Finanças

Após ‘emaranhado de dados’, payroll reforça tese do Fed e abala mercado

Números desta sexta mantêm perspectiva de juros altos por mais tempo.

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O mercado financeiro está naquele “momento mágico” em que quanto melhor os dados econômicos, pior para os ativos de risco, resumiu bem o economista André Perfeito. Afinal, é exatamente isso o que acontece nesta sexta-feira (6) nos mercados globais, na esteira da divulgação dos dados de emprego nos Estados Unidos (payroll). 

Anúncios de vagas de emprego em Cambridge, EUA 08/07/2022. REUTERS/Brian Snyder

Logo após o anúncio da criação de mais vagas que o esperado nos EUA em setembro, totalizando 336 mil ante previsão de 170 mil, os futuros dos índices acionários em Nova York migraram para o terreno negativo, contaminando a abertura do pregão do Ibovespa, que veio abaixo dos 112 mil pontos. Já o dólar ultrapassou a marca de R$ 5,22, em meio à renovada pressão nos rendimentos (yields) dos bônus americanos (Treasuries).

“As bolsas reagiram muito mal após a divulgação; os juros estressaram e estão em alta. O dólar também está subindo”, resume Ricardo Jorge, sócio da Quantzed. Para ele, esse movimento reflete a expectativa por um discurso mais duro (“hawkish”) por parte do Federal Reserve, reforçando a narrativa de taxas de juros mais altas por mais tempo.

Ou seja, a boa notícia sobre a robustez do emprego nos EUA é má notícia. “É uma notícia pessimista para o mercado, pois a Treasury de 10 anos (T-note) tende a disparar e há uma expectativa de que possa atingir 5%, podendo levar o Fed a ter de subir a taxa de juros”, observa Marcelo Boragini, sócio e especialista de renda variável da Davos Investimentos.

Emaranhado de dados

Vale lembrar que os investidores já vinham se adaptando à retórica mais agressiva do Fed, o que levou os yields das Treasuries às máximas em 16 anos nesta semana. Esse movimento foi impulsionado pelo susto com o relatório Jolts na terça-feira (3), com a abertura de 9,6 milhões de postos de trabalho, bem acima do esperado (8,9 milhões).

Nuvens sobre a sede do Federal Reserve, banco central dos EUA, em Washington 26/05/2017 REUTERS/Kevin Lamarque

Na sequência, a criação de vagas no setor privado dos EUA foi fraca, abaixo de 100 mil, revertendo a forte onda vendedora (selloff) nos bônus americanos. “Foi uma pausa que não alivia”, observou o estrategista global do Rabobank, Michael Every. Para ele, os números da pesquisa ADP foram apenas a “versão educada” para que os investidores esperassem pelo payroll revestidos de cautela, diante desse emaranhado de números divergentes. 

“Bom, pelo menos agora sabemos que o ADP é realmente inútil”, declarou o ex-diretor do Banco Central Tony Volpon na rede social X (antigo Twitter). Até recentemente, os dados da ADP eram tidos como um termômetro para os dados oficiais do payroll. Já nesta quinta-feira (6), os novos pedidos de auxílio-desemprego nos EUA subiram menos que o consenso.

Ao mesmo tempo, também houve forte revisão nos dados do payroll dos meses de agosto e setembro. “Isso ajudou a compor a reação de surpresa ao dado, com a criação de quase 120 mil empregos nos dois meses que antecederam o resultado já impressionante de setembro divulgado hoje”, destaca o economista Étore Sanchez, da Ativa Investimentos.

Higher for longer

No entanto, é cedo para dizer se haverá uma nova alta por parte do Fed ainda neste ano. “Se o payroll continuar a crescer em um ritmo elevado, então o Fed pode sentir-se tentado a prosseguir com novos apertos”, avalia o economista-chefe para os EUA da Capital Economics, Paul Ashworth, em relatório. 

Vale lembrar que o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Fed tem duas reuniões remanescentes em 2023. Por ora, os investidores aumentaram as apostas de mais elevação na taxa de juros dos EUA, mas a expectativa majoritária ainda é de manutenção em 5,25% e 5,50% até dezembro. Ou seja, o certo é que não haverá nenhum alívio em breve.

“Os números de hoje do payroll mantêm viva a perspectiva de outro aumento nos juros e certamente sustentam o argumento do Fed sobre a necessidade de as taxas permanecerem mais altas por mais tempo”, afirma o economista-chefe internacional do ING, James Knightley, em relatório. 

Até quando?

Diante disso, a dúvida que fica é: até onde vai esse movimento de estresse nos mercados globais?

Para André Perfeito, a resposta é simplória: provavelmente mais um mês. “Levando-se em conta a velocidade da alta dos juros mais longos e o processo de ‘stop and go’ típico de ajustes como esse, essa parece uma boa estimativa”, diz o economista, em comentário. 

Ou seja, lá pelo início de novembro, os ativos de risco devem voltar a ganhar tração. Aliás, é na virada do mês que ocorre a próxima Super Quarta, como é conhecido o dia em que o Fed e o Comitê de Política Monetária (Copom) reúnem-se e anunciam suas respectivas decisões de juros em um intervalo de poucas horas. 

“Passada a tempestade, os ativos de risco devem voltar a ganhar tração e o dólar pode voltar ao patamar dos R$ 5 com mais clareza. (…) Nesse meio tempo, a bolsa deve continuar caindo em todos os mercados e o dólar deve ganhar força e não só contra o real”

André Perfeito, economista

De qualquer forma, os efeitos desses movimentos tendem a não ser nada triviais, ressalta Danilo Igliori, economista-chefe da Nomad. “De imediato, bolsas e mercados emergentes devem continuar sofrendo”, diz. 

Além disso, o especialista acrescenta que crescem as incertezas sobre o tão aguardado pouso suave da economia dos EUA. “O temor é de que juros altos por tempo indeterminado na principal economia do planeta vão gerar impactos para todos os lados e ainda não é possível mapear com precisão onde estão as maiores fragilidades”, pondera Igliori.

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