As discussões sobre como lidar com as crescentes pressões financeiras da Raízen se intensificaram nos últimos dias, à medida que investidores passaram a vender seus títulos diante do aumento da preocupação de que seus dois principais acionistas, Cosan e Shell, não cubram um déficit de quase US$ 4 bilhões.

Em reuniões realizadas nesta semana, a Raízen e seus assessores discutiram cenários potenciais que incluem um desconto sobre a dívida (haircut) em uma eventual reestruturação, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

A cisão de parte dos negócios, uma oferta de ações e uma injeção de capital também foram debatidas, disseram as fontes, que pediram anonimato porque as conversas são privadas. As discussões estão em estágio inicial e nenhuma decisão foi tomada, acrescentaram.

A Raízen vem enfrentando dificuldades para lidar com juros elevados, safras mais fracas do que o esperado e uma série de apostas ambiciosas — que vão do etanol de segunda geração ao combustível sustentável de aviação — que ainda não geraram retornos significativos. A empresa precisa de uma injeção de capital entre 20 bilhões e 25 bilhões de reais (US$ 3,8 bilhões a US$ 4,8 bilhões), segundo o UBS, em relatório divulgado no fim do ano passado.

As conversas entre os dois conglomerados se arrastam há meses sem uma solução, aprofundando as dificuldades da companhia.

O golpe mais recente veio nesta semana, depois que a Cosan informou que iria resgatar títulos que continham cláusulas explícitas de vencimento antecipado cruzado (cross-default) com a Raízen. Investidores interpretaram o movimento como um sinal de que o conglomerado estaria menos disposto a apoiar a produtora de açúcar e etanol e passaram a vender os papéis. Os títulos denominados em dólar caíram ao longo de toda a curva, com a dívida com vencimento em 2032 recuando mais de seis centavos nos últimos dois pregões.

A Shell, por sua vez, tem evitado injetar capital adicional sozinha porque isso elevaria sua participação na Raízen para mais de 50%, o que exigiria a consolidação da dívida da empresa em seu próprio balanço.

Já a Cosan ainda tenta se reorganizar após a aquisição de ações da Vale, que gerou prejuízos. Os recursos de um aumento de capital, no qual o BTG Pactual Holding se tornou acionista, não serão usados para capitalizar a Raízen, disseram as fontes, já que a própria Cosan precisa do dinheiro.

O BTG ganhou influência relevante nas discussões após investir 4,5 bilhões de reais na Cosan, mas já afirmou que não terá papel ativo na reestruturação financeira da Raízen. Segundo pessoas a par do tema, Rubens Ometto, fundador bilionário da Cosan, também é pouco provável que coloque recursos próprios.

Um porta-voz da Shell afirmou que a empresa reconhece os “desafios financeiros significativos” enfrentados pela Raízen e disse que continua trabalhando com as equipes de liderança da Raízen e da Cosan para apoiar a redução do endividamento e buscar “soluções equilibradas”.

Cosan e Raízen se recusaram a comentar.

Entre as opções em discussão está uma oferta de ações, mas assessores demonstram ceticismo quanto à capacidade da Raízen de atrair um investidor âncora para a operação. Uma divisão dos negócios — incluindo a separação da unidade de distribuição de combustíveis, que segue como um de seus ativos mais valiosos — também foi debatida, segundo as fontes.

Um empréstimo entre empresas do grupo chegou a ser considerado, mas a ideia foi abandonada por razões técnicas, acrescentaram.

Venda em massa

Os títulos em dólar da empresa geraram uma perda de 18% aos investidores nos últimos seis meses, e os papéis com vencimento em 2032 agora rendem 11%.

No JP Morgan, analistas elevaram a recomendação dos títulos na quarta-feira, citando uma “oportunidade tática” após a liquidação de terça-feira. Em nota, o banco afirmou que a Raízen conta com liquidez confortável, um plano em andamento de venda de ativos e expectativa de melhora no fluxo de caixa, classificando a queda como uma “reação exagerada”.

A Raízen lida atualmente com 53,4 bilhões de reais em dívida líquida, segundo seu último balanço — a próxima divulgação de resultados está prevista para 12 de fevereiro. Esse endividamento está distribuído entre detentores de títulos, fundos de crédito e os maiores bancos de varejo do Brasil.

A S&P já rebaixou a nota da empresa para BBB-, com perspectiva negativa, enquanto a Moody’s Ratings cortou a classificação para grau especulativo (junk), citando a deterioração das métricas de crédito e fluxos de caixa negativos.

“Com um dos patrocinadores tentando preservar caixa ou priorizar retornos, e o outro provavelmente usando qualquer recurso levantado para reduzir dívida, uma injeção menor de capital próprio já deveria ser considerada”, afirmou Nicolas Giannone, analista da Balanz UK. “Somado aos preços ainda fracos do açúcar e à ausência de novidades sobre a venda da operação na Argentina, o cenário está montado para uma liquidação.”