A Aegea está sob escrutínio do mercado. Após o atraso na divulgação do balanço do quarto trimestre e do corte na nota de crédito pela S&P Global e Fitch, as preocupações com a situação da empresa cresceram tanto para os credores, como para fundos de investimento com títulos de dívida na carteira.

Como resultado dos dois eventos, os papéis de dívida da companhia já começaram a balançar no mercado secundário (nas plataformas das corretoras, em que os títulos são colocados à venda).

Entre as reprecificações mais relevantes há a debênture AEGPB5, emitida em dezembro de 2025 com remuneração de DI + 1,80% ao ano. Ou seja, o papel acompanha o CDI acrescido de um ganho (cupom) de 1,80% ao ano.

Ao fim da última quinta-feira (2), o mercado passou a negociar esse título a uma taxa indicativa de 4,49% – 2,7 pontos percentuais a mais.

Debênture Prazo Remuneração (cupom) Taxa negociada
AEGP17 12/04/2027 2,15% 2,54%
AEGP19 04/10/2028 1,90% 3,64%
AEGPA4 25/10/2028 3,47% 5,73%
AEGPA9 25/06/2029 2,75% 4,00%
AEGPB3 22/08/2032 1,80% 3,49%
AEGPB5 15/12/2030 1,80% 4,49%
AEGPB7 15/09/2028 2,95% 4,65%
Fonte: Anbima. Dados no dia 02/04/2026.

A alta da taxa significa queda do preço, como manda a dinâmica na renda fixa. No caso dessa debênture, o preço saiu de R$ 1.045 na emissão para R$ 959 agora.

Esse movimento incorpora a exigência dos investidores de uma remuneração maior para comprar o papel, justamente por aumento da percepção de risco.

Segundo um gestor de um grande fundo que pede para não ser identificado, os papéis estão sendo negociados nas mesas de operação a taxas ainda mais altas, como CDI + 5%. É um valor ainda não “marcado” porque não se alastrou.

Mesmo com essas taxas altas, que, em tese, ajudariam a atrair investidores, os detentores dos papéis estão com dificuldades em fechar vendas nesses níveis, dada a baixa demanda pelos ativos pelas preocupações com a companhia.

Esse profissional observa também o efeito sobre os bonds (títulos de dívida emitidos no exterior), anteriormente negociados a cerca de 90% do valor de face – ou seja, se o título promete pagar US$ 100 no final, ele estava sendo comprado por US$ 90.

Esses papéis passaram a ser negociados a 73% do valor de face há alguns dias e voltaram a se estabilizar, mas em níveis um pouco menores, a 80% do valor de face.

O que está acontecendo?

A Aegea informou no dia 30 de março que precisaria adiar a divulgação de suas demonstrações financeiras, devido a “ajustes de práticas contábeis” e “reavaliação de estimativas”.

No documento, a companhia afirmou que essas correções estão relacionadas à gestão da carteira de clientes, com impacto não só para o balanço de 2025, como também de períodos anteriores – o que vai levar a uma reapresentação das demonstrações financeiras de 2024.

A empresa declarou que os ajustes têm “natureza meramente contábil”, não afetam a geração de caixa operacional e nem a posição de liquidez da empresa e também não geram mudanças que levem ao descumprimento de covenants da companhia.

Os covenants são regras definidas na emissão da dívida que a empresa precisa cumprir ao longo do tempo. Elas servem para proteger o investidor, impondo limites em indicadores financeiros, como nível máximo de endividamento, por exemplo. Se a empresa descumpre essas regras, pode sofrer penalidades, como ter a dívida antecipada pelos credores.

Apesar da afirmação da empresa, as dúvidas ficaram maiores porque as agências de classificação de risco Fitch e da S&P apontaram uma deterioração na avaliação de crédito da Aegea, motivada principalmente por preocupações com governança, transparência e qualidade das informações financeiras após o atraso no balanço.

As agências destacam que esses eventos aumentam a incerteza sobre os indicadores de crédito, já pressionados, e levantam dúvidas sobre a consistência dos números reportados. Além disso, indicam possíveis fragilidades na gestão, nos controles de risco e na cultura de prestação de informações ao mercado.

Também são mencionados riscos relacionados ao acesso a financiamento, à flexibilidade financeira e à possibilidade de aceleração de dívidas em caso de descumprimento de prazos, o que sustenta a perspectiva negativa e o risco de novos rebaixamentos.