O que começou como uma forte correção em outubro evoluiu para algo mais corrosivo: uma queda prolongada não marcada pelo pânico, mas pela ausência de compradores, de impulso e, sobretudo, de crença.
Diferentemente do recuo de outubro, o movimento atual não teve um gatilho claro, liquidações em cascata ou choques sistêmicos. O que se vê é uma combinação de demanda enfraquecida, liquidez cada vez mais restrita e um ativo que parece desconectado dos mercados globais.
O bitcoin não reagiu a tensões geopolíticas, à fraqueza do dólar nem a movimentos de alta em ativos de risco. Mesmo durante as oscilações intensas recentes do ouro e da prata, não houve rotação relevante para o mercado cripto.
Em janeiro, a criptomoeda acumulou queda de quase 11%, registrando o quarto mês consecutivo de perdas — a sequência negativa mais longa desde 2018, após o colapso que se seguiu ao boom das ofertas iniciais de moedas (ICOs) em 2017.
“Não acredito que veremos um novo recorde histórico do bitcoin em 2026”, afirmou Paul Howard, diretor da Wincent.
Mais chamativa do que a queda em si é a falta de otimismo em torno dela, especialmente nas redes sociais. Em um mercado conhecido pela retórica confiante e pelos memes de “preço só sobe”, o recuo do bitcoin tem sido recebido com pouco entusiasmo, quase sem campanhas de compra na baixa.
Isso ocorre apesar de uma série de avanços regulatórios após a guinada pró-cripto do governo Trump e do aumento do investimento institucional. Para muitos investidores, no entanto, esse otimismo já havia sido antecipado pelo mercado: os preços subiram antes e, em seguida, perderam força.
Os ETFs à vista continuam registrando saídas líquidas, sinalizando o enfraquecimento da convicção entre investidores tradicionais — muitos deles agora no prejuízo após comprar a preços mais elevados. Grandes players institucionais, como tesourarias focadas em ativos digitais, também reduziram o ritmo de compras após o estouro de suas próprias bolhas no mercado acionário no ano passado, diminuindo ainda mais a demanda no topo do mercado.
Recuperação pode levar mais de três anos
A profundidade de mercado do bitcoin — indicador que mede o volume de capital disponível para absorver grandes ordens — permanece mais de 30% abaixo do pico de outubro, segundo dados da Kaiko. A última vez que a liquidez caiu a esse nível foi após o colapso da FTX, em 2022.
Os padrões históricos oferecem pouco alívio. Após o pico de 2021, o bitcoin levou 28 meses para se recuperar. Depois do boom das ICOs em 2017, o processo durou quase três anos. Por esses parâmetros, a atual fase de baixa pode ainda estar apenas no início.
“Analisando contrações históricas no volume das corretoras de cripto, do pico de 2017 até o inverno de 2018–2019, vimos uma queda de 60% a 70% no volume à vista”, explicou Laurens Fraussen, analista da Kaiko. Segundo ele, o ciclo de baixa entre 2021 e 2023 foi mais moderado, com retração de 30% a 40%.
“Em termos de onde estamos neste ciclo, diria que cerca de 25% do caminho já foi percorrido”, afirmou. “Ciclicamente, os piores momentos costumam ocorrer por volta da metade do processo.”
Fraussen estima que ainda serão necessários de seis a nove meses para que uma recuperação consistente comece a se formar, com volumes permanecendo fracos durante as fases finais de correção e reacumulação.
Outros analistas enxergam um desafio mais estrutural: a disputa por capital. Richard Hodges, fundador do Ferro BTC Volatility Fund, afirma que tem alertado grandes detentores de Bitcoin de que será preciso paciência.
“Tenho conversado com muitas baleias de Bitcoin e deixei claro que não veremos um novo recorde histórico por pelo menos mil dias”, disse Hodges.
Ele aponta para ações ligadas à inteligência artificial e para o retorno em força dos metais preciosos, que vêm atraindo tanto investidores macro quanto operadores de curto prazo.
“O bitcoin virou notícia de três anos atrás, não de agora”, afirmou. “As ações de IA estão indo para a lua. Vimos o início da disparada do ouro e, depois, a prata simplesmente explodiu.”