No interior do Texas, onde leilões de gado ainda definem o pulso do mercado, vacas que há cinco anos valeriam metade do preço agora são vendidas rapidamente para abate. O incentivo financeiro é grande demais para muitos pecuaristas resistirem.
O problema é que vender matrizes hoje significa menos oferta de gado amanhã.
Encolhimento
Os EUA têm hoje 86,2 milhões de cabeças de gado, segundo o Departamento de Agricultura (USDA). No auge dos anos 1970 eram mais de 130 milhões. É o menor rebanho desde 1951, período em que a população americana era menos da metade da atual.
A lógica econômica sugeriria expansão da quantidade de animais diante de preços mais altos. Mas a pecuária não funciona como uma linha de produção. Reconstruir um rebanho leva anos. Uma novilha retida para reprodução só produzirá bezerros comercializáveis depois de dois a três anos. É uma aposta de longo prazo em preço e clima.
E o clima tem sido cruel. Grande parte do Texas enfrenta seca desde 2020. Custos de ração e suplementos dispararam 55% no período. Muitos produtores reduziram o plantel para sobreviver. E isso se traduz em decisões duras dentro dos ranchos. “Pecuarista cria grama, não carne”, resume Caroline Runge, cuja família cria gado há gerações.
Reconstruir o rebanho exige segurar novilhas para reprodução – o que significa abrir mão de receita hoje por um retorno incerto daqui a anos. “É uma aposta em preço e em chuva”, diz Runge.
A pecuarista Dora Wright vive o mesmo dilema. Seu rancho encolheu 20% após uma seca devastadora em 2011 e ainda não se recuperou totalmente. Pela primeira vez em anos, ela pretende reter novilhas. “Mas quem decide é o pasto”, afirma.
Reconstruir o rebanho depende de chuva – e de sucessão familiar. Muitos pecuaristas trabalham com retorno financeiro mínimo. A valorização das terras, impulsionada por compradores urbanos em busca de propriedades de lazer, torna mais lucrativo vender o rancho do que operar gado.
“Se tivéssemos que pagar imposto sobre o valor de mercado da terra, não conseguiríamos continuar”, prossegue a pecuarista Caroline Runge. A nova geração precisa escolher entre a vida dura do campo e empregos urbanos mais previsíveis. E o ciclo do boi depende dessa decisão.
Frigoríficos sob pressão
O aperto não está apenas no campo. O abate nos EUA é dominado por quatro grupos que controlam mais de 80% do mercado: as brasileiras JBS e National Beef (da MBRF) e as americanas Tyson Foods e Cargill.
Apesar das acusações frequentes de concentração de mercado, os frigoríficos hoje operam com capacidade ociosa por falta de gado. Segundo Andrew Strelzik, analista da BMO Capital Markets, o setor tem perdido centenas de milhões de dólares em função da escassez.
A Tyson deve registrar o terceiro ano consecutivo de prejuízo na divisão de carne bovina e fechou recentemente uma planta em Nebraska. Já a JBS, que listou ações nos EUA no ano passado, negocia a múltiplos baixos justamente por sua exposição ao ciclo do boi.
Analistas do UBS apostam em recuperação de margens somente no médio prazo.
Restaurantes espremidos
Entre as grandes redes de restaurantes, tem sido possível repassar os custos para os clientes, mas comércios menores não estão conseguindo e vivem uma crise sem precedentes.
O Barn Door, churrascaria tradicional de San Antonio, vende um ribeye de 425 gramas por US$ 44,99 – preço alto para a clientela local. O dono, Randy Stokes, corta os próprios bifes para reduzir custos e ajusta porções para manter a casa cheia.
A crise foi agravada por um surto de mosca-da-bicheira no México, que suspendeu importações de gado — normalmente de 4% a 5% da oferta americana. O Brasil e a Austrália fornecem carne aos EUA, mas principalmente cortes industriais, não steak premium.
Recentemente, o governo Trump aumentou a cota de importação de carne da Argentina, outro grande exportador, para tentar mitigar a alta do alimento.
Mas o impacto inflacionário segue porque o estoque americano já estava historicamente baixo. E a retenção de novilhas – indicador de reconstrução do rebanho – ainda é baixa nos EUA. Analistas estimam que o movimento terá de acelerar antes de qualquer alívio nos preços. Isso significa menos carne disponível no curto prazo e steak caro por anos.
A oferta global pode ajudar, mas o coração da crise continua sendo doméstico: menos gado, menos produtores, mais incerteza climática. E, por enquanto, pouca perspectiva de alívio.