Dos 20 times da divisão principal do Campeonato Brasileiro, seis estão atualmente sem patrocínio máster — um contraste e tanto em relação ao Brasileirão do ano passado, quando 18 clubes da Série A tinham uma bet estampada no centro da camisa.

Essa queda em tão pouco tempo tem a ver com a regularização do mercado de apostas no Brasil, que aguardava legislação específica desde 2019 e passou a operar plenamente sob novas regras em 2025.

Depois da euforia pré-regulação – que despejou a mais de R$ 1 bilhão em patrocínios de clubes no ano passado – o setor entrou em modo de contenção de custos. Em 2026, as bets resolveram adotar uma postura mais cautelosa.

O resultado é que Bahia, Coritiba, Grêmio, Internacional, Santos e Vasco iniciaram a temporada sem patrocinador máster. Todos eram apoiados por bets. Fato é que uma regulação mais rígida deixou as casas de apostas com menos dinheiro sobrando, e várias delas acabaram se afastando do futebol.

Desde janeiro de 2025, as empresas precisam seguir regras como identificação facial obrigatória dos apostadores (para menores de 18 anos) e tributação de 12% sobre a receita bruta, descontados os prêmios pagos.

Com o novo regulamento, o Sistema de Gestão de Apostas (Sigap), ligado ao Ministério da Fazenda, estimou que a receita bruta das casas autorizadas alcançou R$ 37 bilhões em 2025 – valor correspondente ao total apostado, antes do pagamento de prêmios.

Com a estreia da cobrança dos 12%, mais os outros impostos que toda empresa paga (IRPJ, CSLL, PIS e Cofins), a Receita Federal arrecadou R$ 9,95 bilhões com as bets. Estamos falando aí num aumento de 11.000% em relação a 2024, quando o Leão tinha abocanhado míseros R$ 91 milhões com as bets.

Mas há outra faceta na mudança de rumo das casas de apostas: a inflação nos preços que os clubes passaram a exigir – causada pelas próprias bets, como vamos ver mais adiante.

Da euforia ao ajuste

O mercado de apostas foi legalizado em dezembro de 2018, no fim do governo Michel Temer. Até 2024, porém, as bets operaram em um vácuo regulatório, à margem de um sistema tributário estruturado e de exigências mais rigorosas.

A rentabilidade elevada desse período de faroeste inflou os gastos com publicidade para atrair novos apostadores, sobretudo no futebol – jogada óbvia para sites que ganham dinheiro, em grande parte, com apostas que envolvem futebol. As margens generosas da época estimularam uma corrida por visibilidade, transformando clubes em plataformas de aquisição de clientes e inflando rapidamente os valores dos contratos.

“Havia uma euforia pré-regulação. Empresas legalizadas para operar não tinham carga tributária elevada nem exigências robustas de compliance”, afirma André Gelfi, CEO da Betsson no Brasil e cofundador do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR).

A Betsson patrocinou o Athletico Paranaense, da Série A, entre 2022 e 2023. Mas desistiu do futebol no Brasil diante da escalada de preços. “Fomos atropelados por concorrentes pagando valores absolutamente exorbitantes. Preferimos não acompanhar essa onda”, diz Gelfi. A marca saiu do futebol brasileiro, mas não do futebol. Patrocina Boca Juniors e Racing na Argentina, onde também atua.

O ápice dessa disputa foi o contrato firmado pela Betano em agosto de 2025, o maior patrocínio da história do futebol brasileiro. A empresa investe R$ 268,5 milhões por ano para estampar a camisa do Flamengo. Ao fim dos 40 meses de contrato, o clube receberá R$ 895 milhões – cifra comparável a acordos de grandes equipes europeias. Ou seja, crise para alguns, abundância para outros.

Lucas Paquetá, jogador do Flamengo: patrocínio da Betano ajudou a viabilizar a contratação mais cara do futebol brasileiro
Lucas Paquetá, do Flamengo: patrocínio da Betano ajudou a viabilizar a contratação mais cara do futebol brasileiro (Divulgação)

Guilherme Figueiredo, diretor de relações institucionais da Betano no Brasil, afirma que os valores já consideram o novo cenário regulatório. “É um contrato planejado com visão de longo prazo”, diz. Além do Flamengo, a empresa adquiriu os naming rights do Brasileirão Série A e da Copa do Brasil.

Um novo imposto

O endurecimento regulatório acontece em meio a um debate que vai além da arrecadação. A rápida expansão das apostas esportivas trouxe também preocupações sociais, especialmente em relação ao vício em jogo e ao impacto financeiro sobre famílias endividadas. É nesse contexto que o Congresso discute novas formas de taxação e restrições ao setor.

A principal apreensão das empresas hoje é a possibilidade de aumento da carga tributária. Um projeto apelidado de Cide-Bets, em tramitação, prevê cobrança adicional de 15% sobre depósitos feitos pelos apostadores. Na prática, a cada R$ 100 depositados, apenas R$ 85 seriam convertidos em crédito para apostas.

Para Guilherme Figueiredo, da Betano, a medida pode empurrar consumidores para o mercado ilegal. “Não se faz contrato longo com clubes se há risco de encolhimento abrupto do mercado. Hoje a insegurança jurídica é o maior freio aos investimentos”, afirma. “Não existe nada parecido com essa cobrança em outros países.”

Outro projeto aprovado no Senado em 2025 propõe restringir publicidade de bets em clubes de futebol. A proposta aguarda análise na Câmara e adiciona mais uma camada de incerteza ao setor. Segundo executivos da área, essa incerteza é parte do recuo dos investimentos em marketing, incluindo o futebol.

A Estrela Bet ilustra o movimento de retração. Em 2024, patrocinava sete clubes. No fim de 2025, zerou todos os contratos. “Não sabemos se a tributação será mantida. Isso impede planejamento de longo prazo”, diz Felipe Fraga, diretor da Stellar Gaming, controladora da marca.

Waldir Eustáquio Marques Júnior, ex-secretário responsável pela regulação no governo Bolsonaro, avalia que os clubes se tornaram dependentes da receita das bets. “Os valores foram inflacionados. Com a insegurança jurídica afetando o caixa das empresas, o mercado pisou no freio”, afirma. Hoje ele atua na TQJ, a bet do Grupo Sílvio Santos.

O fim das bets no futebol?

Isso significa o fim das casas de apostas como protagonistas do futebol brasileiro? Provavelmente não. Diferentemente de marcas de consumo ou bancos tradicionais, o setor depende da popularidade do esporte para existir, já que ele é o grande tema das apostas. A tendência é que, passado o choque regulatório, os investimentos retornem — mas em valores mais compatíveis com a nova realidade do mercado.

“O setor contribuiu para elevar o nível do futebol brasileiro, mas os valores chegaram ao limite”, diz Felipe Fraga, da Stellar Gaming. “A indústria parece extremamente lucrativa, mas precisa gastar muito para sustentar essa arrecadação. A margem final é bem menor do que parece.”

O que muda, segundo executivos e reguladores, é o grau de euforia. O ciclo de expansão acelerada deu lugar a um mercado mais fiscalizado, mais caro e politicamente sensível. Se antes o dinheiro das bets irrigava o futebol sem freios, agora ele disputa espaço com impostos, pressão social e insegurança jurídica. 

O jogo continua, mas as odds já não são as mesmas.