O início do segundo mandato de Donald Trump tem repetido um fenômeno já visto em sua primeira passagem pela Casa Branca: um forte rali nas ações de mercados emergentes. Mas, apesar do otimismo nas bolsas, especialistas alertam que os ganhos podem não se sustentar, já que as mesmas políticas comerciais e fiscais que alimentam a alta também estão corroendo os resultados corporativos.

O MSCI Emerging Markets Index, principal referência global para ações de países em desenvolvimento, registrou valorização em todos os meses entre janeiro e agosto de 2025 — algo que só havia ocorrido duas vezes nos 37 anos de existência do índice: em 2017, também ano inaugural de Trump, e em 1993, sob Bill Clinton.

Esse movimento elevou a riqueza dos investidores em emergentes em US$ 4,3 trilhões neste ano. Mas, por trás da valorização das ações, os balanços corporativos mostram uma realidade menos animadora: empresas desses mercados vêm sistematicamente frustrando expectativas de lucro, acumulando 13 trimestres seguidos de resultados abaixo do projetado.

Políticas de Trump dividem efeitos

Segundo analistas, os contrastes têm origem direta nas políticas de Trump. De um lado, tarifas agressivas e expansão fiscal reduziram o apelo do dólar como porto seguro, levando investidores globais a buscar alternativas e aumentando a atratividade dos emergentes. De outro, restrições tecnológicas e barreiras comerciais vêm minando a receita e os lucros de companhias de países como Coreia do Sul, Índia e Brasil.

“Continuamos cautelosos com ações de emergentes no contexto global, já que os riscos ligados às tarifas seguem pesando sobre o sentimento do mercado”, avaliou Nenad Dinic, estrategista do Bank Julius Baer. Ele destacou que as projeções de lucro por ação para 2025 voltaram a cair após a pausa de 90 dias nas tarifas, refletindo temores de novas pressões comerciais no segundo semestre.

Dólar enfraquecido e fluxo para emergentes

No início do ano, gestores apostavam em um dólar mais forte — expectativa de que as tarifas retardariam cortes de juros nos EUA e reforçariam a moeda americana. Esse cenário tradicionalmente pesa contra emergentes.

No entanto, a realidade se inverteu: as medidas de Trump acabaram incentivando a diversificação de portfólios, gerando saída de capitais dos EUA e enfraquecendo o dólar. O resultado foi um fluxo positivo para ativos emergentes, desde companhias de inteligência artificial na Ásia até mineradoras africanas e histórias de recuperação em mercados de fronteira.

“O grande impacto positivo da administração Trump sobre os emergentes veio justamente do dólar mais fraco”, explicou Hasnain Malik, estrategista da Tellimer em Dubai. “Ironicamente, o receio sobre o enfraquecimento das instituições nos EUA atraiu capital para os emergentes, que sempre foram vistos como mais vulneráveis a esse tipo de risco.”

Fundamentos mostram fragilidade

Apesar da alta impulsionada pelo sentimento, os fundamentos seguem frágeis. Quase metade das empresas do MSCI EM falhou em entregar os lucros projetados em 2025, com resultado médio 8% abaixo das estimativas. Setores exportadores, como commodities e indústria, estão entre os mais atingidos.

Nos balanços, cresce a lista de empresas citando diretamente as políticas de Trump como fator negativo. A unidade de chips da Samsung Electronics surpreendeu ao reportar lucro operacional 85% abaixo das expectativas, impactada por estoques encalhados de semicondutores de IA, bloqueados pelas restrições de exportação dos EUA.

Na Índia, ações perderam atratividade depois que Trump impôs tarifa de 50% sobre exportações do país. Pesquisa do Bank of America mostrou que a quinta maior economia do mundo caiu, em apenas três meses, de aposta favorita na Ásia a posição menos recomendada pelos gestores.

A Tata Motors, dona da Jaguar Land Rover, registrou queda de 63% no lucro líquido em agosto, atribuindo o resultado a um impacto adicional de US$ 341 milhões em tarifas.

Perspectivas mais desafiadoras

Esses impactos já começam a refletir nas projeções. As estimativas médias de lucro para o índice MSCI caíram cerca de 1% nas últimas oito semanas. Para atender às previsões atuais, as empresas precisariam elevar ganhos em 11,4% nos próximos 12 meses.

Além das tarifas, outros fatores também pesam: guerra de preços entre companhias de consumo na China e queda do petróleo, que afeta produtores do Oriente Médio.

Analistas alertam que os efeitos plenos das tarifas ainda não apareceram, já que muitas empresas anteciparam exportações antes da entrada em vigor das novas alíquotas. “Esses colchões de antecipação vão se esgotar nos próximos meses”, disse Dinic, do Julius Baer.

“Para os lucros de emergentes, isso significa que o risco tende a aumentar no decorrer do ano”, concluiu.