O CEO da Glencore, Gary Nagle, disse que as maiores mineradoras do mundo precisam ganhar escala para que suas vozes sejam ouvidas, à medida que os metais e commodities que produzem se tornam cada vez mais politizados.

“Como indústria, precisamos ser mais relevantes. Relevância e tamanho são importantes”, afirmou Nagle ao anunciar os resultados anuais da empresa. “Todas as companhias são um pouco irrelevantes.”

Os comentários de Nagle vêm menos de duas semanas após fracassarem as negociações entre a Rio Tinto Group e a Glencore, encerrando por ora um acordo que teria criado a maior mineradora do mundo. As conversas ruíram depois que as duas partes não chegaram a um consenso sobre o prêmio que a Rio deveria pagar.

Executivos das maiores mineradoras, incluindo a BHP Group e a Rio, têm demonstrado preocupação crescente com as avaliações estagnadas de mercado, que deixaram o setor mais à margem tanto de investidores quanto de políticos. Ambas tentaram adquirir rivais menores nos últimos dois anos.

A BHP, número 1 do setor, já foi uma das empresas mais valiosas do mundo, mas hoje seu valor de mercado, de US$ 188 bilhões, é ofuscado pelas gigantes de tecnologia. Nagle afirmou que é muito mais difícil para a indústria de mineração ser ouvida em Washington quando comparada a empresas como a Tesla e a Nvidia.

“Ser visto como um ator central por esta administração seria mais fácil”, disse o CEO da Glencore, que tem valor de mercado de cerca de US$ 80 bilhões — menos de um quinquagésimo do tamanho da Nvidia.

Foco político

O setor de metais e mineração tornou-se um foco político nos últimos anos, à medida que sucessivos governos dos EUA buscam retomar parte do controle frente à China, que domina o processamento e o refino da maioria dos metais.

Embora reduzir a dependência dos EUA em relação à China seja há muito tempo um objetivo de Washington, o tema ganhou urgência no ano passado, após Pequim anunciar restrições à exportação das chamadas terras raras.

No início deste mês, o presidente Donald Trump anunciou planos para lançar um estoque estratégico de minerais críticos de US$ 12 bilhões, chamado Project Vault. Nagle afirmou na quarta-feira que a Glencore participará do projeto, sem dar mais detalhes.

A indústria de mineração tem sido marcada por uma onda de fusões e aquisições nos últimos anos, à medida que os maiores produtores buscam ampliar sua exposição ao cobre — metal crucial para a transição energética e que está sendo negociado próximo a recordes históricos. Ainda assim, com exceção de uma combinação entre a Anglo American e a Teck Resources, as maiores companhias ainda não conseguiram fechar grandes acordos.

Rio e Glencore iniciaram conversas em meados de dezembro, mas as discussões foram encerradas em 5 de fevereiro, após as partes não chegarem a um acordo sobre a avaliação. A Glencore buscava uma relação de troca de ações que daria a seus investidores cerca de 40% da empresa combinada, segundo pessoas familiarizadas com o assunto na época. A Rio desistiu por não conseguir justificar o prêmio implícito nessa proposta.

Nagle afirmou que, para grandes negócios funcionarem no setor de mineração, é preciso haver concessões de ambos os lados. Ele também disse que os investidores deveriam ser mais vocais se quiserem que acordos aconteçam.

A Glencore informou ainda nesta quarta-feira uma leve queda no lucro anual, já que os preços recordes do cobre não foram suficientes para compensar a redução dos ganhos nas amplas operações de carvão da companhia.