O balanço da Natura foi bem recebido pelos investidores, principalmente porque o lucro veio acima das expectativas. Com isso, as ações da multinacional de cosméticos lideraram as altas entre as integrantes do Ibovespa no dia, com alta de 8,46%, a R$ 9,36, enquanto o principal índice da B3 terminou a sessão em alta de 0,30%.

Só que, apesar do respiro, isso não significa que tudo esteja nos eixos – e a empresa ainda tem três desafios pela frente para convencer os analistas e os participantes do mercado de que a maré realmente virou.

O primeiro ponto é a alavancagem, ou seja, o tamanho da dívida da empresa. Nessa linha do balanço, a Natura melhorou: reduziu o indicador de 2,5 vezes para 1,5 vez no quarto trimestre de 2025.

Na prática, isso quer dizer que a empresa hoje levaria menos tempo para quitar suas dívidas usando o próprio caixa. Parte dessa melhora veio da venda de ativos, e a dívida líquida fechou o período em R$ 3,5 bilhões.

Mas há um porém: essa alavancagem ainda é considerada elevada para a empresa em um cenário de juros altos, o que mantém o risco financeiro no radar. A queda da Selic esperada para o ano ajuda a aliviar a pressão sobre o setor de varejo e consumo, mas, com o nível ainda alto das taxas na economia, a operação da companhia segue em escrutínio.

O segundo ponto é a fraqueza nas vendas. A receita no Brasil caiu 4,8% no quatro trimestre de 2025, para R$ 3,77 bilhões na comparação anual. A pressão veio principalmente do desempenho da Avon, adquirida pela companhia em 2020.

E aí entra o terceiro problema: a própria Avon. A marca, que vai completar 140 anos em 2026, perdeu relevância nos últimos anos, enfrentou problemas operacionais e ainda está em processo de reestruturação. A recuperação segue em andamento – e, por enquanto, sem sinais definitivos de consolidação.

Visão ainda cautelosa

Por causa desses desafios, o tom dos participantes do mercado segue mais neutro com o futuro da empresa.

Os analistas do BTG Pactual destacaram que, mesmo com a simplificação da estrutura e do desempenho operacional melhor do que o esperado, seguem monitorando a recuperação de margens, a redução da alavancagem e a retomada das vendas no Brasil e na América Latina. A casa mantém recomendação neutra para o papel, com preço-alvo de R$ 12.

Já o Santander avaliou que a gestão mostrou disciplina na redução de despesas e obteve ganhos de eficiência nas despesas gerais e administrativas, enquanto os custos de transformação continuaram caindo na comparação anual.

Esses custos dizem respeito à reestruturação operacional e corte de despesas da Natura, associados justamente ao aumento da lucratividade, à simplificação da estrutura corporativa e à integração da Avon às operações na América Latina.

A queda desses gastos reforçam a leitura, segundo o Santander, de que eles podem se aproximar de zero em 2026. A recomendação também é neutra, com preço-alvo de R$ 9,70.

Na visão do Itaú BBA, a administração da companhia deu ênfase a um ponto de preocupação para esse ano: a pressão sobre as receitas no Brasil, conforme as iniciativas comerciais ganhem tração apenas de forma gradual. É o que levantou a dúvida do mercado nesse momento e reduziu o entusiasmo com a companhia para o começo de 2026.

Ainda assim, no momento, a recomendação do BBA é de compra. “O tom da administração da empresa para a tendência de rentabilidade em 2026 foi construtivo e vemos um caminho plausível para melhora de margens, apesar de um primeiro trimestre provavelmente mais desafiador”, afirmam, em relatório.

Entre os destaques positivos do balanço, o Ebitda, um indicador de lucro operacional ficou 35% acima das projeções, e a empresa registrou lucro líquido de R$ 186 milhões, cerca de 13% acima do esperado pelo mercado e revertendo a previsão de prejuízo de parte dos analistas.

A Natura também gerou caixa: o fluxo de caixa livre – o dinheiro que sobra depois das despesas operacionais e dos investimentos – foi de R$ 250 milhões no trimestre, impulsionado pela melhora na performance operacional.