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Mercado ainda cobra solução para dívida do GPA após ‘alívio temporário’

Ação da varejista acumula maior alta do Ibovespa em 2024, em meio a rumores sobre aumento de capital.

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Uma questão técnica, rumores sobre diluição, mas também expectativa de alguma notícia que mude efetivamente os rumos da empresa. Esse é o pano de fundo do movimento da ação do Grupo Pão de Açúcar (PCAR3), que acumula em 2024 até agora a maior alta do Ibovespa, com quase 13%. Enquanto o debate no curto prazo é se a empresa vai passar por um aumento de capital, a preocupação de analistas ainda é a contínua queima de caixa e o risco de derrubar por terra a recente melhora nos indicadores de endividamento após a venda de ativos.

Unidade da rede de supermercados Pão de Açúcar, em São Paulo. (Foto: Karina Trevizan)

Nos últimos dias, investidores reagem a especulações sobre um aumento de capital do Pão de Açúcar e um possível adiamento da operação. Por isso, agora as atenções estão voltadas para a reunião marcada para a próxima segunda-feira (22), quando a administração de GPA deve tratar do tema.

A expectativa é por uma proposta de forte alteração, passando dos 400 milhões de ações ordinárias atuais para até 800 milhões. O movimento seria intenso, mas neste momento está se refletindo na bolsa de valores mais por posições de investidores apostando na queda de PCAR3 do que por uma perspectiva de melhora nos resultados – pelo menos por enquanto. 

“As ações do Pão de Açúcar estão entre as mais alugadas no mercado. Ou seja, tem muita gente apostando contra há muito tempo. E posições grandes. Quando tem um movimento de valorização, essas posições vendidas automaticamente têm que ser ‘stopadas’, o que acaba gerando movimento que a gente chama de ‘short squeeze’. Provavelmente foi isso que aconteceu recentemente”, explica Marco Saravalle, analista e sócio-fundador da Sara Invest. 

A despeito desse sobe e desce no mercado financeiro, a companhia segue em busca de medidas para reduzir seu endividamento de forma mais estrutural após o alívio momentâneo da sequência de venda de ativos em 2023

Unidade do supermercado Éxito em Medellín, Colômbia 30/05/2019 REUTERS/Luisa Gonzalez

Os últimos números ajudam a entender a situação: entre o segundo e o terceiro trimestre de 2023, GPA teve a maior redução nominal de sua dívida total, para R$ 10,8 bilhões – uma redução de 22%, atrás somente dos 51% de Natura, segundo levantamento feito por especialistas do Investing.com. 

Mas especialistas alertam que os dados mostram uma parte pequena da realidade, que poderia ser encarada mais como uma corrida contra o tempo: enquanto o efeito da injeção de recursos pela venda de ativos durar, a empresa precisa encontrar uma forma de voltar a operação para o azul, apontam eles.

“A melhora do endividamento tem vindo muito mais por venda de ativos do que qualquer outra coisa. A companhia teve a venda da participação dela do Éxito, teve venda do imóvel no Rio de Janeiro também, com um valor relevante que entrou no caixa. Ela também fez operações de ‘sale and leaseback’, que é vender imóveis para na sequência pegar alugado, também para fazer caixa”, lista Leonardo Piovesan, analista fundamentalista da Quantzed. 

Isso tem reduzido o endividamento, complementa ele. “Porém, do ponto de vista operacional, a companhia continua gerando fluxo de caixa operacional negativo. Dá para colocar que ela continua queimando caixa, tendo prejuízo”.

O Pão de Açúcar teve um prejuízo líquido consolidado de mais de R$ 1,2 bilhão no terceiro trimestre de 2023, cravando o sexto resultado negativo seguido e consolidando uma piora na comparação com os resultados anteriores. 

Nesse cenário, Lucas Rietjens, analista da Guide Investimentos, aponta que “quando a gente olha para essa redução do endividamento do GPA, ele é positivo, mas do ponto de vista qualitativo, não é a melhor maneira de reduzir o endividamento”. 

A comparação entre a geração de caixa e a dívida do GPA mostra que os resultados têm ficado acima do segmento no qual a varejista opera. De acordo com levantamento feito pela plataforma Valor Pro, a relação entre dívida líquida e Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) em 12 meses estava em 9,83 no 3º trimestre, contra 1,8 do setor.

Solução de liquidez, problema de solvência

A movimentação de PCAR3 veio na esteira de rumores de que a varejista não teria pressa em colocar de pé a operação de aumento de capital. E analistas apontam que a hipótese faz sentido. Ainda à luz do balanço mais recente: dois indicadores ajudam a entender por que o endividamento ainda preocupa, embora não no curtíssimo prazo. 

O primeiro é a liquidez corrente, que aponta a capacidade da empresa em honrar seus compromissos de curto prazo. Embora tenha recuado, no 3º trimestre a liquidez de GPA estava em 1,32, sendo que o indicador acima de 1 aponta para uma situação saudável. 

Por outro lado, a relação entre a dívida líquida da empresa e seu patrimônio líquido saltou de 27,12 no mesmo período de 2022 para 46,05, segundo dados do Valor Pro. Isso representa um sinal de alerta para o longo prazo, como explica Rietjens.

“O mercado todo sabe que a companhia está endividada, ela não tem problema de liquidez, ou seja, consegue cumprir com suas obrigações de curto prazo, mas o problema é a solvência.”

Lucas Rietjens, analista da Guide Investimentos.

Rietjens acrescenta que o GPA possui basicamente uma dívida de longo prazo que o mercado acredita ter dificuldades de pagar. “Isso não é um problema hoje, é um problema para o futuro, mas é um problema”.

Perspectivas para o GPA

O momento do mercado é de cautela com Pão de Açúcar, com muitas indefinições sobre os rumos da empresa – embora especialistas vislumbrem algumas hipóteses. Uma delas é que o possível aumento de capital possa ter algum impacto sobre a composição da diretoria e, assim, a operação da empresa. 

“Por ser aumento de capital grande, pode significar a transformação da empresa numa Corporation, com o Casino deixando de ser o controlador da empresa, tendo a sua participação diluída”, comenta Piovesan. “É uma empresa que está bem complicada lá na França em questão de dívida, já sinalizou que não vai acompanhar esse aumento de capital, vai deixar se diluído”, acrescenta sobre o controlador. 

“Pode ter uma melhora de governança corporativa ali, uma troca do conselho, talvez troca da diretoria. Isso pode representar uma virada de jogo para os resultados futuros da companhia”. 

Leonardo Piovesan, CNPI e analista fundamentalista da Quantzed. 

Já Saravalle, da Sara Invest, comenta a expectativa de recuperação do varejo de forma mais ampla após as dificuldades dos anos anteriores, “até por conta de alguns fatores sazonais”, o que gera “perspectiva de resultados melhores” para o Pão de Açúcar. 

Diante disso, outro ponto importante é como a empresa vai se posicionar no mercado, aponta Gustavo Cruz, estrategista da RB investimentos.

“O Pão de Açúcar promete voltar a ficar com uma imagem mais ‘premium’, o que daria espaço para aumentar as margens nos próximos anos, e de fato existe um espaço para isso. Serviços e produtos mais diferenciados, com margens mais altas. Mas de qualquer forma, é mais uma expectativa.”

Gustavo Cruz, estrategista da RB investimentos.

Mesmo com o cenário ainda incerto, Rietjens, da Guide, já vê um sinal de melhora com a expansão da margem bruta de Pão de Açúcar no último balanço, para 25,1% (alta de 1,3 ponto percentual na comparação com 2022). 

“A empresa vem há algum tempo apresentando resultados fracos. Mas nesse resultado do terceiro trimestre, apresentou uma melhora significativa. Teve uma melhora na operação, as margens melhoraram”, opina. 

O analista acredita que “essa melhora deve seguir no resultado do quarto trimestre”, e diz que “eles podem estar perto ou já ter passado por um ponto de inflexão em termos de resultado”. No entanto, ele repete o alerta: “O resultado ainda segue muito pressionado pelo endividamento”. 

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