Pouco mais de dois anos depois, o saldo da sua carteira hoje alcança R$ 9,8 mil. Isso mesmo, o valor “encolheu” no período.
Esse é o custo da volatilidade no mercado de títulos prefixados e atrelados à inflação.
E por que essa queda do saldo ocorreu?
Ainda que, ao longo dos anos, vários fatores tenham surgido, de ciclo de alta de juros a incertezas fiscais, o “culpado” do momento é a Guerra no Irã. Desde o início do conflito, no fim de fevereiro, as pressões sobre os preços do petróleo e dos combustíveis voltaram a chacoalhar o mercado.
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E, quanto mais a guerra durar, mais desafiador vai se tornar o ambiente para a renda fixa. Isso porque os preços dos papéis – e as taxas – vão se ajustar conforme os cenários para a inflação mudarem.
A questão é que ninguém sabe quanto tempo vai durar o conflito nem quais níveis o IPCA e outros índices de preços podem alcançar.
O conflito levou a uma disparada das cotações do petróleo, que atualmente superam os US$ 100 o barril, mas chegaram a passar dos US$ 120. Isso levou a uma escalada dos preços dos combustíveis e do gás natural. Outro impacto foi a alta de cotações de fertilizantes e commodities metálicas.
Os choques de preços já impulsionam a inflação globalmente. E, no Brasil, além da pressão sobre o IPCA, afetaram todas as estimativas para o ciclo de queda dos juros pelo Copom.
A primeira redução, de 0,25 ponto percentual, ocorreu em março, para 14,75% ao ano. O movimento teve continuidade em abril deste ano, com nova redução de 0,25 ponto, para 14,50%.
Antes da guerra, o mercado projetava cortes de 0,50 ponto percentual em todas as reuniões do Copom neste ano – e uma taxa de 12,00% ao ano em dezembro, segundo o boletim Focus.
Agora, além do ritmo de queda menos intenso, analistas, economistas e investidores se dividem sobre até quando o BC vai conseguir manter os cortes. A expectativa consensual aponta para uma Selic de 13,00% ao ano em dezembro.
Volatilidade estressa o investidor
As taxas dos títulos Tesouro IPCA+, um dos mais populares da plataforma Tesouro Direto, têm oscilado ao sabor do noticiário. Nos momentos positivos, nos quais um acordo de cessar-fogo entre EUA e Irã parece encaminhado, os juros de vários papéis chegam a cair abaixo de 7% ao ano.
No momento mais tenso, alguns títulos, caso do IPCA+ 2032, ficaram muito perto dos 8% ao ano.
O próprio Renda+ 2040 alcançou um pico de 7,16% em março deste ano e, agora, oscila em torno de 6,98%. No melhor momento após a guerra ter começado, alcançou 6,83% anuais.
Os prefixados também têm enfrentado muita volatilidade.
A taxa do Tesouro Prefixado 2032, por exemplo, chegou a 14,30% ao ano, algumas semanas após o início da guerra. E caiu para 13,43% em meados de abril, em um momento de maior esperança com as negociações para um acordo de paz. No momento atual, a taxa alcança 13,88%.
Isso acontece por meio do mecanismo conhecido como “marcação a mercado”. Significa que o preço do título pode subir ou cair diariamente conforme as condições do momento. Um eventual prejuízo ou ganho, no entanto, só vai se realizar se o detentor do papel vender o ativo antes do vencimento.
Se, por exemplo, o mercado passar a enxergar uma inflação mais alta pela frente, um número maior de investidores pode querer repassar os papéis; e quem compra pede um prêmio maior – leia-se juros mais altos – para adquirir os ativos. Isso leva a uma queda de valor para a venda do título.
Em um ambiente como o atual, os preços e taxas podem subir e descer de um dia para o outro com uma intensidade de fazer inveja à renda variável.
Mas abre oportunidades
Em meio à oscilação, as taxas de juros têm se mantido em patamares historicamente elevados.
Lembra que, quando o investidor fictício Cassio investiu os R$ 10 mil em 2024, a taxa estava abaixo de 6% ao ano? Hoje está acima de 7%.
Para quem pode guardar recursos por um horizonte mais longo, o momento atual representa uma oportunidade. Os títulos do Tesouro, considerados os mais seguros do mercado, vão pagar exatamente o que o investidor contratou quando foram adquiridos – se forem carregados até o vencimento.
Um Tesouro IPCA+ 2032 que tem uma taxa de 7,63% atualmente vai render a inflação mais esse juro contratado anualmente pelos próximos seis anos.
Em uma conta simples, significa que R$ 100 mil aplicados nesse título vão praticamente dobrar: você vai receber R$ 193,5 mil em 2032, considerando uma inflação média anual de 4%.
Para ter uma ideia do que representa a taxa de 7,63% ao ano nesse papel do Tesouro IPCA+ 2032: apenas o ganho com esse juro vai alcançar R$ 55,5 mil acima da inflação ao fim do período de seis anos. Portanto, isso significa um ganho real de 55,5% em dinheiro de hoje.
Significa, na prática, que o investidor que tiver estômago para aguentar o “sobe e desce” dos preços dos papéis e das taxas de juros nos meses mais turbulentos tem a chance de “travar” retornos historicamente elevados por vários anos.
Incertezas tendem a se dissipar
Mas mesmo quem precisar vender o papel antes do vencimento tem uma oportunidade no médio prazo. Isso porque o esperado é que o juros atuais caiam em um período um pouco mais longo, quando as incertezas estiverem menores ou se dissipado – depois das eleições presidenciais no Brasil, por exemplo, e o começo do próximo governo, em um horizonte de um ano.
Até lá, mesmo se o conflito no Oriente Médio continuar, os preços tendem a se acomodar, ainda que em patamares mais elevados. Isso porque a maior parte das altas já vai ter ocorrido.
Além disso, os juros de curto prazo estarão mais baixos, uma vez que o BC ainda sinaliza ter “gordura” na Selic para manter os cortes nas taxas por mais algumas reuniões.
Portanto, no início de 2027, o cenário de juros pode estar mais favorável. Quem aproveitou a janela atual para comprar títulos públicos longos pode se beneficiar dessa melhora.
Para ilustrar essa situação, vamos pegar como exemplo um investidor que conseguiu aplicar no Tesouro IPCA+ 2040 no melhor momento de janeiro deste ano, a uma taxa de inflação mais 7,38% ao ano. Esse investimento atualmente apresenta um retorno nominal de 7,8% até 12 de maio.
Agora vamos voltar um ano atrás. Quem aplicou no mesmo papel em maio de 2025 acumula hoje, 12 meses depois, um ganho de 10,24% na marcação a mercado.
