O atual ambiente tende a promover pressões de custo sobre as companhias, com insumos encarecendo até que os conflitos geopolíticos se resolvam. Mas a Vale entra nesse contexto com instrumentos que ajudam a mitigar parte relevante desses efeitos.
Entre esses instrumentos estão contratos de frete de longo prazo e de proteção para os preços de combustível marítimo, além da baixa probabilidade de enfrentar escassez de diesel no Brasil.
Isso não significa que a empresa esteja imune ao choque inflacionário decorrente da alta da energia. O aumento do preço do petróleo já impacta o setor por meio de fretes mais caros e custos mais elevados de insumos. Mas essas estratégias contra a oscilação de preços a colocam em uma situação melhor, especialmente frente a pares do setor.
O efeito indireto da guerra: liquidez para os estrangeiros
A Vale sofreu um choque importante com a escalada dos conflitos no Irã porque, como uma das maiores empresas da bolsa, ela serve de veículo para os grandes alocadores, especialmente estrangeiros, se posicionarem estrategicamente no mercado brasileiro.
Ou seja: no pico da aversão ao risco, logo que a guerra estourou, em 27 de fevereiro, a fuga de ativos considerados mais arriscados atingiu a companhia. É o tipo de evento que não tem relação com os fundamentos da empresa, mas com uma abordagem comum e tática, com foco no curtíssimo prazo.
Nos últimos pregões, a ação da companhia já vem esboçando uma retomada. Conforme as perspectivas paras os conflitos no Oriente Médio melhorem, a empresa tem boas condições de retomar uma trajetória de alta, sobretudo se pautada pela sua situação financeira e operacional.
Fundamentos: o que faz a Vale ser um investimento viável?
Do lado das receitas, a empresa também tem uma boa história para convencer os investidores. Os preços do minério reagiram desde o início do conflito, refletindo o repasse inflacionário: ao encarecer os custos de energia e transporte, também fica mais caro produzir e entregar minério, e esse aumento é repassado para o preço final da commodity.
A isso se soma a demanda ainda resiliente pela matéria-prima. O minério de ferro tem girado em torno de US$ 110 por tonelada, acima das expectativas do mercado, conforme notam os analistas do BTG Pactual, em relatório enviado a clientes.
Mesmo diante de dados mais fracos divulgados pela China, participantes do mercado indicam que a produção de aço pode estar sendo subestimada. Se de fato há mais aço sendo produzido, cresce a procura por minério.
Além disso, os prêmios por qualidade seguem elevados – ou seja, minérios de maior teor de ferro continuam sendo vendidos com preço adicional, o que favorece a Vale.
A expectativa é de que a demanda global permaneça estável ao longo do tempo, com crescimento vindo de países como Índia e do Sudeste Asiático. Ao mesmo tempo, a entrada de nova oferta tende a ser compensada pelo esgotamento gradual de minas existentes, o que ajuda a sustentar o equilíbrio entre oferta e demanda.
Ou seja, o combo de preços mais altos e menor exposição a custos mais voláteis melhora a perspectiva de geração de caixa da companhia. A estratégia de frete, a menor dependência do petróleo e a manutenção da demanda desenham um cenário mais favorável.
Os analistas do BTG também destacam como a disciplina de capital é importante para a companhia agora. A Vale vem mantendo o foco na execução de projetos e no crescimento orgânico, com menos interesse para aquisições.
Com isso, a geração de caixa tende a se traduzir em retorno ao acionista, com a possibilidade de pagamento adicional de dividendos à medida que os resultados surpreenderem positivamente.