O caso da Venezuela trouxe aos holofotes um tipo de empresa que não costuma frequentar o noticiário de investimentos no Brasil: as petroleiras dos EUA

Investir em ações de empresas gringas, afinal, é sinônimo de comprar Nvidia, Google, Apple. Quando o assunto é commodity, nos viramos por aqui mesmo – natural para um mercado financeiro onde a Petrobras sozinha representa 10% do Ibovespa (contando as junior oils, 12%). 

No S&P 500, o “Ibovespa” dos EUA, as companhias que extraem petróleo compõem só 2% do índice.  

Mas existe outra carteira americana na qual o líquido preto tem uma representação parecida com a do Ibovespa. A de Warren Buffett. 10% do patrimônio da Berkshire, sua companhia de investimentos, são ações de petroleiras – a maior parte em Chevron, a segunda maior dos EUA.

O papel da Venezuela para o futuro dessas companhias ainda é uma incógnita. E fora a Chevron, que já tinha uma operação lá, as demais estão reticentes sobre investir seus bilhões no vizinho de Roraima.

Mas o ponto aqui não é revisitar as notícias sobre a Venezuela. É analisar o retorno que as petroleiras americanas têm oferecido a seus acionistas. E responder a pergunta do título: valeria a pena trocar uma parte do que você talvez tenha em Petrobras por alguma dessas empresas?

Petrobras X EUA

Olhando os números que todo mundo olha, não. Não faria sentido trocar PETR4 por Exxon, Chevron ou ConocoPhilips, as três maiores petroleiras dos Estados Unidos. 

Bata o olho na variação do preços das ações de cada uma delas nos últimos três anos, e compare com a estatal brasileira:

Temos, então, que o 1,1 milhão de brasileiros com papéis da Petrobras na carteira se deram melhor do que Warren Buffett nesse intervalo, pelo menos no que tange o investimento em companhias de óleo e gás.

Importante: as ações das americanas são denominadas em dólar, claro; as da Petrobras, em reais. Mas a diferença cambial não conta para os últimos três anos, o período que mostramos aqui. O dólar estava entre R$ 5,30 e R$ 5,40 no início de 2023. O mesmo patamar de agora.

A Petrobras, portanto, sobe 23% nos últimos três anos em dólar também, não só em reais.   

Mas nem só de altas e baixas no preço vive uma ação. Principalmente quando estamos falando em petroleiras estabelecidas. São empresas com fluxo de caixa robusto. Quem compra esses papéis, seja aqui, seja lá fora, olha com atenção para o fluxo de dividendos.

Vamos comparar aqui usando o dado que realmente importa: o dividend yield (DY) – o tanto de dividendos que o papel paga por ano na comparação com o preço dele na bolsa. E temos o seguinte: 

É isso. Olhando para a evolução do preço num prazo justo, de três anos, mais o dividend yield em si, a Petrobras vence as três grandes do EUA.

E não há dúvida sobre a competência da brasileira. Na comparação com as americanas, ela só extrai menos petróleo que a Exxon. E quando entra a produção de gás natural na jogada a Petro fica, ainda assim, à frente da ConocoPhllips:

A margem de lucro da Petrobras também se destaca. Nos primeiros nove meses de 2025, foram R$ 370 bilhões em faturamento, que viraram R$ 94,6 bilhões de lucro. Margem líquida de 25%. Estelar: fica bem acima da Exxon (8,9%), da Chevron (6,7%) e da Conoco (13,8%). 

Caso encerrado, então? Longe disso. Temos que colocar a lupa em alguns fatores ainda. Vamos começar pelos dividendos.

Dividend aristocrats

Existe um clube bem exclusivo dentro do S&P 500. É o Dividend Aristocrats, um índice onde só entram empresas que tenham pago dividendos religiosamente nos últimos 25 anos, subindo o valor deles a cada 12 meses.

Só 14% do S&P 500 está nessa lista. Dessa seleção de 69 companhias, a de maior valor de mercado é justamente uma petroleira: a Exxon.

Ela paga proventos há 42 anos seguidos, sempre aumentando o valor. O último foi em 2025, subindo o dividendo de US$ 0,99 por ação para US$ 1,03. Anualizando, dá US$ 4,12. Com a preço do papael no patamar atual, temos aquele DY de 3% – em dólar, que já dá quase um título público americano de curto prazo.

Para quem investe daqui do Brasil (via contas internacionais, como a da Avenue ou da XP), significa o seguinte: se a ação simplesmente manter-se no mesmo valor, você tem uma renda bruta anual de 3,3% em moeda americana.

Nos últimos 20 anos, porém, o valor da ação da Exxon dobrou. Para quem comprou aos preços daquela época (US$ 60), o dividendo atual equivale a uma renda de 8% em dólar sobre o que foi investido de fato. Muito mais do que qualquer título público dos EUA.

O caso da Chevron é ainda mais emblemático. Ela também está nos Dividend Aristocrats. São 38 anos de dividendos crescentes, mas com aquele yield um pouco maior, de 4%. Para quem comprou há 20 anos, 11,6%. Em dólar.

O DY da Petrobras também é alto, sem dúvidas. No ambiente brasileiro, chega a competir com o CDI. Mas isso também tem a ver com um fato negativo. O preço da ação dela é mais “descontado” em relação às suas pares americanas – quanto menor o valor do papel ante os proventos, maior o DY, afinal. 

Para saber o quanto uma empresa está descontada, você pega o preço somado de todas as ações (o valor de mercado) e divide pelo lucro dos últimos 12 meses. O resultado é o P/L (preço sobre lucro). Quanto maior ele for, maior é a confiança que o mercado deposita na empresa. E temos os seguintes P/Ls para cada uma:

Esse P/L de 5,5 faz da Petrobras uma das majors mais desvalorizadas do mundo petrolífero. O motivo é óbvio: o risco embutido numa estatal. Controlada pelo governo, a Petrobras troca frequentemente de CEO e de diretores por questões políticas, em vez de técnicas. Fora a interferência governamental direta, que já sangrou o caixa da empresa para segurar preços de combustíveis, para ficar no exemplo mais célebre. 

E tem o trauma da corrupção, que o mercado demora a esquecer. A Petrobras não poderia entrar para o Dividend Aristocrats porque não pagou dividendo algum entre 2014 e 2017 – justamente os anos em que esteve assombrada pelo escândalo do petrolão

Mesmo pagando um dividendo generoso hoje, então, ela ainda não tem as credenciais necessárias para ser considerada uma pagadora altamente confiável. Ainda assim, vale notar que a ConocoPhillips também não tem esse status – pois reduziu seus pagamentos em 70% na década passada.

O poder das recompras

Outro ponto a favor das americanas é o volume de recompras de papéis que elas têm feito. 

Vale uma explicação melhor aqui. Quando uma empresa lança ações no mercado, está pegando dinheiro de terceiros em troca de conceder para sempre um pedaço dos lucros dela para quem comprou. Só para ilustrar: cada ação da Petrobras dá direito a 0,000000013 do que ela distribui em dividendos. Hoje, isso significa R$ 3,36 reais por ano.  

Se a Petro recomprar, digamos, 20% de suas ações que circulam pelo mercado e tocar fogo nelas (“cancelá-las”, no termo técnico), cada papel daria automaticamente o direito a 20% mais dividendos – R$ 4,03. Seria um belo prêmio aos acionistas remanescentes, sejam os controladores, sejam os minorirtários. Todos ficariam com papéis mais valiosos na mão. 

E é exatamente isso que a Chevron tem feito, nesse volume. A americana anunciou em 2023 um programa de recompra de US$ 75 bilhões em ações, que segue aberto (ou seja, ainda estão comprando). Pelo valor de mercado de hoje, isso dá 22% do total de papéis da empresa. 

É justamente por isso que Warren Buffett gosta da Chevron. Ele sempre teve predileção por companhias que fazem recompras pesadas. 

A Exxon também está nessa turma. Foram US$ 35 bilhões em 2023/2024, e já anunciou mais US$ 20 bilhões para os próximos anos. A soma aí dá 10% do valor de mercado da gigante. A Conoco é outra que aprovou recentemente uma grande recompra: 16% do total de papéis.      

Isso é raro em outros setores. E em outras culturas também, incluindo a nossa. A Petrobras não tem um programa de recompra em andamento. O último terminou em 2024. Foram R$ 5,6 bilhões – pouco mais de US$ 1 bilhão. O equivalente a 1,5% do valor de mercado. Bem menos que suas pares dos EUA.

Por conta de tudo isso, as americanas têm se mostrado um investimento mais confiável para o longo prazo. Conta aí também a cotação em dólar, que para horizontes de décadas serve de proteção para quem vive no Brasil. 

Para visualizar melhor, vale uma comparação pouco usual, só que mais útil para nós, brasileiros. Seguem aqui as altas de cada uma nos últimos 20 anos, só que em reais:

A variação da moeda americana colabora para o desempenho das ações gringas em moeda brasileira, lógico. O dólar estava a R$ 2,27 em 2006. Agora, R$ 5,40. Só que mesmo se o dólar não existisse a alta da Petrobras teria sido pífia de qualquer jeito. No horizonte de 20 anos, ela perde para a inflação do real no período, que foi de 190%. 

Em dólar, então, nem teve alta. A ADR da empresa, negociada nos EUA, caiu de US$ 23,63 para US$ 12,89 nesse intervalo: -45%. Enquanto isso, Exxon e Conoco dobraram de valor em dólar, como vimos nos gráficos desta reportagem. E a Chevron quase triplicou.

Que os próximos 20 anos sejam melhores para a Petrobras, e para a moeda brasileira. Mas o retrovisor mostra que a estrada tende a ser mais calma no longo prazo para quem tem pelo menos uma parte de seus investimentos em boas empresas de fora. E as três grandes petroleiras dos EUA estão entre elas.