A Bloomberg informou na terça-feira (17) que a empresa, com sede em Londres, está nos estágios iniciais de avaliação da separação total ou parcial de seu negócio de alimentos, embora nenhuma decisão tenha sido tomada, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
Caso ocorra, a mudança poderia marcar o fim do papel quase centenário da Unilever em competir com gigantes do setor alimentício como Kraft Heinz, Nestlé e PepsiCo, transformando a multinacional em uma companhia focada em produtos de higiene pessoal e cuidados domésticos, comparável a L’Oréal SA, Beiersdorf AG e Estée Lauder.
Decisões desse tipo poderiam simplificar a linha de produtos e mercados da Unilever, permitindo que a gestão se concentre no crescimento, segundo analistas. Também poderia gerar fundos para investir nas marcas da empresa e fornecer caixa para os acionistas.
Fernandez, no cargo há um ano, deixou claro que vê beleza, cuidados pessoais e bem-estar como chave para o crescimento futuro. Ele pretende gerar dois terços do faturamento da Unilever com marcas como sabonete Dove, sachês de hidratação Liquid IV e cuidados com a pele Dermalogica no médio prazo, ante cerca de metade atualmente.
Representantes da Unilever se recusaram a comentar.
Os mercados de beleza e bem-estar são cada vez mais atraentes para multinacionais, à medida que os consumidores compram produtos de cuidados com a pele, vitaminas e sabonetes para manter a saúde e parecerem mais jovens por mais tempo. Muitas marcas de alimentos, por outro lado, enfrentam ameaças de medicamentos para perda de peso e crises de acessibilidade em mercados importantes como os EUA, tornando-se menos atraentes.
“Estamos realmente deslocando nosso portfólio para mais beleza, mais bem-estar, mais cuidados pessoais”, disse Fernandez na conferência Consumer Analyst Group of New York no início deste ano. “Urbanização, expansão da riqueza, grande entrada de mulheres no mercado de trabalho, baixa taxa de fertilidade, adoção massiva de estilos de vida saudáveis — tudo isso favorece essas categorias.”
Uma mudança que já vem sendo planejada
O afastamento dos alimentos pela Unilever já tem quase uma década. A empresa vendeu seu negócio de spreads em 2017, a divisão de chás em 2021 e desmembrou a operação de sorvetes no ano passado. As mudanças deixaram a empresa com Hellmann’s e cubos de caldo Knorr, além de produtos populares localmente como Marmite.
Mesmo assim, sair do setor de alimentos seria um passo importante, independentemente de há quanto tempo a empresa planeja isso. Nem todos, no entanto, estão convencidos de que seja o momento certo.
Warren Ackerman, analista do Barclays, argumenta que não é hora de outro processo longo de desmembramento que distraia a gestão e investidores. A prioridade deve ser reforçar o sucesso da Hellmann’s, melhorar a marca Knorr e “concluir a limpeza” das operações de alimentos restantes.
Ainda assim, ele reconhece que o futuro da Unilever está em beleza e bem-estar, e que há benefícios potenciais em reduzir ou desmembrar o negócio de alimentos futuramente.
“Em algum momento, a Unilever precisará arrancar o band-aid, e pode-se argumentar que nunca há um bom momento, mas não achamos que o timing seja agora, dado tudo o que está acontecendo”, escreveu.
O grupo de consumo está conversando com consultores enquanto estuda opções para simplificar seu vasto portfólio, informou a Bloomberg. As possibilidades incluem desmembrar completamente o negócio de alimentos ou manter algumas marcas principais enquanto separa o restante, embora um acordo possa não ser feito antes de 2027, disseram fontes.
O Barclays estima que a divisão de alimentos da Unilever tem valor patrimonial entre €28 bilhões e €31 bilhões (US$ 32,3 bilhões).
Desde seus primeiros dias, a Unilever tinha raízes tanto em alimentos quanto em cuidados pessoais. A multinacional foi criada em 1929, quando a Lever Brothers, do Reino Unido, fundiu seu negócio de sabonetes com a produtora de margarinas Margarine Unie, da Holanda.
Desinvestimentos recentes
A Unilever vendeu a maior parte do negócio de margarinas de origem holandesa em 2017, incluindo marcas como Flora e I Can’t Believe It’s Not Butter!, para a KKR & Co. Na época, o ex-CEO Paul Polman afirmou que a medida ajudaria a “redefinir e focar” o vasto portfólio de marcas.
Desde então, a Unilever vem se desfazendo de marcas de alimentos. A maior parte da divisão de chás, incluindo Lipton, PG Tips e TAZO, foi vendida para a CVC Capital Partners em 2022. Algumas marcas asiáticas foram mantidas, mas começaram a ser vendidas no início deste ano.
Fernandez, promovido de CFO a CEO para acelerar a recuperação da empresa, completou o desmembramento da divisão de sorvetes, incluindo Ben & Jerry’s e Cornetto. A Magnum Ice Cream Co. abriu capital no final de 2025, e a Unilever manteve quase 20% que pretende vender nos próximos anos.
Outras marcas também foram descontinuadas, como Vegetarian Butcher e Graze. Restaram produtos locais, como a mostarda britânica Colman’s, a maionese francesa Amora e as geleias indianas Kissan.
Marcas-chave
A grande questão é o que a Unilever fará com Hellmann’s e Knorr, suas duas marcas de alimentos mais fortes fora dos mercados locais. Entre as 30 “marcas poderosas” da Unilever, elas geram atualmente 60% das vendas de alimentos. Caso a empresa se desfaça de outras marcas já identificadas para venda, essa proporção subirá para 70% a 75%.
Hellmann’s tem forte participação nos EUA e Brasil, e suas novas linhas de maioneses saborizadas vendem bem. Knorr tem enfrentado dificuldades nos últimos anos, especialmente na Europa.
Sair do setor de alimentos reduziria o portfólio de produtos e geraria fundos para expandir os negócios de cuidados pessoais e domésticos, disse o analista David Hayes, da Jefferies.
Também poderia desbloquear valor para acionistas, segundo Joachim Klement, analista da Panmure Liberum. “A divisão de alimentos da Unilever tem tido mais dificuldades do que Nestlé ou Danone em se adaptar às mudanças no consumo”, escreveu, e uma venda poderia trazer “o foco muito necessário para a gestão da Unilever”.