A decisão do Fed, provavelmente, vai mudar pouca coisa para os mercados. Além de já “precificada”, termo usado pelos investidores para dizer que os preços dos ativos já incorporam o resultado mais provável, o próprio BC americano prefere manter uma postura cautelosa, sem sinalizar mudanças radicais nas avaliações.
“Enquanto muitos até sonham com um Fed acomodativo em resposta ao choque do petróleo, o melhor que pode acontecer é nada”, afirmou Bob Elliott, diretor de investimentos da gestora americana Unlimited Funds, em relatório.
Uma decisão mais cautelosa e alinhada com o mercado vai impactar pouco o fluxo de recursos aos mercados emergentes. No caso do Brasil, significa a manutenção da entrada de dólares para a bolsa em busca de diversificação fora dos EUA.
Nesse cenário, o câmbio tende a ficar menos volátil, com impacto mais limitado das oscilações nos preços do petróleo.
Como o nível de juros ainda está muito elevado por aqui, mesmo que a Selic caia para 14,75% ao ano nesta quarta-feira, o movimento, basicamente, não altera a atratividade do real como moeda de “carry trade“.
Essa estratégia consiste em tomar recursos em mercados com juros baixos, como os Estados Unidos, e aplicar em ativos de países que pagam taxas elevadas, caso do Brasil, para ganhar com a diferença de remuneração.
O ambiente de juros, portanto, vai continuar favorável a atração de recursos do exterior, o que ajuda a manter a taxa de câmbio, com oscilações menos bruscas.
Guinada nas apostas sobre cortes nos EUA
No caso dos EUA, chama mais a atenção a mudança drástica de visão sobre a possibilidade de o Fed voltar a cortar juros. Isso em apenas um mês.
Antes de 28 de fevereiro, quando os EUA junto com Israel atacaram o Irã, a ferramenta FedWatch, que acompanha instrumentos usados pelo mercado para apostar no rumo da política monetária nos EUA, mostrava que 90% dos investidores previam uma retomada dos cortes de juros a partir da reunião do Fed de setembro.
Agora esse percentual caiu para 38%. E mais da metade preveem nova manutenção. A possibilidade de novo corte só ganha corpo mesmo em dezembro, com cerca de 66% do mercado prevendo um corte.
Tudo depende de quanto tempo dura a guerra
A questão é: ninguém sabe quanto tempo vai durar a alta do petróleo, que resiste acima dos US$ 100 o barril. O cenário mais temido pelos investidores é o de uma guerra prolongada, que se estenda por meses ou até anos, com efeitos duradouros sobre os preços da energia.
Se isso ocorrer, os BCs globais vão se ver frente a necessidade de subir juros para conter a aceleração inflacionária. Mas, por enquanto, é impossível prever o desenlace do conflito.
O economista americano Nouriel Roubini, que ficou conhecido por antecipar a crise financeira de 2008, aposta em uma guerra mais curta. “Acredito que os efeitos da guerra no Irã podem durar mais uns dois meses, quando a alta dos preços do petróleo deve se reverter, com efeitos limitados na economia”, avaliou em um evento da Nomad na última terça-feira (17).
Roubini argumentou ver o presidente dos EUA, Donald Trump, pressionado pelos aumentos de preços de combustíveis, com a gasolina e o diesel já 25% e 33% mais caros no mercado americano. “Trump, provavelmente, vai recuar no conflito nas próximas semanas.”
O motivo é que a inflação vira uma ameaça, para o partido Republicano, nas eleições de meio de mandato em novembro, quando toda a Câmara dos Deputados e parte do Senado são renovados. Para não arriscar perder o controle das casas, Trump pode tentar achar motivos para encerrar o confllito o mais rápido possível antes que a popularidade do governo se deteriore mais.