A maior produtora de petróleo da América Latina, a Petrobras, está se movendo para conter a inflação de energia impulsionada pela guerra em um ano eleitoral, alinhando-se aos esforços do governo — o que pode sair pela culatra e levar à escassez de diesel no Brasil.

A estatal está vendendo combustíveis abaixo dos preços internacionais, pressionando importadores e contribuindo para uma forte queda na entrada de diesel no país, o que pode levar à redução dos estoques.

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva também cortou impostos e introduziu subsídios para o diesel, em contraste com países como Chile, que reagiram à alta do petróleo elevando os preços dos combustíveis.

“A situação em que o governo se colocou — tanto com subsídios quanto com a Petrobras segurando preços — é o pior dos dois mundos”, disse Pedro Rodrigues, sócio da consultoria CBIE, com sede no Rio de Janeiro. “Se os preços continuarem subindo ou permanecerem elevados por mais tempo, isso cria risco de escassez.”

As importações de diesel pelo Brasil caíram cerca de 60% no início de março, e a reguladora ANP alertou para um risco “excepcional” no abastecimento.

Nas últimas semanas, o governo Lula tem corrido para conter os impactos nos combustíveis. Autoridades reduziram impostos federais sobre importação e venda de diesel, ao mesmo tempo em que criaram uma taxa sobre exportações de petróleo bruto para compensar a perda de arrecadação. A administração também adotou medidas para garantir fretes mínimos, embora persistam preocupações com uma possível greve de caminhoneiros.

Desde o início da guerra, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, tem reiterado que não há risco de desabastecimento. Ela também prometeu não repassar a volatilidade dos preços ao mercado brasileiro e maximizar a produção doméstica — uma diretriz da estratégia da empresa desde a volta de Lula ao poder.

Os preços do diesel no atacado da Petrobras estão atualmente cerca de 65% abaixo da paridade internacional, enquanto a gasolina tem desconto de cerca de 45%, segundo a associação de importadores Abicom.

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O Ministério de Minas e Energia não respondeu a pedidos de comentário. A Petrobras também não comentou.

A pressão para conter os preços limita os ganhos extraordinários da Petrobras com a alta do petróleo e evidencia os riscos de investir em uma empresa frequentemente pressionada a gerar empregos e oferecer energia acessível. Os esforços do governo para suavizar os impactos econômicos da guerra no Irã também podem inquietar os mercados, caso sejam vistos como intervencionismo.

Os esforços de Lula podem não ser suficientes. O presidente está tecnicamente empatado com o principal candidato da oposição, e a guerra no Irã trouxe o risco de inflação energética para um país onde a riqueza do petróleo sempre sustentou expectativas de combustível barato. Caminhoneiros frequentemente ameaçam bloquear rodovias diante de aumentos abruptos no preço do diesel.

“Até duas semanas atrás, a economia não era o tema central da eleição. Isso mudou”, disse o analista político Thomas Traumann. “Agora estamos falando de uma crise do diesel.”

A mudança também já afeta os mercados. Desde o início do conflito, economistas revisaram para cima as expectativas de inflação, com preocupações especialmente nos setores de alimentos e transporte — altamente sensíveis ao custo do diesel.

A ANP alertou, em nota técnica, para um risco “excepcional” no abastecimento de combustíveis, citando sinais iniciais de pressão, como dificuldades para obter diesel em algumas regiões.

A incerteza pode significar juros mais altos por mais tempo. Apesar da pressão do governo por cortes, o banco central adotou recentemente uma postura mais cautelosa, citando novos riscos externos para a meta de inflação de 3%, mesmo com a taxa básica no maior nível em quase duas décadas.

“As perspectivas para a inflação de alimentos nos próximos meses já eram desafiadoras — esse choque no diesel só piora a situação”, disse Flavio Serrano, economista-chefe do Banco BMG.

Os estoques de diesel podem se esgotar em cerca de três meses se os preços domésticos permanecerem abaixo dos níveis internacionais, disse Marcus D’Elia, sócio da Leggio Consultoria.

“Estoques limitados de diesel, devido à ausência de uma política estratégica de armazenamento no Brasil, podem de fato levar a uma crise de abastecimento”, afirmou. “Essa diferença de preços reduz o incentivo para importadores trazerem o produto ao país.”