Cada unidade de BTC (a sigla do bitcoin), precisaria ser “minerada” das profundezas da blockchain, como bem sabem os familiarizados. As pás e picaretas para esse trabalho seriam o poder de computação das pessoas a fim de conectar-se à blockchain e ajudar no gerenciamento do sistema – gerir algo que se propõem a servir como moeda é de uma complexidade brutal.
Grosso modo, quanto mais poder de computação você entregasse à rede, mais bitcoins você conseguiria tirar lá de dentro (e usar como moeda junto a outros entusiastas da ideia que estivessem a fim de trocar bois, grãos, cortes de cabelo ou dinheiro as we know it por BTCs).
LEIA MAIS: Quem é Satoshi Nakamoto?
Satoshi arquitetou o sistema de modo que a tarefa de gerenciamento fosse dividida em “blocos” (daí o nome, blockchain). Cada bloco de trabalho finalizado geraria 50 BTCs, a serem distribuídos para a comunidade de doadores de poder de computação de acordo com o volume da contribuição de cada um. Para fazer com que a mineração de bitcoins rolasse a conta gotas, Satoshi limitou a quantidade de blocos de tarefas a 144 por dia (na verdade, de modo que ao longo do tempo desse uma média de 144 a cada 24 horas – mas dá na mesma).
Dá 7,2 mil bitcoins por dia. Nesse ritmo, todos as 21 milhões de BTCs estariam desenterrados em 8 anos. Satoshi, aparentemente, achou que era pouco. Então programou o sistema para que reduzisse o output de bitcoins por bloco em 50% a cada quatro anos (mais especificamente, a cada 210.240 blocos), começando em 2012. Isto é o halving do bitcoin, a divisão pela metade na chegada de novos BTCs à superfície. E ficou assim:
2012: 25 bitcoins por bloco ~ 3.600 BTCs por dia
2016: 12,5 bitcoins por bloco ~ 1.800 BTCs por dia
2020: 6,25 bitcoins por bloco ~ 900 BTCs por dia
Agora, em 2024, teremos outro halving – que deve acontecer no dia 20, a data em que devem se completar os 210.240 blocos neste ciclo. E o output será este aqui:
2024 (talvez em 20 de abril): 3,12 bitcoins por bloco ~ 450 BTCs por dia
E com o freio do halving diminuindo o output a cada quatro anos, o último bitcoin só será minerado no ano de 2140.
Pela lógica, isso valoriza a cripto. Se a oferta de alguma coisa diminui e a demanda segue a mesma, o preço dessa coisa sobe. Ok.
Mas o fato é que não há mais tantos bitcoins para desenterrar. Dos 21 milhões de BTCs, 19,7 milhões, já circulam – 93,7% do estoque total, a ser atingido em 2140.
Desses 19,7 milhões, algo entre 2,0% e 2,5% troca de mãos todos os dias. Vamos considerar 2,0%. Dá 394 mil BTCs.
Hoje, na melhor das hipóteses, a mineração responde por 900 BTCs dessa cifra. Dá 0,22% do volume diário de bitcoins que vão para o mercado a casa 24 horas – basicamente nada (isso considerando que todos os mineradores coloquem suas criptos à venda na hora, o que provavelmente não acontece).
Bom, depois do halving, essa porcentagem da participação de bitcoins novos no mercado diário vai cair para 0,11%. Uma redução, de fato. Mas sobre uma base que já era minúscula. É improvável, então, que uma diminuição tão marginal na oferta tenha de fato efeitos práticos.
E a tendência vai seguir. Por exemplo: no halving de 2048, um futuro nem tão distante assim, o output diário vai cair de 28 para 14 bitcoins (0,097 BTC por bloco, na terminologia usual). Se o volume de negociação diária lá na frente estiver num patamar parecido com o de hoje, a proporção de BTCs novos nessa frente vai diminuir de 0,007% para 0,003%.
É assim que o halving vai perdendo importância ao longo do tempo. Na verdade, já perdeu.