durante um período tenso marcado por grandes protestos antigoverno, quando Maduro buscava reforçar o controle sobre as Forças Armadas e assegurar lealdade no topo. Oficial de carreira treinado no sistema militar tradicional da Venezuela, Padrino era visto como alguém capaz de manter os militares unidos à medida que a crise política e econômica do país se agravava.
Durante o período de Padrino, as Forças Armadas passaram a desempenhar papéis muito além da defesa nacional. Hoje, os militares supervisionam partes importantes da economia, incluindo distribuição de alimentos, portos, mineração e logística ligada ao petróleo. Essa expansão vinculou oficiais de alta patente de forma mais estreita à sobrevivência do governo, dando aos militares um interesse direto na manutenção do sistema político atual.
Padrino apoiou Maduro de forma consistente em momentos importantes de instabilidade, incluindo os protestos de 2017, o desafio de 2019 após o reconhecimento internacional de Juan Guaidó como presidente interino e repetidos relatos de tensões dentro das Forças Armadas. Ele foi sancionado pelos EUA e por outros governos, que o acusam de sustentar um regime autoritário, abusos de direitos humanos e corrupção. Os EUA ofereceram uma recompensa de US$ 15 milhões por informações que levem à sua captura.
O ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, também apareceu na televisão estatal no início do sábado para pedir calma e chamar atenção internacional para o que descreveu como ataques a áreas habitadas por civis.
“O que eles tentaram fazer com bombas e mísseis, eles conseguiram parcialmente”, disse, questionando se a comunidade internacional “se tornará cúmplice deste massacre”.
Participante de golpe
Cabello, de 62 anos, é o homem-forte do partido socialista no governo, controlando apoiadores e seguidores pelo país, além de chefiar prisões, polícia e forças de inteligência — o que as Nações Unidas afirmam ter permitido crimes contra a humanidade.
Como tenente do Exército, Cabello fez parte de um pequeno grupo de jovens oficiais liderados por Chávez responsável por uma tentativa de golpe em 1992. Após Chávez ser eleito presidente, Cabello foi nomeado para cargos-chave, incluindo ministro da Habitação e das Telecomunicações, presidente da Assembleia Nacional e governador do estado de Miranda.
Cabello foi uma figura central no avanço do controle do governo sobre a imprensa livre e na perseguição a políticos, jornalistas e ativistas de direitos humanos. Os EUA acusaram Cabello de narcotráfico e terrorismo em 2018. Ele é réu em uma denúncia federal no Distrito Sul de Nova York por conspiração para cometer “narcoterrorismo”. Em 2025, o Departamento de Estado anunciou que elevaria a recompensa por informações que levem à captura de Cabello para até US$ 25 milhões.