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Finanças

Entrevista: ‘É hora de comprar mais ações’, diz gestor da Verde

Responsável pela estratégia de bolsa da gestora com R$ 48 bilhões em patrimônio, Pedro Sales conta o que mudou após o forte abalo do Ibovespa, destaca as ações favoritas no novo cenário e explica porque, enquanto o mundo busca proteção, seu fundo de Previdência continua alocado em risco.

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Pedro Sales Verde

São Paulo – Em uma carta enviada no dia 20 de março aos cotistas, a Verde Asset Management admitiu ter errado na dose nos dias mais turbulentos do mercado de ações, em meio à crise provocada pelo coronavírus. “Começamos a comprar muito cedo”, diz o documento, referindo-se à queda ainda maior vista nos dias seguintes. Mas isso não importa para Pedro Sales, responsável pela estratégia de ações da gestora. Para ele, mesmo diante de grandes incertezas, é hora de aproveitar as pechinchas na Bolsa. “Se você entende que ter investimento em bolsa traz bons retornos no longo prazo, o melhor momento de investir é quando o preço está atrativo”, diz ao InvestNews.

Com 65 profissionais e quatro times de gestão, a Verde tem hoje R$ 48 bilhões em ativos sob gestão, tanto em fundos multimercados como de ações, além de fundos de Previdência alocados em até 70% em Bolsa, tendência que vem ganhando força. Em janeiro, a captação líquida desta indústria aumentou 111% em relação a janeiro de 2019, somando R$ 4,4 bilhões, segundo dados da FenaPrevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida). “Previdência e ações têm uma combinação perfeita”, diz Sales, sobre a tendência de fundos desta categoria ficarem cada vez mais arrojados, diante dos baixos retornos da renda fixa.

Formado em engenharia pela PUC-Rio, Sales iniciou a carreira em 1999 como analista de ações na JGP. Ingressou na Hedging-Griffo em 2005, tornou-se gestor dos fundos de ações em 2009 e hoje joga no time dos gestores lendários Luis Stuhlberger e Luiz Parreiras.

InvestNews – A Verde admitiu que subestimou a gravidade do coronavírus. Vocês reavaliaram as posições?

Pedro Sales – A crise do coronavírus de fato foi maior do que a gente esperava. Dito isto, dada a grande correção no preço dos ativos, a gente continua achando que é uma excelente oportunidade investir em bolsa. Na prática, a gente estava com posição grande em bolsa e continua assim. Dependendo do fundo até aumentamos a participação em ações. Só não podemos aumentar no fundo Icatu 70, um fundo de Previdência limitado a 70% em ações, porque essa é a regra. Se pudéssemos, aumentaríamos porque entendemos ser um excelente momento para investir em bolsa.

E se a bolsa ainda não estiver barata o suficiente?

Infelizmente nao tem como investir em bolsa sem o risco de ter uma correção, mas o importante é que seja um excelente risco-retorno, você ter uma expectativa de ganho para o risco que está correndo. Tem risco sem dúvida. Estamos num cenário em que há muitas incerteza e qual vai ser o prazo e tamanho da redução da atividade econômica, não sabemos. Mas o preço dos ativos reflete isso e é uma excelente oportunidade. Como e quando é uma pergunta difícil. Isso para investimento em ações, mas também reflete em nosso multimercados que também está com investimento grande em ações. Achamos que nosso fundo de Previdência com 70% em ações e NTN-B (Long Bias Icatu) também vai ter um ótimo ganho com esse portifólio.

Faz parte da estratégia de vocês buscar uma proteção contra o que pode vir por aí ou vocês preferem se expor ao máximo ao risco?

Sempre dá pra estudar a possibilidade de aumentar a proteção. Vimos isso logo antes da queda, no dia 21 de fevereiro, protegemos mais os fundos e vendemos bolsa. Lá a gente entendeu que a crise do coronavírus poderia se agravar. Compramos proteção, vendemos índice futuro, vendemos algumas ações que seriam mais impactadas, mas depois disso, quando a bolsa caiu muito, entendemos que já tinha um cenário muito negativo no preço e estava na hora de se desfazer dessas proteções e correr o risco de bolsa diretamente. Atualmente, não temos nenhuma proteção.

Vemos muitos bancos revisando as projeções para o Ibovespa para o final de 2020, alguns acreditam em até 80 mil pontos. Será um ano para andar de lado?

A gente não trabalha com um target específico de Ibovespa, porque é muito difícil e tem muitas variáveis que influenciam. A melhor forma de encarar é que consideramos que está num preço interessante para investir e a resposta é sim. No nível de preço atual, parece um excelente risco-retorno para investir.

Sobre os setores, da bolsa vocês mudaram o olhar no cenário de crise?

Tem muita coisa para reavaliar, por duas razões. Primeiro, porque o próprio cenário adicionou variáveis novas sobre o que vai acontecer com as empresas. Qual o impacto de uma quarentena na empresa? Dependendo do setor, pode ser totalmente diferente. Qual o impacto depois que a atividade começar a voltar? Dependendo da atividade, algumas podem demorar mais. Outro ponto é que a volatilidade das ações aumentou muito. Se eu prefiro a A que a B em determinado preço, duas horas depois posso preferir a B. Como as oscilações estão muito fortes e muito rápidas, a gente naturalmente vai mudando a preferência e tem discussão de preço o tempo todo.

Quais setores oferecem uma perspectiva melhor, diante de um cenário de recessão?

Tem sempre que comparar o que vai acontecer com a empresa com o preço da ação. Tem setor em que o impacto negativo é grande, mas a ação caiu tanto que pode ser um excelente investimento. Um exemplo é a Petrobras (PETR4). Entendo que o petróleo vai continuar baixo por um bom tempo, mas mesmo que tenha visão negativa para o próximo ano, a queda da ação faz com que ela seja uma boa oportunidade. Aumentamos posição no setor de saúde na crise. Inicialmente vimos eles negativamente impactados, mas depois ao olhar em detalhes deu para ver que o impacto é menor do que parece. Se tem muito tratamento do coronavírus, tem menos tratamento de outras doenças. Tem muita operação que você não sabe se vale a pena fazer, aí adia por causa do coronavírus. Tem muitos casos que nos animam, seja porque o fundamento não é tão impactado como o mercado pensava ou porque, mesmo impactado, está num excelente preço.

Você citou o fundo de Previdência com 70% em ações. No contexto de incerteza e risco, por que o investidor deveria considerar este tipo de investimento?

Quando você pensa em ações, deveria pensar no longo prazo e quando pensa em Previdência é o mesmo. Previdência e ações têm uma combinação perfeita. Além de tudo, entendemos que o momento atual é muito bom para investir em bolsa, pela oportunidade de preço. Este fundo de Previdência foi criado este ano, mas já fazemos gestão de fundos de Previdência com este perfil há mais tempo. Eu comecei a trabalhar com bolsa em 1999. Todos os fundos alocados em ações tiveram bons resultados, é só olhar nossos fundos com prazos mais longos.

Essa visão está alinhada com os outros fundos da Verde?

É uma estratégia geral. Todos os fundos da Verde estão com uma visão positiva de investimento em bolsa, levando em conta as características de cada um. Os multimercados, em que o limite é 100% e costumam ter alocação menor em bolsa, estão com a maior alocação de sua história.

Qual seu conselho para quem está com medo de comprar ações depois de um tombo tão rápido e intenso como este?

Sempre que a bolsa der uma boa oportunidade de preço para investir, você estará vivendo um cenário de incerteza. Se ela não existisse, os preços estariam mais altos. Não está errado ter medo. Não recomendo que ninguém tenha exposição à bolsa acima do que vai se sentir confortável com as oscilações que vão continuar acontecendo. Mas se você entende que investir em bolsa traz bons retornos no longo prazo, o melhor momento é quando o preço traz boa oportunidade, mesmo diante de mais incertezas.

Quais as ações preferidas da Verde hoje?

Não temos uma concentração exagerada em uma ou outra ação. A lista é grande, mas nossos principais investimentos são BR Distribuidora (BRDT3), Petrobras (PETR4; PETR3), Vale (VALE3), Equatorial Energia (EQTL3), algumas empresas de shoppings, algumas de varejo como Hering (HGTX3), C&A (CEAB3), Virara (VIVA3), Mercado Livre (MELI) e Magazine Luiza (MGLU3), empresas de planos de saúde temos as três, Notredame Intermédica (GNDI3), Hapvida (HAPV3) e Sul América (SULA11). Empresas de locação de veículos temos Localiza (RENT3) e Locamerica (LCAM3). E a B3 (B3SA3).

E no setor financeiro, vocês têm bancos?

Temos de forma mais distribuída, se somar os três tem posição razoável, mas não de forma tão grande. Dado o tamanho que eles têm na bolsa, não temos uma posição tão grande. 

Vocês reduziram a posição em bancos recentemente?

Não por causa da crise. Até um ano atrás, era muito maior do que nos últimos meses por causa da mudança do cenário competitivo no setor.

Você citou Vale e Petrobras entre as preferidas, mas você não tem medo de que esse cenário de retração mundial afete as commodities?

Sem dúvida afeta, mas tem que olhar o quanto afeta o fundamento, por quanto tempo afeta e o que aconteceu com o preço da ação. Petrobras aumentamos a posição porque a queda teve um peso muito relevante. Eu ter oportunidade de comprar a ação pela metade do preço do que estava no ano passado porque vai ter um ano de lucro zero, acho melhor do que comprar pelo dobro do preço para ter um ano melhor. Tem sempre que considerar o preço, não só o fundamento. No caso da Vale, o minério de ferro é muito mais impactado pelo que acontece na China do que no resto do mundo e são setores mais fáceis de o governo chinês estimular. A gente acredita que vai ter um estímulo forte para retomar a economia e a forma mais fácil de fazer é incentivamento obras de infraestrutura e construção civil, e que setores usam muito aço e minério. Entendemos que apesar da desaceleração global, o minério pode navegar bem essa dinâmica. A China vai ser a primeira a agir muito fortemente e essa saída deve vir com bastante investimento, o que pode fazer com que o preço do minério permaneça elevado.

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