A empresa continuou expandindo receita e lucro em relação ao ano passado. Mas, para uma companhia que negocia com “prêmio” na bolsa, crescer não basta: é preciso crescer mais do que o esperado. E foi aí que surgiram os ruídos.
O ponto que mais incomodou foi a rentabilidade. Parte dos resultados ficou abaixo das projeções dos analistas, especialmente na comparação com o que já estava embutido nas expectativas do mercado. A margem – ou seja, a fatia do faturamento que sobra depois de pagar os custos – perdeu fôlego no trimestre.
No braço hospitalar, que é o principal negócio do grupo, o crescimento continuou forte, impulsionado principalmente por cirurgias e tratamentos de oncologia. Ainda assim, o avanço veio acompanhado de custos maiores, o que reduziu a margem. Para o investidor, a dúvida é se o aumento das despesas é pontual ou pode pressionar os resultados daqui para frente.
A operação de planos de saúde, a SulAmérica, também entrou no radar. Apesar de melhora em indicadores ligados ao controle de despesas médicas, o lucro operacional ficou abaixo do que o mercado projetava, pressionado por gastos administrativos mais elevados. O resultado reacendeu questionamentos sobre o equilíbrio entre crescimento e rentabilidade no setor de seguros de saúde.
Outro fator que pesou foi um efeito contábil ligado a provisões para processos judiciais. A companhia mudou o momento em que reconhece essas despesas, antecipando registros. Isso teve impacto negativo no resultado do trimestre, ainda que a empresa trate como um evento pontual. Para quem olha apenas o número final, porém, a diferença apareceu.
Além disso, o nível de endividamento subiu após o pagamento de dividendos extraordinários no fim do ano. Embora o patamar ainda seja considerado administrável, o aumento chama atenção em um ambiente de juros elevados.
Existe um outro ponto importante: o valuation da empresa. A Rede D’Or é negociada na bolsa com um múltiplo chamado preço sobre lucro, ou P/L, em torno de 20 vezes. Esse indicador compara quanto a empresa vale na bolsa com o lucro que ela gera em um ano.
Funciona assim: se uma empresa tem P/L de 20, significa que o mercado está pagando um valor equivalente a 20 vezes o lucro anual atual dela. Quanto maior esse número, maior é a expectativa de que a companhia vai continuar crescendo nos próximos anos.
E é aí que mora a sensibilidade. Quando uma ação já é considerada “cara” em termos de múltiplo, o investidor exige resultados fortes e consistentes. Se o balanço vem apenas bom, mas não surpreende, o preço pode cair porque parte daquela expectativa precisa ser ajustada.
No caso da Rede D’Or, o múltiplo é superior ao do próprio Ibovespa, que gira perto de 13 vezes lucro. Isso mostra que o mercado atribui um prêmio grande à empresa. E ações que carregam prêmio costumam reagir de forma mais dura quando os números decepcionam.
Em um papel que já vinha ficando para trás em relação ao Ibovespa desde o fim do ano passado, o resultado serviu como gatilho para uma correção. Agora, a discussão é se a pressão sobre as margens foi apenas um tropeço de curto prazo ou se sinaliza um cenário mais desafiador para 2026.