A ação tomba 85% entre ontem e hoje. Motivo: a conclusão de um aumento de capital que emitiu 1 trilhão de novas ações, em uma operação desenhada para converter credores em acionistas e reduzir seu endividamento.
Antes da reestruturação, a Azul era uma empresa dividida em 3,025 bilhões de ações. Se ela distribuísse, por exemplo, R$ 1 bilhão em dividendos, cada ação teria direito a cerca de R$ 0,33.
Com a reestruturação, a companhia emitiu aquele 1 trilhão de novas ações e “deu” aos credores para se livrar do que devia. Mantendo o mesmo exemplo de distribuição de R$ 1 bilhão em dividendos, o pagamento para os acionistas atuais, que não receberam nada, passaria a ser de R$ 0,001 por ação.
Ou seja, o investidor não deixa de receber dividendos porque o eventual lucro desapareceu, mas porque o mesmo lucro passa a ser repartido entre um número muito maior de ações.
Sabe hiperinflação? Então, ela corrói o valor do dinheiro. Uma hiperdiluição, como essa, faz a mesma coisa: destrói o valor da ação. Daí a venda em massa. Ninguém mais quer partes da Azul, basicamente.
A incrível ação que encolheu
Há meses a ação da Azul tem sido negociada perto de R$ 1 – condição para ser classificada como penny stock. Qual é a peculiaridade? É natural que qualquer ação no mercado varie R$ 0,10 ou R$ 0,20 em um dia. Numa penny stock, isso pode representar uma alta de 20%. Por essas coisas, muita gente aposta nelas para ganhar dinheiro rápido. Só que, como vimos, essa pode ser uma roubada.
Quem olhou para a tela do computador hoje viu as ações da empresa serem negociadas a perto de R$ 85. Mas esse não é o preço de uma única ação. Esse valor se refere a um lote que representa 10 mil ações.
Quer dizer, o preço da ação de fato é de R$ 0,0085 por ação. É o mercado puxando o preço para baixo para aproximá-lo do preço simbólico por ação anunciado pela companhia no seu aumento de capital, ou seja, na troca de dívida por partes da empresa: R$ 0,010 por papel.
Esse formato de negociação, em pacote, é um procedimento padrão da B3, adotado quando as ações passam a ter valores unitários muito baixos. O objetivo é evitar que os papéis sejam negociados a frações de centavo, o que poderia gerar oscilações percentuais ainda maiores e dificultar a negociação no dia a dia. As variações percentuais se aplicam ao preço do lote, e não ao valor individual de cada ação.
A Azul entrou em um doloroso processo de reestruturação, concluído ontem com a emissão trilionária de ações. Investir na empresa na expectativa de uma melhora não foi uma boa decisão – e o desenrolar da novela já apontava para isso.
A aérea não ofereceu aos atuais acionistas o direito de acompanhar esse aumento de capital, como costuma acontecer nesses casos, porque a operação não foi “tradicional”, digamos. O objetivo não era captar recursos do mercado em geral. Era viabilizar a sobrevivência da empresa em relação às obrigações que ela tinha com os credores – os primeiros com direito a receber.
E no meio do caminho ficaram os acionistas minoritários, que viram seu patrimônio ruir.
