Mas a semana de descanso de Filip Sobiecki, que trabalha numa startup de IA na Polônia, e de seu grupo de 18 pessoas virou uma maratona desesperada para voltar a Varsóvia e Munique, depois que a maior parte do espaço aéreo da região foi fechada quando o Irã disparou uma barragem de drones e mísseis.
Com o voo da LOT Polish Airlines cancelado, Sobiecki disse que cogitou fretar um jato particular — só para descobrir que o preço havia quadruplicado, enquanto pessoas presas na cidade disputavam qualquer saída.
Assim que o espaço aéreo fechou, ele considerou operadores de iate que poderiam levá-lo até Mumbai e, depois, motoristas de caminhões blindados que transportariam seu grupo até o vizinho Omã, de onde pegariam carona em um jato corporativo até Istambul — e, dali, seguiriam viagem.
No fim, todos esses planos foram por água abaixo, e Sobiecki se viu na mesma situação de dezenas de milhares de visitantes de Dubai: preso numa cidade que construiu sua reputação como um portal global confiável, operando em todas as direções, 24 horas por dia, 7 dias por semana — uma engrenagem bem lubrificada que bombeia incessantemente pessoas, aviões e produtos para dentro e para fora, mesmo em tempos difíceis, seja na pandemia, seja na guerra na Ucrânia.
Mas a salva de mísseis e drones do Irã — alguns dos quais danificaram marcos de Dubai, como o terminal principal do aeroporto e o icônico hotel Burj Al Arab, em formato de vela — mudou drasticamente essa dinâmica. De repente, Dubai virou uma ilha sem rota de fuga, com voos cancelados, espaço aéreo fechado e deslocamentos por mar severamente restringidos.
“Nós partimos do pressuposto de que seria um tempo maravilhoso passado juntos”, disse Sobiecki do quarto do hotel, na Marina de Dubai, onde afirmou ter ouvido várias explosões e sentido o prédio tremer. “De repente houve um estrondo no céu — provavelmente um daqueles foguetes foi interceptado — e foi aí que decidimos ficar e não sair.”
A experiência angustiante de Sobiecki perfurou a reputação que Dubai construiu como um refúgio de estabilidade, turismo liberal e ostentação de sucesso numa região acostumada a tensões políticas e turbulências.
A metrópole do Oriente Médio é conhecida por seu skyline ultramoderno, compras sem fim e resorts de praia de luxo, que atraíram quase 20 milhões de visitantes internacionais com pernoite no ano passado, segundo dados do Departamento de Economia e Turismo de Dubai. Isso equivale a uma média de mais de 50 mil visitantes por dia, embora as chegadas nos meses de pico do inverno sejam significativamente maiores.
A demanda do consumidor nos Emirados Árabes Unidos é uma das mais expostas no Golfo Pérsico à guerra entre EUA e Irã, dada a forte dependência do turismo e uma economia puxada por expatriados, disse o analista de Bloomberg Intelligence Rami Abi-Samra. Viagens e turismo responderam por cerca de 13% do PIB dos Emirados em 2025, segundo a Statista.
“Preços mais altos do petróleo podem apoiar os orçamentos regionais, mas a composição de visitantes e expatriados dos Emirados torna o impacto de curto prazo mais agudo”, escreveu Abi-Samira.
O setor hoteleiro de Dubai tem 154.264 quartos em mais de 800 propriedades, superando Bangcoc, Nova York, Paris e Singapura, e quase igualando Londres em número total de quartos, segundo o Departamento de Economia e Turismo de Dubai. A taxa média de ocupação dos hotéis na cidade superou 80% em 2025.
Muitos dos visitantes agora retidos vêm da Rússia, que ainda mantém um fluxo intenso de viajantes com Dubai. Uma parcela relevante desses turistas estava na cidade por conta de um recesso escolar de meio de período, e a Associação de Operadores de Turismo da Rússia estimou em cerca de 50 mil o número total de russos atualmente nos Emirados. Aproximadamente 20 mil agora não conseguem deixar o país à medida que as férias chegam ao fim, segundo a associação.
O governo dos Emirados anunciou que cobrirá todos os custos de hospedagem e assistência aos viajantes afetados, informou o jornal Khaleej Times, sediado no país, no fim da noite de sábado.
No normalmente movimentado Aeroporto de Dubai, o caos inicial deu lugar a um silêncio inquietante, depois que dezenas de milhares de passageiros esvaziaram os prédios e voltaram para a cidade. Superjumbos Airbus SE A380 operados pela Emirates ficaram parados nas pontes de embarque, incluindo um que teria sofrido danos leves durante a noite, em um suposto ataque aéreo que deixou alguns trabalhadores feridos.
Entre os envolvidos no caos estava George Koshy, empreendedor de tecnologia e comunicação baseado nos EUA. Ele voltava de Mumbai via Dubai quando seu voo precisou ser desviado sobre o Afeganistão, e acabou retornando a Dubai após várias mudanças de rota, disse.
Seu A380-800, com mais de 500 passageiros, pousou novamente no terminal de Dubai de onde havia decolado poucas horas antes, segundo Koshy. Embora ele tenha elogiado como a Emirates cuidou dos passageiros retidos, acomodando-os em hotéis, ainda há um sentimento de incerteza pairando sobre todos, afirmou.
“Nas áreas centrais de Dubai, autoridades de hotéis foram orientadas a apagar as luzes à noite em meio aos ataques de mísseis e drones”, disse. Ainda preso em Dubai, Koshy afirmou que não conseguirá encontrar a família em Los Angeles até que as tensões diminuam.
A rapidez com que Dubai conseguirá voltar ao normal e atrair novamente turistas e viajantes de negócios dependerá, em grande parte, da duração dos ataques iranianos e do fechamento do aeroporto.
Ekaterina Zamyatova, dona de uma escola particular em Moscou, disse que chegou na semana passada com o marido e o filho, em um pacote turístico organizado. Hospedada no Le Royal Meridien, na região de Jumeirah Beach Residence, ela deveria voltar a Moscou no domingo, mas seu voo da Aeroflot foi cancelado.
O hotel concordou em estender um pouco a estadia, mas, quando a operadora do pacote não ofereceu alternativas, Zamyatova teve de buscar hospedagem por conta própria.
“Nós vamos voltar de qualquer forma”, disse Zamyatova. “A gente ama Dubai, e essa situação não vai afetar nossos planos futuros de viajar para cá, desde que a paz seja restabelecida.”