A Netflix acabou de vencer ao perder.

As ações da líder do setor de streaming chegaram a subir até 12% em Nova York na sexta-feira, depois que a companhia anunciou que estava saindo da disputa para comprar a Warner Bros. Discovery.

A decisão provocou um suspiro de alívio entre investidores que temiam que a Netflix — empresa que reescreveu as regras do cinema e da TV — acabasse pagando bilhões de dólares a mais para se transformar em mais um estúdio tradicional de Hollywood, ainda que dono de franquias cobiçadas como Batman e Game of Thrones.

O anúncio veio pouco após o conselho da Warner informar que uma nova oferta de aquisição de US$ 111 bilhões feita pela Paramount Skydance Corp. superou o acordo anterior para vender o estúdio e o negócio de streaming à Netflix por cerca de US$ 82,7 bilhões.

Sempre fomos disciplinados e, pelo preço necessário para igualar a oferta mais recente da Paramount Skydance, o negócio deixou de ser financeiramente atrativo”, disseram os co-CEOs Ted Sarandos e Greg Peters em comunicado. “Portanto, decidimos não igualar a proposta.”

Os acionistas da Netflix nunca gostaram do acordo com a Warner. A ação perdeu cerca de 40% do valor nos cinco meses após se tornar público o interesse na empresa. Investidores, já preocupados com as perspectivas de crescimento, avaliaram que a companhia estava mexendo no modelo de negócios que a tornou tão bem-sucedida — e assumindo mais de US$ 50 bilhões em nova dívida para isso.

Dentro desse modelo, a Netflix nunca priorizou lançamentos amplos nos cinemas, preferindo exibições limitadas apenas para qualificação a prêmios. Diante da reação negativa de redes de cinema e executivos de Hollywood, a empresa disse que lançaria os filmes da Warner nos cinemas por pelo menos 45 dias. Também concordou em vender séries da Warner para outros distribuidores — algo diferente de sua prática histórica de produzir conteúdo apenas para seus assinantes.

Ainda em outubro, Peters afirmou em conferência da Bloomberg que investidores deveriam ser céticos em relação a grandes fusões no setor de mídia, que não têm bom histórico. “Temos uma herança profunda de construtores, não de compradores”, disse ele.

A decisão de disputar a Warner, portanto, surpreendeu o mercado. Desde seu IPO, em 2002, a ação acumulou apenas seis anos de queda. Na manhã de sexta-feira, era negociada a US$ 91,85 em Nova York.

Como a Paramount superou a proposta existente, a Netflix receberá uma multa rescisória de US$ 2,8 bilhões — recursos suficientes para financiar diversos novos filmes e séries. A companhia informou que retomará a recompra de ações.

Analistas do Raymond James escreveram que essas recompras devem ser o principal uso do caixa liberado, embora não descartem novas opções estratégicas após a empresa ter “experimentado” o ambiente de fusões e aquisições.

A Netflix também pode ampliar investimentos em direitos esportivos e acordos de licenciamento, como o firmado recentemente com a Sony Group Corp. para filmes do estúdio, segundo analistas da MoffettNathanson.

Com sede em Los Gatos, Califórnia, a Netflix planeja gastar cerca de US$ 20 bilhões em programação neste ano. Com mais de 325 milhões de assinantes e valor de mercado superior a US$ 385 bilhões, a empresa supera amplamente concorrentes de Hollywood, especialmente a combalida Paramount e a própria Warner.

A Netflix foi fundada em 1997 por Reed Hastings e Marc Randolph como um serviço de aluguel de DVDs pelo correio. Dois anos depois, lançou o modelo de assinatura mensal com aluguel ilimitado por taxa fixa.

A empresa abriu capital em maio de 2002 e registrou seu primeiro lucro em 2003.

O ponto de virada veio em 2007, quando lançou o serviço de streaming Watch Now, com catálogo inicial de mais de mil filmes e séries populares como The Office. À época, tinha 5,7 milhões de assinantes, e o streaming era oferecido sem custo adicional aos clientes de DVD.

A tentativa de desenvolver um aparelho próprio para streaming levou à criação da Roku Inc..

Como ameaça ao modelo tradicional de Hollywood, a Netflix enfrentou diversos embates com estúdios. Em 2010, fechou acordo com a Warner para esperar quatro semanas antes de alugar DVDs de lançamentos recém-chegados às lojas. Pactos semelhantes vieram depois com a Universal e a 20th Century Fox.

Posteriormente, a Netflix firmou acordos de licenciamento com estúdios interessados em gerar receita com o streaming nascente. A prática de disponibilizar temporadas completas impulsionou o fenômeno do “binge-watching”.

Um dos maiores erros ocorreu em 2011, quando a empresa anunciou a separação dos serviços de DVD e streaming em assinaturas distintas, elevando preços em 60% e irritando clientes. Um mês depois, voltou atrás.

Naquele mesmo ano, estreou na produção original com House of Cards, thriller político estrelado por Kevin Spacey.

Nos anos seguintes, estúdios passaram a questionar o licenciamento de seus melhores títulos à plataforma. A Walt Disney rompeu com a Netflix em 2017 e lançou o Disney+. Ainda assim, a Netflix continua liderando os rankings de streaming, inclusive com parte do conteúdo licenciado da Paramount.