Exemplo disso foi o acordo firmado entre a BYD e a Localiza nos últimos dias que envolve a venda de 10 mil unidades nos próximos dois anos. O contrato escoa cerca de 5% da produção anual da BYD no país, levando em consideração números do mercado em 2025, e tem o potencial de ser um game changer para as fabricantes de veículos híbridos e elétricos.
“Esse é um marco muito relevante para a gente. É mais uma forma de desmistificação, levando o carro elétrico para as locadoras”, disse Alexandre Baldy, vice-presidente sênior e head de marketing da BYD, ao InvestNews. Segundo ele, haviam apenas compras ‘spots’ (ou pontuais). “Agora, com essa parceria com a Localiza, nós entramos para valer nesse mercado.”
Em 2025, foram emplacados 223.192 mil carros eletrificados no Brasil. A BYD sozinha emplacou 111.683 veículos leves, puxados pelos modelos Dolphin Mini e Song Pro Plus.
Em outubro passado, a montadora chinesa inaugurou em Camaçari, na Bahia, a maior fábrica de veículos elétricos da América Latina. A unidade opera hoje com capacidade para produzir 300 mil veículos ao ano, mas a ideia é que esse montante dobre em breve. Ou seja, com a escala, é preciso olhar para outras formas de venda.
Quem também está procurando criar laços com as locadoras é a GWM, que anunciou recentemente o investimento em uma segunda fábrica no país. Hoje, a empresa de origem chinesa tem um complexo fabril em Iracemápolis, no interior de São Paulo, onde tem capacidade para entregar cerca de 50 mil carros por ano. Agora, promete investir R$ 10 bilhões no país até 2032.
A chinesa Geely, que adquiriu participação na francesa Renault, deve ser a próxima asiática a começar a produzir no país. Além dela, neste ano, os carros da Leapmotor, da Stellantis, a dona da Fiat, também ocuparão parte da produção da empresa no complexo de Goiana, no Pernambuco.
“As novas tecnologias, que chegam através da Leapmotor agora, seguramente vão nos dar a chance de também ampliar a nossa cobertura de mercado e buscar clientes, consumidores, que até pouco tempo não olhavam para nós”, disse Herlander Zola, presidente da Stellantis para América do Sul, em evento da montadora em dezembro.
Desmistificação
A desmistificação, citada por Baldy, tem a ver com um interesse do público e das locadoras em investir em um carro elétrico. É que ainda há uma predileção por carros a combustão para viagens mais longas por conta da falta de carregadores nas ruas e nas estradas. Só com eles pode-se aproveitar todo o potencial de um elétrico ou híbrido plug-in quando não dá para carregar na garagem de casa.
“Fechar um acordo de 10 mil veículos eletrificados, independentemente da marca, mostra que o público está ávido para testar esse tipo de veículo. É um primeiro caminho para que isso se torne algo mais popular”, afirma Milad Kalume Neto, diretor-executivo da K.Lume Consultoria Automobilística.
O acordo da BYD com a Localiza se deu após um período de testes de um ano. Agora, a tendência é que ele abre espaço para que outras montadoras de híbridos e elétricos acessem esse tipo de mercado e encontrem oportunidades parecidas com as locadoras brasileiras.
Segundo a Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis, a Abla, o segmento de veículos eletrificados é o que mais cresce. As locadoras terminaram 2024, último ano com dados disponíveis, com uma frota de 14.951 automóveis e comerciais leves eletrificados, crescimento de 77,4% na comparação com o ano anterior. Desse montante, 54,6% é de veículos híbridos.
Naquele ano, as locadoras emplacaram 7.895 carros eletrificados 0 km, 108,5% a mais do que em 2023. Desse total de compras, 54,2% foram veículos híbridos.
“Realmente, a parceria com montadoras que produzem híbridos e elétricos é uma tendência que agora começa a se transformar cada vez mais em realidade”, diz Paulo Miguel Júnior, vice-presidente da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis, a Abla. “Apesar disso, é preciso levar em consideração que os veículos híbridos e elétricos ainda são, em média, mais caros para as locadoras do que os veículos a combustão.”