O trecho final da viagem apresentou várias turbulências. Entre a decolagem do plano para sair da bolsa, iniciada em outubro de 2025, até a aterrissagem desse processo no fim da semana, a companhia viu seu fundador Constantino Junior morrer, ganhou um novo controlador e até acompanhou um dos seus piores pesadelos, o choque de preços do petróleo, começar a se materializar.

Na sexta-feira (27), a ação da Gol, finalmente, encerrou sua jornada na bolsa brasileira. A partir do pregão da segunda-feira (30) os papéis já estarão fora dos negócios.

Agora o novo controlador, a holding Abra, que também tem a colombiana Avianca sob suas asas, vai iniciar um novo capítulo para a aérea brasileira, fundada em 2001. O grupo pretende realizar uma nova abertura de capital. Dessa vez nos Estados Unidos.

Portanto, os investidores brasileiros que quiserem voltar a serem acionistas da companhia vão ter de aplicar em papéis diretamente no mercado americano. Isso quando e se o novo IPO for feito. Ou ainda, se futuramente houver emissão de Brazilian Depositary Receipts na B3. O BDR é um recibo que representa uma ação de empresa listada fora, mas que é negociado aqui mesmo no mercado local e em reais.

A nova fase da Gol também representa quase um renascimento estratégico.

Há 25 anos, quando a Gol foi fundada, o mundo assistia a uma espécie de explosão cambriana de companhias aéreas de baixo custo, aslow cost. A empresa surgiu com esse apelo: iria oferecer preços de passagens mais acessíveis, mas com um serviço mais simples – como barrinhas de cereal em lugar de sanduíches, um serviço de bordo bem mais enxuto e um foco em rotas regionais.

Nessas duas décadas e meia muita coisa aconteceu. A aérea comprou a Varig, absorveu o programa de milhagem Smiles e se tornou uma das maiores companhias do setor no Brasil. Mas daí veio a pandemia. Com a forte queda de viagens, o endividamento cresceu muito e tornou a empresa vulnerável a crises como a Guerra da Ucrânia, em 2022, e a disparada do dólar em meados de 2024.

Sem muitas opções, a Gol entrou em recuperação judicial em janeiro de 2024. O pedido foi feito nos Estados Unidos, dentro das regras do Chapter 11, a legislação americana sobre esses processos. A companhia saiu da RJ em junho de 2025, cerca de um ano e meio depois.

Agora, fora da bolsa e com novo controlador, a Gol deixa de vez qualquer pretensão low cost e passa a mirar o público de renda mais alta. A companhia abriu uma nova frente de voos intercontinentais a partir do aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, e apresentou uma oferta de produtos premium, com classe executiva e nova categoria no Smiles.

OPA e simplificação estrutural

A oferta pública de aquisição (OPA) para recomprar as ações negociadas no mercado e fechar o capital da empresa ocorreu em 19 de fevereiro. Na ocasião, a companhia conseguiu adquirir mais de 5,6 bilhões de ações preferenciais a um preço de R$ 11,45 por lote de mil papéis.

Com isso, a Gol passou a deter 99,95% das unidades. A aérea deu uma nova chance, até 25 de março, para os minoritários que não entraram na OPA venderem seus papéis.

Funcionou. A companhia conseguiu recomprar mais 731 milhões de ações e garantiu a posse de, basicamente, todas as ações já emitidas.

E porque a empresa fechou o capital? É que dentro do processo de reestruturação, a Gol Linhas Aéreas Inteligentes, que é a empresa que tinha as ações listadas na bolsa brasileira, será incorporada pela Gol Linhas Aéreas (GLA), uma companhia de capital fechado controlada pela Abra.

Essa incorporação está marcada para a quarta-feira, 1º de abril.

Segundo a própria Gol afirmou na ocasião, a operação tem como objetivo simplificar a estrutura do grupo, reduzir custos e buscar sinergias administrativas e fiscais.

O lote GOLL54, que reunia mil ações preferenciais da Gol, encerrou o último pregão cotado a R$ 9,74.