A Bombardier se tornou o centro de uma nova tensão comercial depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou impor uma tarifa de 50% sobre aeronaves canadenses vendidas no mercado americano e retirar a certificação de todos os novos aviões fabricados no Canadá. O mercado dos Estados Unidos responde por cerca de 64% da receita da fabricante canadense em 2024.

A ameaça surgiu após Trump acusar o Canadá de se recusar a certificar determinados jatos da Gulfstream, já aprovados pela Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA). Em publicação na rede Truth Social, o presidente americano afirmou que poderia retaliar descertificando aeronaves canadenses, incluindo os jatos Global Express da Bombardier, além de impor tarifas punitivas.

O anúncio teve efeito imediato sobre o mercado: as ações da Bombardier chegaram a cair até 11% durante o pregão. A queda se soma a um período de forte volatilidade: no início da semana, os papéis recuaram cerca de 9% após um jato da companhia se acidentar durante a decolagem no estado do Maine (EUA), além de o papel ter sido rebaixado para “venda” pelo Goldman Sachs.

O que diz o governo canadense

Apesar da reação negativa do mercado, o governo canadense buscou reduzir as tensões. A ministra da Indústria do Canadá, Melanie Joly, afirmou que o processo de certificação dos jatos da Gulfstream pelo regulador de aviação do país está “bem encaminhado” e disse acreditar que as reclamações do governo Trump podem ser resolvidas.

“É do nosso entendimento que o processo de certificação está bem encaminhado e que as exigências de certificação são absolutamente recentes”, disse Joly em entrevista à Canadian Broadcasting. Segundo ela, a aprovação de aeronaves “é algo que não politizamos”, ressaltando o caráter técnico e regulatório do processo.

Analistas, por sua vez, divergem sobre a probabilidade de as ameaças se concretizarem. Para o TD Cowen, banco de investimento americano, mesmo que as medidas não avancem, o episódio tende a gerar pressão prolongada sobre o sentimento dos investidores e sobre os múltiplos de valuation da Bombardier e de outras empresas canadenses com forte exposição aos EUA. Ainda assim, o banco avalia que o segmento de defesa da companhia vinha apresentando melhora consistente desde o início de 2024.

Outros analistas classificaram as declarações de Trump como “ruído político”. O National Bank Financial destacou que o Canadá poderia facilmente retaliar certificando — ou descertificando — aeronaves americanas, além de lembrar que tarifas sobre o setor aeroespacial canadense também prejudicariam cadeias produtivas nos Estados Unidos. A retirada de certificações, segundo o banco, seria um movimento sem precedentes.

A Bombardier afirmou, em comunicado divulgado na noite de quinta-feira (29), que está ciente das declarações do presidente americano e mantém contato com o governo canadense. Disse ainda que emprega mais de 3.000 pessoas nos Estados Unidos e gera milhares de empregos adicionais por meio de cerca de 2.800 fornecedores no país.

As ameaças também provocaram reação de sindicatos. A Associação Internacional dos Maquinistas e Trabalhadores Aeroespaciais condenou a postura de Trump, alertando que tarifas e descertificação “causariam uma séria disrupção na indústria aeroespacial da América do Norte e colocariam milhares de empregos em risco em ambos os lados da fronteira”.

O sindicato também ressaltou preocupações com a segurança. “Ameaças de retirar a certificação de aeronaves canadenses são injustificadas e perigosas”, afirmou. “A certificação de aeronaves existe para garantir a segurança, não para servir como uma arma política ou econômica.