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Uma das maiores gestoras globais de private equity, a Bain Capital, assumiu o controle de um megacomplexo de cassinos e hotéis na Coreia do Sul após executar uma dívida e afastar os fundadores originais do projeto — e agora tenta negociar uma saída para um impasse que envolve até um grupo indígena norte-americano. 

O ativo em disputa, de acordo com reportagem do Financial Times, é o Inspire Resort, um empreendimento de US$ 1,6 bilhão inaugurado em 2024 próximo ao aeroporto internacional de Incheon, que reúne três hotéis cinco estrelas, uma arena de K-pop para 15 mil pessoas e um cassino voltado exclusivamente a estrangeiros.

O projeto foi desenvolvido ao longo de quase uma década pela tribo Mohegan, dona de um grande cassino nos Estados Unidos e proprietária de uma reserva de 600 acres no Estado de Connecticut. O Inspire foi a primeira grande aposta internacional do grupo fora da América do Norte.

O controle, porém, mudou de mãos no início de 2025.

A Bain Capital, que havia fornecido US$ 275 milhões em financiamento para o empreendimento, decidiu executar o contrato e antecipar o vencimento da dívida após o grupo indígena Mohegan não cumprir metas de desempenho financeiro previstas em cláusulas contratuais. 

Com isso, a gestora assumiu o controle do ativo — incluindo a licença de operação do cassino e obrigações bilionárias de refinanciamento e investimento.

Reaproximação após ruptura

Agora, segundo fontes próximas às negociações ouvidas pelo FT, a Bain voltou à mesa com a nova liderança da tribo Mohegan para discutir uma possível reintegração do grupo ao projeto.

“Colocamos tempo, capital e esforço nesse projeto ao longo de dez anos. Temos interesse claro em ver esse investimento prosperar”, disse Bobby Soper, presidente internacional da Mohegan. “Estamos em diálogo com a Bain e esperamos chegar a uma solução que faça sentido para ambos — mas não a qualquer preço.”

Hotel Inspire, na Coreia do Sul, é controlado hoje pels gestora americana Bain
Hotel Inspire, na Coreia do Sul, é controlado hoje pels gestora americana Bain (Divulgação)

A própria Bain afirmou que tem trabalhado para fortalecer a operação e melhorar a experiência dos clientes, e que segue focada no sucesso de longo prazo do resort.

Um mercado difícil

O mercado de cassinos na Coreia do Sul tem características peculiares: apenas um cassino no país é permitido a receber clientes locais. Todos os demais dependem quase exclusivamente de turistas estrangeiros, sobretudo chineses.

Executivos do setor ainda apostam em uma recuperação da demanda em 2026, impulsionada pela retomada do fluxo de turistas chineses e pelo restabelecimento recente da política de isenção de vistos para grupos vindos da China.

Mesmo assim, o desempenho do Inspire ficou aquém do esperado.

Inspire Arena: complexo alvo de disputa societária entre Bain e tribo Mohegan
Inspire Arena: complexo alvo de disputa societária entre Bain e tribo Mohegan (Divulgação)

Após um início promissor no fim de 2023 — que ajudou a Mohegan a reportar receitas recordes no segundo trimestre de 2024 — o resort perdeu tração no começo de 2025. A operação sofreu tanto com dificuldades para fidelizar clientes quanto com fatores externos, como a queda do turismo após a crise política gerada pela tentativa fracassada do então presidente sul-coreano de impor lei marcial em dezembro de 2024.

Houve ainda problemas operacionais. Pessoas familiarizadas com o projeto afirmaram à reportagem que a Mohegan subestimou diferenças culturais do público asiático, incluindo falhas em aspectos básicos, como acessibilidade por transporte público.

Para a própria Bain, o negócio acabou se revelando mais complexo do que o esperado. “Eles queriam reduzir a exposição, mas acabaram ficando com muito mais responsabilidade do que imaginavam”, disse uma fonte envolvida nas conversas.

Projeto volta ao azul

Apesar da turbulência, pessoas próximas à Bain dizem que o resort voltou ao lucro operacional, com aumento recente no número de visitantes e na receita do cassino.

A Mohegan afirma já ter investido mais de US$ 300 milhões em capital próprio no projeto e diz que qualquer retorno — seja como acionista, operadora ou ambas — ainda depende de negociações.

“Há reivindicações pendentes dos dois lados”, disse Soper. “Talvez a solução seja voltar ao projeto como sócios, gestores ou as duas coisas. Mas isso ainda está em discussão.”