Pelo acordo, a Amazon manterá cerca de 80% do volume atual de entregas com o USPS, o que representa mais de 1 bilhão de pacotes por ano. Os termos financeiros não foram divulgados.
Para entender a importância do contrato, é preciso saber que o USPS vive uma crise existencial. Diferentemente dos Correios brasileiros, a agência americana não recebe repasses do governo federal — ela precisa se sustentar com receita própria. E não tem conseguido. As perdas se acumulam ano após ano, e o diretor-geral, David Steiner, já alertou o Congresso de que a agência pode simplesmente ficar sem dinheiro no início do próximo ano.
Nesse cenário, a Amazon não é apenas o maior cliente do USPS — é o cliente do qual a agência não pode se dar ao luxo de perder. O contrato funciona como uma rede de proteção financeira em um momento em que Steiner tenta de tudo para equilibrar as contas: já pediu ao Congresso a elevação do limite de endividamento da agência e passou a leiloar acesso às suas instalações de entrega para uso de transportadoras privadas. A Amazon disse ter participado quando a concorrência foi aberta, em fevereiro.
“Estamos satisfeitos por termos alcançado um novo acordo com o USPS que dá continuidade à nossa parceria de longa data e nos permitirá seguir apoiando nossos clientes e comunidades juntos”, afirmou o porta-voz da Amazon, Terrence Clark, em comunicado. O USPS não respondeu a pedido de comentário.
Mas a dependência não é unilateral. A Amazon também precisa do USPS — e muito — para cumprir uma promessa que vem fazendo aos investidores: entregar rápido em qualquer canto dos Estados Unidos, inclusive nas vastas áreas rurais onde nenhuma transportadora privada opera de forma economicamente viável.
Hoje, a empresa depende de uma combinação entre seus próprios motoristas terceirizados e a capilaridade dos Correios americanos para cobrir a chamada “última milha” nessas regiões. No ano passado, anunciou um investimento de US$ 4 bilhões para reduzir os prazos de entrega no interior do país — uma ofensiva que inclui recrutar donos de pequenos negócios em cidades do interior como entregadores de meio período, como fonte de renda extra.
Até o fim deste ano, a Amazon planeja ter 200 centros de distribuição rural em operação, onde pacotes são preparados para o trecho final até a porta do cliente. É uma malha logística ambiciosa, mas que ainda depende do USPS para funcionar.
O acordo, em resumo, revela uma codependência: a Amazon mantém o USPS financeiramente viável, e o USPS dá à Amazon acesso a uma infraestrutura de entrega que seria caríssima de replicar sozinha. Para o leitor brasileiro, habituado a debater o futuro dos Correios, o caso americano oferece um paralelo instrutivo: quando o serviço postal de um país se torna economicamente insustentável, são os grandes clientes privados — e os termos que eles negociam — que acabam definindo o destino da instituição.