O salto dos preços do petróleo de quase 8% nesta segunda-feira (2) pode ser só o começo. O conflito que envolve, de um lado, os EUA e Israel e, de outro, o Irã pode se escalar e se estender por mais tempo do que o avaliado inicialmente.

O preço do barril do Brent chegou a ultrapassar os US$ 80, um nível visto pela última vez há quase um ano. Mas pode ir mais longe. Analistas de grandes bancos e instituições, como o Barclays, elevaram suas projeções e indicam que o preço do Brent pode chegar a cerca de US$ 100 por barril, se houver um risco prolongado de interrupções no fornecimento.

O principal fator para as avaliações mais pessimistas vem do fechamento da rota do estreito de Ormuz, pelo qual passam mais de 20% do petróleo global.

O tráfego de petroleiros na região já praticamente parou. Três navios foram atacados perto da entrada do Golfo Pérsico, ampliando o temor de aperto na oferta.

A S&P Global Energy, conhecida como Platts, deixou de aceitar ofertas de compra e venda de variedades de petróleo que precisam transitar pelo estreito, informou em nota aos assinantes na segunda-feira.

A medida é um reconhecimento de que, nesta situação sem precedentes, o mercado físico do Golfo Árabe “ficou à deriva e sem rumo”, afirmou John Driscoll, estrategista-chefe da JTD Energy Services.

Riscos de um conflito ampliado

Outra questão em aberto é qual a potencial duração de um conflito entre os países. O próprio presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que a guerra pode durar, pelo menos, quatro semanas.

Mas há um risco real de o conflito se espalhar para a região. No fim de semana, o Irã retaliou atacando com mísseis bases militares americanas em nações vizinhas.

A fúria iraniana não poupou nem o Omã, histórico mediador entre Washington e Teerã, Jordânia e Iraque. O regime de Teerã atacou também bases nos Emirados Árabes, Barhein, Catar e Kwait.

Os ataques teriam ido além de alvos militares: uma das refinarias da estatal Saudi Aramco, da Arábia Saudita, teria sido atingida no fim de semana.

A morte do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, logo no primeiro dia de confrontos, mergulhou o Irã em uma transição cercada de incertezas. Um conselho temporário — composto por Masoud Pezeshkian e Alireza Arafi — assumiu as rédeas e o discurso interno é de resistência.

O chefe de segurança de Teerã, Ali Larijani, foi categórico ao afirmar que qualquer diálogo com Washington está fora de cogitação. Trump, por sua vez, reiterou as ameaças ao exército iraniano.

O que monitorar para a Petrobras e o Brasil

No Brasil, a escalada da guerra, em um primeiro momento, traz os holofotes para as ações da Petrobras. Se, no entanto, o conflito durar mais do que o esperado, a política de preços internacionais da companhia pode ficar sob pressão.

O mercado passará a monitorar eventuais reajustes de combustíveis e como o governo brasileiro reagirá à volatilidade externa para evitar o repasse imediato às bombas.

Os juros futuros também tendem a subir, se houver o risco de uma escalada mais forte dos preços do petróleo, em meio às preocupações sobre o impacto dessa alta sobre a inflação.

Vale lembrar que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reúne daqui a duas semanas para decidir os rumos dos juros no país. Se até o fim da semana passada o mercado se inclinava a apostar em um corte de 0,5 ponto percentual, as expectativas podem mudar em meio à escalada dos preços do petróleo.

Outro ponto importante para o Brasil é uma eventual reversão do fluxo de recursos internacionais para o país. Desde o fim de 2025, a forte entrada de dinheiro de fora, em meio a um movimento de diversificação global, tem sustentado quebras de recordes seguidos para a bolsa local.

Além disso, a entrada de recursos manteve o dólar enfraquecido frente ao real. O cenário de uma moeda americana menos volátil tem ajudado a manter as expectativas de inflação futura mais ancoradas.

Busca por proteção

No cenário global, além da forte alta do petróleo, os investidores monitoram os juros e o câmbio. A busca por proteção redireciona o fluxo de recursos para os chamados portos seguros, como as Treasuries, o ouro e as moedas fortes.

O título do Tesouro dos EUA de 10 anos, por exemplo, tem sido negociado a uma taxa de 3,964% ao ano, em meio à demanda pelos papéis. Nesse mercado, o recuo das taxas indica uma maior procura pelos títulos e, como consequência, a elevação dos preços desses ativos.

O ouro subiu ao maior nível em um mês, com investidores em busca da segurança dos metais preciosos. O ouro à vista avançou até 2,7%, superando US$ 5.400 por onça, ampliando o ganho de mais de 3% registrado na semana passada.

O ouro acumula alta de cerca de 25% neste ano, apesar de uma correção abrupta após atingir o recorde acima de US$ 5.595 por onça no fim de janeiro.

A moeda americana sobe globalmente. O índice dólar (DXY), que mede a variação da divisa dos EUA frente a uma cesta com suas principais concorrentes internacionais, sobe 0,68% aos 98,26 pontos.

Ações de energia e defesa sobem, com os papéis da Exxon Mobil, avançando 3,9% nas negociações iniciais. Já a IAG SA, dona da companhia aérea British Airways, caiu 5% em meio a amplas interrupções de voos no Oriente Médio.