Trump buscou aliviar algumas dessas preocupações na quinta-feira (22), afirmando que a organização “trabalharia com muitos outros, incluindo as Nações Unidas”, durante um evento comemorativo à margem do Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça.
“Uma vez que este conselho esteja completamente formado, poderemos fazer praticamente qualquer coisa em conjunto com as Nações Unidas. Sabe, eu sempre disse que as Nações Unidas têm um potencial tremendo”, disse Trump.
Trump subiu ao palco acompanhado de membros fundadores do conselho, incluindo aliados políticos que compartilham sua visão populista, como o presidente argentino Javier Milei e o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, além de representantes de diversos países, incluindo Bahrein, Marrocos, Azerbaijão, Bulgária, Paquistão, Arábia Saudita, Turquia, Emirados Árabes Unidos e Uzbequistão.
Os líderes se juntaram a Trump em uma mesa para assinar documentos que, segundo a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, colocam a carta do conselho “em pleno vigor” e o tornam uma “organização internacional oficial”.
O Conselho da Paz também sinaliza o impulso de Trump para avançar para a segunda fase de seu plano de paz para Gaza, mesmo com a recusa do Hamas em entregar suas armas. Na quinta-feira (21), o presidente americano buscou apresentar a fase inicial do acordo de paz como um sucesso e disse que os Estados Unidos estão comprometidos em ver Gaza “reconstruída adequadamente”, embora tenha alertado que o Hamas deve devolver os restos do último refém falecido durante o ataque de 2023 a Israel.
Ele abriu o evento vangloriando-se da economia dos Estados Unidos e de suas alegações de ter interrompido pelo menos oito guerras, número que inclui conflitos que não se transformaram em hostilidades abertas ou em que animosidades de longa data ainda não foram resolvidas. Trump também reiterou seu desejo de gastar US$ 1,5 trilhão em defesa dos EUA e elogiou aliados da OTAN por aumentarem suas metas de gastos, enquanto criticava a Espanha, que ainda não se comprometeu com esse valor.
“Eles querem uma carona grátis, eu acho”, disse Trump.
Ainda assim, apesar do alarde de Trump na quinta-feira, o conselho teve um início conturbado, marcado por dúvidas sobre seus objetivos, composição e o controle que o presidente americano exercerá. Aliados cruciais dos EUA, incluindo grandes economias do Grupo dos Sete, permanecem à margem, não prontos para abraçar a iniciativa, mas também cautelosos em ofender um presidente americano que vê o projeto como parte de seu legado.
Trump propôs inicialmente o conselho como parte de um plano de paz para Gaza, encarregado de ajudar na supervisão de sua reconstrução. Mas uma minuta da carta do conselho, vista pela Bloomberg, sugeria um escopo mais amplo para “garantir a paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos”, uma visão expansiva que alarmou muitos parceiros americanos, preocupados que o conselho buscaria rivalizar — e até minar — a ONU. Esses receios persistiram apesar dos esforços da administração Trump para convencer os países de que o conselho complementaria, e não substituiria, a ONU.
A minuta também pedia que os países contribuíssem com pelo menos US$ 1 bilhão para garantir um lugar permanente no conselho e concederia a Trump o poder de decisão final como seu “presidente inaugural”, com a possibilidade de permanecer nesse cargo mesmo após o fim de sua presidência.
A composição do conselho também alarmou aliados democráticos. Trump estendeu um convite ao presidente russo Vladimir Putin, provocando indignação devido à invasão em curso da Ucrânia pelo Kremlin, juntamente com outro líder autoritário, Alexander Lukashenko, da Bielorrússia.
Cerca de 60 líderes foram convidados a participar, segundo reportagens e declarações oficiais. Nenhum país da África subsaariana está entre os convidados.
Países que recusaram o convite
Entre os países que até agora recusaram o convite estão França, Reino Unido, Suécia, Holanda, Alemanha e Canadá. Após o presidente francês Emmanuel Macron recusar o convite, Trump ameaçou o país com uma tarifa de 200% sobre champanhe e compartilhou uma mensagem privada de Macron nas redes sociais.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, disse estar disposto a se juntar ao conselho “em princípio”, mas acrescentou em Davos, na terça-feira, que ele deveria se concentrar nas necessidades de Gaza. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, recusou-se a endossar o conselho e afirmou que coordenaria uma resposta com os aliados.
Essa hesitação também ocorreu enquanto líderes, nesta semana, lutavam para lidar com outro ponto sensível da geopolítica: as exigências de Trump para que a Dinamarca cedesse o controle da Groenlândia, apoiadas pela ameaça de novas tarifas. O presidente retirou a ameaça de tarifa na quarta-feira à noite, dizendo que havia chegado ao “quadro de um futuro acordo” sobre a ilha ártica.
Trump afirmou no início da semana que gostaria que “não precisássemos de um Conselho da Paz”, mas que a ONU falhou em ajudá-lo a resolver os conflitos mundiais.
Embora o Conselho de Segurança da ONU tenha inicialmente endossado o plano de Trump para Gaza, o escopo mais amplo o surpreendeu. Na segunda-feira, o porta-voz da ONU, Farhan Haq, disse que o Conselho de Segurança havia autorizado o Board of Peace apenas para seu trabalho em Gaza.
Quando o presidente apresentou o conceito do conselho de paz em outubro, ele tinha a intenção de auxiliar na reconstrução de Gaza após uma guerra devastadora entre Israel e Hamas. Um comitê de alto nível de líderes mundiais supervisionaria uma equipe de tecnocratas governando o enclave costeiro, em vez de militantes do Hamas, com o objetivo de atrair investimento estrangeiro e criar a base para uma força de segurança internacional.
Mesmo elementos básicos do plano geraram descontentamento. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que desde então aceitou um lugar no conselho, questionou a inclusão de representantes do Catar e da Turquia em um painel subsidiário. Esses países são vistos por Israel como próximos demais do Hamas.