O presidente americano Donald Trump está em campanha para reduzir os preços da carne bovina. Mas a poderosa demanda do país por proteína está tornando essa meta difícil.

Embora a crise na oferta de gado nos Estados Unidos seja o principal fator por trás da alta nos preços da carne, o apetite persistente e resiliente dos consumidores também desempenha papel relevante na manutenção das contas do supermercado em níveis elevados.

Os americanos não estão abandonando amplamente a carne, mesmo com os preços da carne moída subindo 14% neste ano, para novos recordes. A obsessão do país por proteína mantém a pressão sobre a oferta restrita, impulsionando preços ainda mais altos e maiores importações. Os consumidores também vêm ajustando seus hábitos, optando por cortes mais acessíveis.

“A indústria temia: ‘Lá vamos nós de novo’, porque como a demanda e o consumo poderiam acompanhar preços recordes em um momento de tanta pressão financeira?”, disse Anne-Marie Roerink, fundadora da empresa de pesquisa 210 Analytics. “Mas, surpreendentemente, a carne bovina tem mostrado força incrível.”

As vendas em volume de carne bovina nos supermercados americanos nas 52 semanas encerradas no início de novembro avançaram cerca de 5% na comparação anual, superando o crescimento de outras proteínas, segundo dados da Circana.

Isso contrasta com outros mercados que registraram destruição de demanda neste ano — quando os preços sobem tanto que os consumidores recuam o suficiente para aliviar a pressão sobre a oferta. Foi o caso dos ovos, que em determinado momento ficaram mais caros que a carne bovina, tornando-se símbolo da inflação. O cacau também atingiu um limite após disparar, levando fabricantes de chocolate a reformular produtos para conter custos.

A carne bovina, como qualquer commodity, também tem um teto — ele apenas ainda não foi alcançado. Em outubro, consumidores disseram estar dispostos a pagar US$ 9,47 por meio quilo (libra) de carne moída, segundo o Meat Demand Monitor da Kansas State University. O valor é superior à média de US$ 6,64 observada nas prateleiras em setembro.

A força do mercado ocorre em meio a mudanças no comportamento do consumidor, em um momento de “febre da proteína” impulsionada em parte pela popularização de medicamentos contra a obesidade, que sustentam a demanda nos corredores de carnes e laticínios. Muitos consumidores migram para opções mais baratas, como frango, cuja popularidade crescente mantém os frigoríficos lucrativos. Já os que insistem na carne bovina trocam cortes caros por alternativas mais versáteis e econômicas.

O interesse por receitas com carne moída e acém aumentou no último ano, enquanto cortes como ribeye e filé mignon perderam espaço, segundo a empresa de pesquisa Tastewise.

“Nesse ambiente, o consumidor está migrando um pouco entre proteínas, mas mesmo dentro da carne bovina vemos troca de cortes nobres por carne moída”, afirmou Donnie King, CEO da Tyson Foods, em teleconferência com analistas. “A demanda por carne moída está muito forte.”

A crise de oferta começa nas fazendas, onde juros elevados, ração cara e secas mantêm os rebanhos no menor nível em mais de meio século. Há sinais iniciais de recomposição, mas o processo leva anos. Um bezerro mantido hoje para reprodução só contribuirá para a oferta de carne no fim de 2029, observa Lance Zimmerman, analista do Rabobank.

Trump tem focado nas importações como parte da solução. Na semana passada, removeu tarifas elevadas sobre a carne bovina do Brasil, principal fornecedor global da commodity, e incentivou mais embarques da Argentina. As importações em 2025 devem subir 16% em relação ao ano passado.

Investigação federal

O governo também ordenou investigação federal sobre processadoras como a Tyson Foods e a JBS, acusando-as de conluio e manipulação de preços. Embora tais alegações não sejam novas em um setor altamente concentrado, as empresas vêm relatando prejuízos operacionais em seus segmentos de carne bovina nos EUA, já que pagam mais caro por gado escasso.

Na sexta-feira, a Tyson informou que encerrará as operações de uma planta em Nebraska e reduzirá um turno em uma unidade no Texas, diante de perdas milionárias.

A pressão prolongada sobre a oferta deve continuar sustentando os preços e incentivando a migração para o frango. Ainda assim, enquanto muitas redes de fast-food apontam o aumento da carne bovina como fator inflacionário, a Arby’s apostou na proteína ao lançar em outubro os Steak Nuggets, em edição limitada, que viralizaram nas redes sociais.

A força atual da demanda representa uma reversão dramática em relação a uma década atrás, quando a carne bovina parecia perder espaço. O consumo per capita caiu 17% entre 2005 e 2014, à medida que preocupações com gordura e colesterol afastaram consumidores da carne vermelha. Além disso, o impacto ambiental do gado — que emite metano — pesava na decisão de compra.

Hoje, essa preocupação diminuiu, e consumidores mais jovens “não fazem a mesma distinção entre carne bovina, suína e frango com base em colesterol e outros fatores”, disse Glynn Tonsor, professor de economia agrícola da Kansas State University.

“Eu diria que essa tendência morreu ou, no mínimo, perdeu força”, afirmou.