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Finanças

NotreDame e Hapvida foram as ações de saúde mais resilientes na pandemia

Entre as companhias do segmento, os papéis da Hapvida e NotreDame avançaram na pandemia. Por outro lado, as ações da SulAmérica e Qualicorp caíram.

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A pandemia abalou as bolsas, paralisou atividades, impactou os lucros e causou desaceleração econômica. Neste cenário turbulento, as empresas de saúde ficaram no epicentro da crise, gerando temores sobre o futuro dos negócios. No entanto, enquanto algumas ações do segmento sofreram, outras foram favorecidas no período, como Hapvida (HAPV3) e NotreDame Intermédica (GNDI3).

João Julio Matos, analista de renda variável da Helius Capital, explica que, no primeiro momento da pandemia em 2020, o mercado acreditava que as operadoras de saúde teriam prejuízo, pois as pessoas iriam procurar mais os hospitais. Mas, passados dois meses, o receio da população de frequentar o pronto-socorro reduziu esta procura.

“Algumas cirurgias eletivas foram canceladas e os hospitais tinham boa parte do faturamento nestes procedimentos. Como eles foram postergados, as operadoras deixaram de pagá-los. Assim, neste primeiro momento, a sinistralidade diminuiu, houve queda de custos, então foi um período no qual a lucratividade destas empresas subiu bastante”, explica.

Eduardo Guimarães, especialista em ações da Levante Investimentos, avalia que a pandemia trouxe impactos diferentes para as empresas do setor. Segundo ele, tudo o que não era procedimento urgente foi postergado. Dessa forma, a sinistralidade diminuiu, beneficiando as empresas de plano de saúde.

Em relação à segunda onda da pandemia que o país passa, Matos avalia que cirurgias eletivas podem ser postergadas, porém, em um nível bem menor do que aconteceu no começo do ano passado. O analista não acredita em uma queda de sinistralidade como ocorreu em 2020, pois muitos procedimentos eletivos adiados foram feitos no quarto trimestre do ano passado e primeiro trimestre de 2021, o que fez com que a sinistralidade das operadoras ficasse mais pressionada neste período.

“Para o restante do ano, acredito que teremos uma pressão um pouco maior que o normal, pré-2020, pois as eletivas postergadas devem ser feitas, mas o cenário deve ir se normalizando no decorrer do final de 2021 e 2022”, diz o analista da Helius Capital.

Desempenho das principais operadoras de saúde

Segundo dados da provedora de informações financeiras Economatica, a Hapvida (HAPV3) e NotreDame Intermédica (GNDI3) terminaram o ano de 2020 com valor de mercado maior que no final de 2019. Suas ações foram as mais resilientes à crise dentro do setor.

Já a SulAmérica (SULA11) e Qualicorp (QUAL3) registraram queda em seus respectivos valores de mercado no mesmo período. Confira a seguir:

Considerando o período oficial da pandemia iniciado em 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou a pandemia de covid-19, até 28 de abril de 2021, as ações da Hapvida e da Notre Dame Intermédica saltaram mais de 64%. Já as da SulAmérica caíram 12,12% e as da Qualicorp, 5,89%. Veja o desempenho no período:

Matos avalia que a NotreDame e a Hapvida são semelhantes entre si, pois são operadoras verticalizadas, ou seja, que têm seus próprios locais para os atendimentos, como rede de laboratórios, centros clínicos e hospitais, por exemplo, permitindo o beneficiário usar essa rede própria, além da rede credenciada ao plano.

“Nos últimos anos, elas vêm ganhando bastante mercado, por serem donas dos próprios ativos, como hospitais, e por conseguirem ter uma eficiência operacional, de racionalização de custos. Elas conseguem melhor alinhamento de custos, com controle melhor, repassam menos preço e cobram valores mais baixos. Por isso, ganharam mercado nos últimos anos, que está crescendo mais”, afirma.

Já nos casos da Qualicorp e SulAmérica, que perderam valor de mercado, com as ações recuando no período de pandemia, Matos explica que o nicho de atuação e o fato de as empresas não terem ativos podem tê-las prejudicado no período. 

“A SulAmérica é uma empresa que não tem ativos, só repassa custos dos pacientes, é uma pagadora de conta, além de ter planos melhores. Ela atua em um nicho mais elevado. Não significa que não vai ter mercado, mas tem um pouco mais de dificuldade de angariar novos membros por estar em um nicho bem diferente das outras empresas”, aponta.

Para o analista da Helius Capital, passada a pandemia, que torna os resultados mais turvos e de difícil leitura, as empresas de plano de saúde vão recuperar o que estavam conquistando desde 2019: custos mais controlados, tickets mais baixos e ganho de participação de mercado.

Para Guimarães, os desempenhos positivos das ações tanto da Hapvida quanto da NotreDame Intermédica também estão relacionados ao cenário de aquisições, fusões e sinergias.

As duas maiores operadoras de plano de saúde do Brasil anunciaram fusão no final de fevereiro, o que criará uma companhia com mais de 13 milhões de usuários e uma receita combinada de mais de R$ 18 bilhões. A operação ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

A Hapvida encerrou 2020 com um total de 464 unidades assistenciais entre hospitais, pronto atendimento, clínicas e unidades de diagnóstico e anunciou oito novas aquisições pelo país, tanto de hospitais, clínicas, como de carteiras de planos de saúde e outros negócios do setor.

Para o especialista da Levante Investimentos, este fator é positivo. “O M&A [sigla em inglês que significa fusões e aquisições] aquece os desempenhos destas duas empresas. Os preços delas dependem muito mais das fusões e aquisições do que os resultados em si. As ações responderam a isso, nem tanto aos resultados, mesmo sendo considerados bons”, destaca.

Impactos no crescimento das empresas de plano de saúde

O setor de saúde no Brasil é conhecido por sua competitividade e fragmentação e é dependente de alguns drivers para seu crescimento, como emprego, renda, regulação e envelhecimento da população.

Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), em 2020, a taxa de cobertura de plano privado no país era de 24%. Ou seja, 76% da população era dependente do Sistema Único de Saúde (SUS) para tratamentos e consultas.

Ainda de acordo com a ANS, dos mais de 47 milhões de brasileiros que possuíam planos de saúde no período, mais de 32 milhões eram oriundos de planos empresariais. Com isso, a geração de empregos formais é um fator que impacta positivamente o número total de beneficiários no Brasil.

Outro fator que mexe com o segmento é o envelhecimento populacional. O aumento da expectativa de vida no Brasil é uma realidade e, nas próximas décadas, pode impactar na demanda por gastos com saúde.

Segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população do país deverá crescer até 2047, quando chegará a 233,2 milhões de pessoas. Nos anos seguintes, ela cairá gradualmente, até os 228,3 milhões em 2060.

Levando em conta esta projeção, a expectativa é de que seja triplicado o número de pessoas com 65 anos ou mais, totalizando 58,2 milhões em 2060, o que equivale a 25,5% da população.

A regulação do setor também é ponto de atenção, afinal, medidas podem ser definidas e impactarem o segmento, já que as operadoras de planos de saúde devem seguir a legislação. 

Matos explica que estes fatores são bastante impactantes para empresas de plano de saúde e suas rentabilidades. “Se as empresas não conseguem repassar preços, o custo continua subindo e afetando as rentabilidades. Acredito que é importante o investidor acompanhar estas questões mais de perto”, avalia.

Já Guimarães aponta que como o emprego e a renda ainda não estão recuperados no país, não haverá um crescimento orgânico de novos planos, apesar da queda da sinistralidade.

Para o especialista, no entanto, trata-se de um setor bem pouco concentrado, com muita oportunidade de consolidação, além de ser promissor, já que há um abismo entre planos de excelência e o atendimento no Sistema Únicos de Saúde (SUS). “As empresas que se posicionarem nesse meio termo têm muita possibilidade. A tendência é crescer bastante, mesmo com o risco regulatório”, destaca.

Risco de sinistralidade

Os beneficiários pagam as operadoras de plano de saúde de maneira antecipada, como forma de prevenção. Sempre que o plano é acionado pelo cliente, é gerado um sinistro. Assim, como esse serviço gera um custo ao operador, o grande desafio do setor está na sinistralidade.

Dependendo da situação do paciente, envolve atendimento médico, hospitalar e laboratorial. Toda essa operação acaba gerando custos, que são pagos pelo operador de saúde privado via repasse de recursos provenientes dos pagamentos do plano.

Matos destaca que o cenário de sinistralidade está se revertendo no país, se comparado ao início da pandemia. Segundo ele, no quarto trimestre de 2020 e começo deste ano, já houve uma concentração maior de procedimentos eletivos, ocasionando o inverso do primeiro momento da pandemia.

Com isso, o custo das operadoras neste período aumentou, pois as pessoas estão fazendo os eletivos e exames que deixaram de realizar no ano passado. “Daqui para frente, com o cenário se normalizando, o patamar de 2019 pode ser retomado, dependendo de cada operadora. As empresas verticalizadas têm um controle melhor dos custos e, talvez, se recuperem mais rápido”, avalia.

Consolidação do segmento

Em meio ao grande potencial do mercado, vem acontecendo um movimento de consolidação do setor. Nos últimos anos, o volume de negociações envolvendo hospitais, operadoras de saúde, clínicas de medicina diagnóstica, laboratórios, farmácias e farmacêuticas disparou.

Consolidar nada mais é do que fazer a integração de diferentes operações, dentro do mesmo segmento, em uma só estrutura empresarial. Isso pode permitir que uma operadora aumente sua estrutura e o número de beneficiários.

Outra razão frequente de negociação é a possibilidade de ganhar fatia de mercado ou a entrada em alguma nova região de interesse. A chamada verticalização cria sinergia entre os negócios, promove um efeito natural de diluição de despesas, o que aumenta a competitividade da empresa.

O analista da Heluis Capital explica que a consolidação está acontecendo em toda a cadeia de saúde, mas pode acabar afetando algum tipo de operadora de planos. “As empresas verticalizadas são mais competitivas. E isso vai gerar um pouco mais de problema para as competidoras, mas não vejo isso com maus olhos. O preço mais acessível de plano vai fazer com que mais pessoas tenham acesso a eles”, diz.

Ele afirma não acreditar que Hapvida e NotreDame Intermédica juntas vão destruir o mercado. Eu acho que elas vão criar mercado, já que somente 24% da população têm plano de saúde”, diz.

Na avaliação do analista, há muito espaço para as empresas de plano de saúde, já que o país tem uma baixa taxa de acesso a eles. “As operadoras que conseguirem baixar preço, mantendo qualidade e um custo-benefício atraente vão conseguir nadar de braçada porque tem muita gente sem plano de saúde no Brasil. É um segmento promissor”, comenta.

Matos acrescenta ainda que o grande desafio para as empresas do setor é o controle de custos. “É fazer com que os reajustes anuais fiquem mais baixos. Tem várias formas de diminuir o que a gente chama de desalinhamento no setor, para fazer com que os planos tenham reajustes menores”, afirma.

O que levar em conta ao investir em ações de saúde?

Matos explica que o primeiro ponto a ser analisado pelo investidor é verificar quais empresas têm mais potencial de crescimento e se elas estão conseguindo executar seu plano para isso.

“Tem muita oportunidade no Brasil e é preciso avaliar quais empresas têm essa proposta de conseguir buscar mais este mercado, oferecendo planos acessíveis e conseguindo crescer mais”, orienta.

O analista de ações da Levante Investimentos sugere que o investidor observe o retorno que as empresas geram, a sua lucratividade e rentabilidade para poder verificar qual delas está crescendo.

Para Guimarães, a tendência é positiva para os papéis das empresas de plano de saúde devido ao envelhecimento da população, consolidação do setor e penetração baixa de plano de saúde. “O segmento tem uma dinâmica muito própria e os papéis devem ter desempenho melhor que o índice Ibovespa este ano. A perspectiva é de otimista para 2021”, ressalta.

IPOs suspensos: ameaça ao setor?

O cenário de recrudescimento da pandemia no país, turbulência política, condições do mercado brasileiro e incertezas fizeram com que as ofertas públicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) perdessem força.

Muitas empresas tiveram que reduzir estimativas de preços de suas ofertas, outras adiaram e até cancelaram suas listagens na bolsa. E as companhias do setor de saúde não ficaram de fora.

Só no mês de abril de 2021, por exemplo, a Blau Farmacêutica (BLAU3) e a rede de atendimento hospitalar Mater Dei (MATD3) definiram seus respectivos preços por ação em um valor abaixo da faixa estipulada. Já o Hospital Care Caledônia, a Viveo e a Kora Saúde suspenderam seus IPOs.

 O analista de renda variável da Helius Capital explica que, quando se tem muitas ofertas, acaba afetando no curto prazo as empresas já listadas devido ao rebalanceamento que algumas podem sofrer, com investidores vendendo um papel para comprar outro e manter o percentual de investimento no setor. Segundo ele, é algo que, teoricamente, se normaliza no médio e longo prazo, .

O analista lembra ainda que, se as empresas novatas na bolsa forem para regiões onde outras companhias já atuam, a competição pode ser de mais risco. Do contrário, em sua avaliação, há bastante espaço. Matos aponta que boa parte da tese de investimento das empresas que estão sendo listadas é fugir dos grandes centros. Segundo ele, o importante é evitar regiões onde estão as grandes companhias.

Matos destaca também que as empresas que já têm um histórico mais comprovado, são de menos sustos ao investidor, pois têm um histórico e gestão bons e é difícil que elas mudem completamente. Porém, as empresas menores, segundo ele, podem crescer e se valorizar mais, mas o mercado tem menos conhecimento.

“Então, é um pouco difícil apostar no começo, mas, a companhia entregando seus resultados, pode  mostrar seu histórico mais positivo, pode crescer mais que as grandes”, explica.

Para Guimarães, as empresas de saúde que chegaram recentemente à bolsa captaram menos e, assim, estão com um caixa menor para competir com players grandes. Em sua avaliação, o investidor está mais seletivo, além de haver um histórico não muito consolidado e múltiplos altos.

“Um dos pontos-chave é analisar a informação do uso dos recursos pela empresa, se ele faz sentido, e se a companhia pode entregar o que prometeu. O mercado é seletivo nos preços, e não só no setor se saúde, mas como um todo”, diz.

Segundo ele, este cenário acaba favorecendo as empresas já consolidadas e tradicionais na bolsa, que conseguem entregar o que prometeram. Caso contrário, de acordo com o especialista, se as novatas chegassem à bolsa com mais dinheiro, seriam uma concorrência mais forte.

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